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Coração sob pressão: por que o frio do inverno aumenta o risco de infarto e AVC — e como se proteger

Instituto Nacional de Cardiologia estima alta de até 30% nos casos de infarto em temperaturas abaixo de 14°C; vasoconstrição, liberação de adrenalina e sangue mais viscoso sobrecarregam o sistema cardiovascular, especialmente em idosos e pessoas com comorbidades

O inverno chegou, e com ele um alerta silencioso para o coração. A queda brusca da temperatura não é apenas um desconforto térmico — é um gatilho fisiológico que pode aumentar em até 30% as ocorrências de infarto e em 20% os casos de AVC (Acidente Vascular Cerebral) , especialmente quando os termômetros ficam abaixo de 14°C, segundo estimativas do Instituto Nacional de Cardiologia. Pessoas de 75 a 84 anos e aquelas que já convivem com doenças cardiovasculares estão entre as mais vulneráveis.

O que pouca gente sabe é que o frio não é a causa direta desses eventos, mas atua como um potencializador de problemas que muitas vezes já estão silenciosos no organismo. E o alerta é especialmente relevante num país que registrou 398 mil mortes por doenças do aparelho circulatório em 2024 — a segunda maior taxa dos últimos 23 anos, atrás apenas do auge da pandemia de Covid-19.


🧬 O que acontece dentro do corpo quando o termômetro cai

O médico cardiologista Fernando Ribas, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que o corpo humano reage ao frio com uma série de mecanismos de defesa que, embora naturais, acabam sobrecarregando o sistema cardiovascular.

“O frio libera um pouco mais de mediadores para controlar melhor a temperatura do corpo. Liberamos mais adrenalina no sangue, hormônios relacionados ao estresse, até para aumentarmos a taxa de metabolismo e compensar essa redução” , explica Ribas.

Essa resposta fisiológica acontece em três frentes principais:

1. Vasoconstrição: o corpo contrai os vasos sanguíneos periféricos para reter calor, o que aumenta a resistência vascular e eleva a pressão arterial.

2. Liberação de adrenalina: o hormônio do estresse é liberado em maior quantidade, podendo desestabilizar placas de aterosclerose (acúmulo de gordura nas paredes das artérias) e desencadear um infarto ou AVC.

3. Descompensação metabólica: a adrenalina também interfere nos níveis de glicose e pressão arterial, podendo descompensar quadros de diabetes e hipertensão.

“Se o paciente tem risco cardiovascular, o estresse que vem da adrenalina pode desencadear uma instabilização de uma placa de aterosclerose, por exemplo, e provocar um infarto ou AVC” , alerta o cardiologista.


🩺 Um infarto que veio com o frio: o relato de Rosângela

A microempresária Rosângela Gusmão, 65, descobriu da pior forma como o frio pode ser um gatilho para eventos cardíacos. Ela mantinha uma rotina considerada exemplar: alimentação saudável acompanhada por nutricionista, exercícios físicos cinco vezes por semana (pilates e musculação), não era hipertensa e não tinha outras comorbidades.

Na manhã de 10 de junho de 2025, porém, sentiu uma dor súbita do lado esquerdo do peito, seguida por falta de ar e enjoo. Naquele dia, a temperatura mínima em São Paulo ficou em cerca de 14°C, e o mês foi marcado por massas de ar polar fortes e recordes de frio.

“Em menos de 10 minutos, eu já sentia uma forte queimação na região do coração. A dor irradiou para o braço e a escápula do lado esquerdo” , relata.

Socorrida por um vizinho e levada ao hospital, Rosângela descobriu que havia sofrido um infarto. Passou por uma angioplastia com implante de dois stents e dois meses de reabilitação cardiopulmonar. Hoje, diz estar mais atenta aos sinais do corpo.

O caso dela ilustra o que os especialistas alertam: o frio pode atingir qualquer um, inclusive pessoas aparentemente saudáveis e com hábitos de vida exemplares.


