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segunda-feira, 2 de novembro de 2026
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Mortes evitáveis por câncer do colo do útero batem recorde no Brasil, escancarando falhas na prevenção

Mortes evitáveis por câncer do colo do útero batem recorde no Brasil, escancarando falhas na prevenção

País registrou 7.493 óbitos em 2024, o maior número da série histórica; especialistas apontam baixa cobertura vacinal contra HPV e desigualdades no acesso ao rastreamento como causas de uma tragédia anunciada

O Brasil atingiu em 2024 um triste e evitável recorde: 7.493 mulheres morreram vítimas de câncer do colo do útero, o maior número absoluto registrado desde o início da série histórica, em 2000. Os dados são do Observatório da Saúde Pública, da ONG Umane, que utiliza informações oficiais do DataSUS-SIM, e pintam um retrato cruel de uma doença para a qual existem ferramentas eficazes de prevenção – a vacina contra o HPV e o exame preventivo (Papanicolau) .

O número representa um crescimento de 13,4% nas mortes nos últimos três anos: foram 6,9 mil em 2022, 7,2 mil em 2023 e os atuais 7,5 mil. Apesar da alta nos números absolutos, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) prefere uma leitura cautelosa, classificando o cenário nacional como “estacionário” quando se analisam as taxas ajustadas por população. A taxa bruta de mortalidade passou de 6,65 para 6,88 mortes por 100 mil mulheres entre 2023 e 2024.

No entanto, por trás da média nacional, escondem-se realidades regionais profundamente desiguais.

  • Sudeste e Centro-Oeste apresentam tendência de queda na mortalidade.
  • Nordeste registra avanço nos óbitos.
  • Norte e Sul permanecem estáveis.

“Essas diferenças regionais estão associadas às desigualdades socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde. Regiões com maior vulnerabilidade social tendem a apresentar menor cobertura de rastreamento, diagnóstico mais tardio e, consequentemente, maior mortalidade” , explica Flávia Nascimento Carvalho, chefe substituta da Divisão de Vigilância e Análise de Situação do Inca.

O Perfil das Vítimas: Um Retrato da Desigualdade Social

Os dados do observatório revelam quem são as mulheres que mais morrem por essa causa no país:

  • Idade: 32,6% tinham 65 anos ou mais.
  • Raça/Cor: 48,3% eram pardas.
  • Escolaridade: 52,3% tinham de 0 a 7 anos de estudo (baixa escolaridade).

Para a superintendente-geral da Umane, Thais Junqueira, o perfil é um retrato das condições em que as pessoas vivem. “Esse contingente de mulheres, sobretudo em regiões mais remotas, enfrenta um acesso à saúde bastante desigual. É algo que a gente deve, como sociedade e como país, enfrentar” , afirmou.

O médico Glauco Baiocchi, líder do Centro de Referência em Tumores Ginecológicos do A.C. Camargo Cancer Center, pondera que parte do aumento pode dever-se à melhora na notificação, mas reforça o alerta: “É uma doença em que é possível acessar o órgão, já conhecemos a causa básica, podemos diagnosticar e intervir para o avanço da doença.”

As Ferramentas que Não Estão Sendo Usadas 💉

1. Vacina contra HPV: Abaixo da Meta
A vacinação é a principal arma para prevenir a infecção pelo papilomavírus humano, causador do câncer. A meta do Ministério da Saúde é 90% de cobertura para meninos e meninas de 9 a 14 anos.

  • Em 2024, a cobertura geral foi de 75,41% .
  • Entre meninas, chegou a 83,44% .
  • Entre meninos, ficou em 67,73% .
    Em 2025, a cobertura subiu para 80,10%, mas ainda longe do ideal. Baiocchi compara: “Países que tiveram vacinação massiva, como Austrália e alguns nórdicos, estão vendo a doença se tornar realmente rara. O impacto da vacina é gritante.”

2. Exame Preventivo: Quase 13% Nunca Fizeram
O rastreamento com Papanicolau deve ser feito por mulheres de 25 a 64 anos: anualmente e, após dois exames negativos, a cada três anos. No entanto, o Vigitel Brasil 2024 revelou que 12,5% das mulheres nessa faixa etária informaram que nunca realizaram o exame na vida.

Novas Tecnologias: Uma Luz no Fim do Túnel?

Em agosto de 2025, o Ministério da Saúde começou a implementar, de forma gradual, o teste molecular de DNA-HPV, uma tecnologia mais moderna que permite um intervalo seguro de cinco anos após um resultado negativo. O exame já está sendo ofertado em sete estados: Pernambuco, Pará, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro. A expectativa é que sua ampliação ajude a superar barreiras de acesso e periodicidade.

Projeções para o Futuro 📊

O Instituto Nacional de Câncer estima que, entre 2026 e 2028, o país registre 19.310 novos casos de câncer do colo do útero por ano, com um risco estimado de 17,59 casos a cada 100 mil mulheres. Atualmente, a doença é o terceiro tipo de câncer mais incidente entre as mulheres (7,4% do total), atrás apenas do câncer de mama (30%) e do colorretal (10,5%).

O recorde de mortes em 2024 soa como um alarme: há prevenção, há tratamento, há vacina. O que falta é um programa estruturado e equânime que alcance todas as mulheres, em todas as regiões, com a mesma eficiência.


🔍 O Retrato da Tragédia Evitável

IndicadorDado
Mortes em 20247.493 (recorde da série histórica)
Crescimento (2022-2024)+13,4%
Perfil predominante das vítimasIdosas (65+), pardas, baixa escolaridade
Cobertura vacinal HPV (2025)80,10% (meta é 90%)
Mulheres que nunca fizeram preventivo12,5% (25-64 anos)
Regiões em pior situaçãoNordeste (mortalidade em alta)
Regiões em melhoraSudeste e Centro-Oeste (em queda)