“Comem menos, gastam menos”: o efeito silencioso das canetas emagrecedoras que já impacta restaurantes e muda hábitos
Com crescimento de 88% no uso desses medicamentos em 2025, estabelecimentos em Natal e outras cidades relatam queda no ticket médio, redução no consumo de álcool e até reformulação de cardápios para se adaptar ao novo perfil de cliente

A revolução das canetas emagrecedoras não está acontecendo apenas dentro do corpo dos usuários, onde suprimem o apetite e desaceleram a digestão. Ela já chegou às mesas dos restaurantes. Em Natal (RN), estabelecimentos relatam uma mudança silenciosa, mas significativa, no comportamento dos clientes: eles estão comendo menos, priorizando refeições mais leves, dividindo pratos e bebendo menos álcool. O resultado é uma queda no faturamento e a necessidade de repensar cardápios.
Os medicamentos à base de agonistas de GLP-1 e tirzepatida (como Ozempic, Wegovy e Mounjaro) atuam diretamente no hipotálamo, aumentando a sensação de saciedade e retardando o esvaziamento gástrico. Para os usuários, isso significa uma redução natural na quantidade de comida ingerida. Para o setor de alimentação, é um novo desafio.
“Já é comum pedirem um prato para dividir” 🍽️
Paolo Passariello, proprietário do tradicional restaurante Gennarí, em Natal, afirma que a mudança já impactou o negócio de forma mensurável. “Já faz um tempo que eu observo essa tendência e, por isso, tivemos uma redução no ticket médio; as pessoas gastam menos em relação ao que gastavam antigamente” , relata.
O chefe observa que é cada vez mais comum grupos de clientes pedirem um único prato para compartilhar entre três ou quatro pessoas. “Isso reduz o faturamento da casa” , afirma. Para se adaptar, o restaurante planeja incluir meias porções no cardápio e aumentar a oferta de proteínas, já que usuários desses medicamentos precisam manter a ingestão de nutrientes mesmo com menos volume.
No Zeh Cozinha, a experiência tem sido semelhante. A empresária Maria Cláudia Valle conta que o ticket médio do restaurante registrou queda, e o consumo de bebidas alcoólicas também diminuiu. “Hoje, muitas vezes, um prato é compartilhado com 3, 4 pessoas. No consumo de bebida alcoólica, também houve redução; as pessoas foram consumindo menos álcool. Consequentemente, isso reduz o ticket médio” , explica.
O restaurante já observava, mesmo antes do boom das canetas, uma demanda por porções menores. Agora, a tendência se intensificou: clientes passaram a escolher entradas como refeição principal. Um exemplo é o camarão com purê de limão, originalmente uma entrada, mas que hoje frequentemente é pedido como prato principal, especialmente por quem busca uma refeição com boa quantidade de proteína.
Menos Vinho, Mais Mocktails: a Nova Cartela de Bebidas 🍸
A redução no apetite também se estende ao interesse por bebidas alcoólicas. No Gennarí, famoso pela carta de vinhos, a queda nas vendas já é perceptível. “Eu converso muito com nossos clientes; o uso da caneta inibe tanto a comida quanto a bebida“ , observa Paolo.
Em resposta, o Zeh Cozinha ampliou significativamente as opções de bebidas sem álcool. Os mocktails — coquetéis sofisticados e sem álcool — ganharam destaque no cardápio, ao lado de cervejas zero álcool. “É um novo cenário. Não é só menos comida. As pessoas estão mais preocupadas com a funcionalidade dos alimentos, com o que pode ser consumido” , afirma Maria Cláudia Valle.
No Manary, o chef Francisco Gasteasoro também percebeu a mudança: “Hoje em dia, a gente vê muito a diminuição do consumo de bebida alcoólica. Aumentou a frequência de pessoas indo para academias, fazendo atividade física” , contextualiza, ligando a tendência a um movimento mais amplo de busca por hábitos saudáveis.
Nutricionista Alerta: Comer Menos Não é Sinônimo de Comer Bem ⚠️
A nutricionista clínica funcional Christiane Potter reforça que a redução no apetite causada pelas canetas exige um cuidado redobrado com a qualidade nutricional da dieta.
“Comer menos não significa uma alimentação saudável; a qualidade da dieta não está relacionada apenas à quantidade de comida. Para quem está usando as canetas, a qualidade deve ser priorizada. Comer menos volume e aumentar densidade e qualidade nutricional é o melhor a fazer” , orienta.
Segundo ela, a orientação de um nutricionista é indispensável para evitar escolhas pobres em nutrientes, que podem levar a fadiga, perda de massa muscular e deficiências nutricionais — efeitos já documentados na série de reportagens sobre “agonorexia” e outros riscos associados ao uso indiscriminado desses medicamentos.
A especialista também destaca a importância de evitar o consumo de álcool durante o tratamento, para reduzir impactos na glicose, no fígado e no intestino.
Uma Nova Relação com a Comida: Menos Volume, Mais Experiência 🍴
Para os chefs e proprietários, a mudança reflete uma transformação mais profunda no comportamento do consumidor. Francisco Gasteasoro, do Manary, resume: “Hoje a gente não vai só para o restaurante com o propósito de se alimentar, e sim com o propósito de uma experiência.”
Eimard Fernandes, do Zeh Cozinha, vê a tendência como uma evolução dos hábitos alimentares: “Essa eu diria que é uma evolução no hábito das pessoas de tentar ser mais saudáveis e não necessariamente tira as pessoas da convivência social. Ninguém deixa de vir para o restaurante. Apenas ele vem de outra forma.”
O movimento é acompanhado de dados expressivos: segundo o Conselho Federal de Farmácia, o uso de canetas emagrecedoras cresceu 88% no Brasil em 2025. Milhares de brasileiros estão, literalmente, comendo menos. E, como mostram os relatos dos restaurantes de Natal, esse novo comportamento já está reconfigurando não apenas corpos, mas também negócios, cardápios e a própria cultura alimentar.
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🔍 O Impacto das Canetas no Setor de Alimentação
| Aspecto | Observação |
|---|---|
| Ticket médio | Em queda, segundo restaurantes ouvidos |
| Comportamento à mesa | Pratos divididos entre mais pessoas; entradas viram refeição principal |
| Consumo de álcool | Redução significativa, impulsionando oferta de mocktails e cervejas zero álcool |
| Adaptação dos cardápios | Inclusão de meias porções, aumento da oferta de proteínas, pratos “fitness” |
| Perfil do cliente | Busca por qualidade nutricional e experiência, não apenas volume |
| Números | Uso de canetas cresceu 88% no Brasil em 2025 (Conselho Federal de Farmácia) |