📊 Um problema de saúde pública: os números do coração no Brasil

Os dados escancaram a gravidade do cenário. Em 2024, o Brasil registrou aproximadamente 398 mil mortes por doenças do aparelho circulatório — incluindo hipertensão, arritmias e infarto. A taxa foi de 187,5 óbitos por 100 mil habitantes, a segunda maior dos últimos 23 anos, ficando atrás apenas de 2021, quando o índice chegou a 189,8 durante a pandemia de Covid-19.

Os números, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane com base em dados do Datasus, reforçam a urgência de medidas preventivas, especialmente durante os meses mais frios do ano.


🛡️ Como se proteger no inverno: um guia prático

O cardiologista Fernando Ribas elenca pilares fundamentais para preservar a saúde do coração durante o inverno:

PilarRecomendação prática
Sono de qualidadeRespeitar o tempo ideal de sono; dormir o suficiente para ficar descansado
Controle do estresseBuscar estratégias para reduzir a ansiedade e a tensão do dia a dia
Alimentação equilibradaPriorizar legumes, saladas, carnes magras e carboidratos integrais em 70%-80% das refeições semanais; evitar alimentos condimentados e gordurosos
Atividade física regularPraticar exercícios de três a cinco vezes por semana
Check-ups periódicosMonitorar pressão arterial, colesterol, glicose, função renal e hemograma — especialmente após os 40 anos
Não fumarO tabagismo é um dos principais fatores de risco cardiovascular

Sobre a frequência dos exames, Ribas orienta: “Em pacientes muito jovens, sem comorbidades, não vejo necessidade de fazer exame todo ano. Aqueles que passam dos 40 anos é interessante, sim, porque nosso organismo começa a ter uma maior facilidade de descompensação de colesterol, de glicose” .


🚨 Sinais de alerta: quando procurar ajuda imediatamente

Os sintomas de infarto podem surgir de forma súbita e incluem:

  • Dor ou queimação no peito, que pode irradiar para braços, costas ou mandíbula
  • Falta de ar e respiração acelerada
  • Suor frio e palidez
  • Náuseas ou vômitos
  • Sensação de enjoo e mal-estar geral

No caso de AVC, os sinais mais comuns são:

  • Fraqueza ou formigamento em um lado do corpo
  • Rosto torto ou assimétrico
  • Dificuldade para falar ou confusão mental
  • Perda de equilíbrio e tontura súbita

Diante de qualquer um desses sintomas, o Samu (192) deve ser acionado imediatamente. O tempo de resposta é decisivo para reduzir danos e salvar vidas.


💬 O veredito: o frio não é o culpado, mas é o gatilho

A mensagem dos especialistas é clara: o frio não é a causa direta do infarto, mas atua como um gatilho para problemas que muitas vezes já estão silenciosos no organismo. A vasoconstrição, a liberação de adrenalina e a descompensação metabólica criam uma tempestade perfeita que sobrecarrega o sistema cardiovascular.

O inverno exige cuidados redobrados — especialmente para idosos, hipertensos, diabéticos e pessoas com histórico de doenças cardíacas. Manter o corpo aquecido, hidratar-se adequadamente, evitar esforços físicos bruscos em dias muito frios e seguir as orientações médicas são medidas simples que podem fazer a diferença entre um inverno tranquilo e uma internação hospitalar.

“A temperatura não é a causa direta, mas pode potencializar esses problemas” , resume o cardiologista Fernando Ribas.

E o relato de Rosângela serve como um lembrete: mesmo quem se considera saudável pode estar vulnerável. O coração não avisa. Ele apenas pede passagem — e, no frio, esse pedido pode ser mais urgente do que se imagina.


🔍 Frio e coração — o que você precisa saber

AspectoInformação
Aumento de infartos no invernoAté 30% em temperaturas abaixo de 14°C
Aumento de AVCs no invernoAté 20%
Grupos mais vulneráveisPessoas de 75 a 84 anos; pacientes com comorbidades cardiovasculares; hipertensos; diabéticos
Principais mecanismosVasoconstrição, liberação de adrenalina, descompensação metabólica
Mortes por doenças cardiovasculares no Brasil (2024)398 mil (2ª maior taxa em 23 anos)
Pilares da prevençãoSono de qualidade, controle do estresse, alimentação equilibrada, atividade física regular, check-ups periódicos, não fumar
Número de emergênciaSamu 192

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