Menos pão, mais carne: como as canetas emagrecedoras começam a redesenhar a demanda por alimentos e o agronegócio brasileiro
Com 4 a 6 milhões de usuários no país, medicamentos como Ozempic e Mounjaro reduzem apetite e alteram padrões de consumo; estudo do Itaú BBA aponta queda na ingestão calórica de até 40%, migração para proteínas e reposicionamento de cadeias produtivas que vão do campo à gôndola

O que começou como uma revolução no tratamento da obesidade começa agora a mexer com a produção de alimentos no campo. As chamadas “canetas emagrecedoras” — medicamentos à base de agonistas de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic/Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) — não estão mais restritas ao consultório médico ou à farmácia. Elas já chegaram à mesa do consumidor e, de lá, ao agronegócio.
Um relatório divulgado recentemente pelo Itaú BBA indica que o fenômeno, que começou como uma tendência de saúde, agora redesenha a demanda da porteira para dentro, alterando o equilíbrio entre lavouras e pecuária. Projeções do banco, em parceria com a IQVIA, estimam que o Brasil tenha entre 4 e 6 milhões de usuários regulares desses medicamentos — com maior concentração nas classes A e B, consolidando o país como o segundo maior mercado mundial da categoria. A expectativa é que esse número possa saltar para 5,5 milhões de usuários até 2027, o equivalente a 2,7% da população acima de 5 anos.
🍽️ Menos calorias, mais seletividade: o novo padrão à mesa
O impacto mais direto das canetas emagrecedoras é, obviamente, a redução do apetite. Estudos analisados pelo Itaú BBA indicam reduções de até 40% na ingestão diária de calorias em alguns grupos de usuários. Mas a mudança não para na quantidade: ela é também qualitativa.
Segundo dados citados pelo banco, 56% dos usuários afirmam fazer escolhas mais saudáveis e 47% optam por porções menores. O resultado é uma queda acentuada na demanda por carboidratos refinados — com destaque para snacks e salgadinhos (-10,1%), produtos de padaria doce (-8,8%) e cookies (-6,5%) — e uma ascensão das proteínas.
Isso ocorre porque a recomendação nutricional para quem usa esses medicamentos mudou. Para mitigar a perda de massa muscular — que pode representar cerca de 20% do peso total perdido —, a comunidade científica tem recomendado um aumento no consumo de proteína, que pode chegar a 1,6 grama por quilo de peso corporal por dia, acima do padrão tradicional de 0,8 grama.
🐓 Proteína no centro do prato: frango, ovos e suínos são os grandes beneficiados
Essa mudança de hábito já começa a reorganizar a cadeia produtiva do agronegócio. O relatório da Cogo Inteligência em Agronegócio, citado pela CNN Brasil, é categórico: a principal consequência estrutural do avanço dos GLP-1 será a valorização das proteínas.
Entre os grandes beneficiados estão:
- Frango: baixo teor de gordura, alta concentração proteica, preço competitivo e associação com alimentação saudável. O Brasil, maior exportador mundial de frango, surge como um dos principais candidatos a capturar esse crescimento.
- Ovos: proteína completa, praticidade, baixo custo e alta saciedade. Poucos alimentos combinam tantas características desejadas pelo consumidor GLP-1.
- Suínos: o Brasil deve liderar o crescimento global de produção de carne suína em 2026 (projeção de +1,3% a +3,8%), beneficiado pela migração do consumo de carboidratos para carnes.
No varejo, o presidente do Assaí, Belmiro Gomes, já percebe a mudança: as lojas da rede registraram queda na compra de álcool e avanço gradual da demanda por proteínas. Segundo ele, o movimento tende a se intensificar com a chegada de uma nova geração de medicamentos prevista para este ano, que deve reduzir a perda de massa magra associada ao emagrecimento.
🌽 E os grãos? O desafio da adaptação
Enquanto as proteínas ganham espaço, os grãos enfrentam um desafio de reposicionamento. A redução gradual no consumo de cereais para alimentação humana direta — como trigo e derivados — pressiona o setor a focar ainda mais na eficiência da ração animal, já que a demanda por carne segue em níveis históricos.
Grãos destinados à ração animal, como milho e soja, podem se beneficiar de forma indireta com o fortalecimento da pecuária. O relatório da Cogo destaca que o fenômeno GLP-1 deve acelerar uma transição global para dietas mais proteicas, com maior valor nutricional e menor participação de ultraprocessados — e o Brasil aparece em posição privilegiada por sua força em soja, milho, frango, bovinos e ingredientes proteicos.
🔮 O futuro: uma revolução silenciosa que veio para ficar
A transformação ainda é gradual, mas estrutural. Como resume o relatório da Cogo Inteligência em Agronegócio: “Menos calorias não significa menos agronegócio”. O que está em curso é uma reconfiguração de padrões de consumo que conecta indústria farmacêutica, alimentação e agronegócio.
Atualmente, 18 milhões de pessoas usam regularmente medicamentos GLP-1 apenas nos Estados Unidos. A projeção é que mais de 100 milhões de pessoas no mundo estejam utilizando esses medicamentos até o fim da década. Com a quebra de patentes prevista para 2026 e a chegada de versões genéricas e biossimilares, os preços devem cair, ampliando o acesso em mercados emergentes.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes, a mensagem é clara: “Quem não entender que o consumidor mudou o hábito na farmácia, perderá competitividade na gôndola”.
🔍O impacto das canetas emagrecedoras no agro
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Usuários no Brasil | 4 a 6 milhões (atual) / 5,5 milhões (projeção 2027) |
| Posição do Brasil no mercado global | 2º maior mercado da categoria |
| Redução calórica em alguns grupos | Até 40% |
| Queda no consumo de snacks | -10,1% |
| Queda no consumo de padaria doce | -8,8% |
| Usuários que fazem escolhas mais saudáveis | 56% |
| Perda de massa magra em relação ao peso total | Cerca de 20% |
| Recomendação proteica por quilo corporal | Até 1,6g (vs. 0,8g padrão) |
| Grandes beneficiados | Frango, ovos, suínos, lácteos |
| Setores pressionados | Carboidratos refinados, ultraprocessados, bebidas alcoólicas |
| Usuários globais de GLP-1 (atual) | 18 milhões (EUA) |
| Projeção global até 2030 | Mais de 100 milhões |



