Perda de músculo com as canetas emagrecedoras: a corrida da ciência para evitar que o tratamento vire problema
Estudos mostram que até 40% do peso perdido com agonistas do GLP-1 pode ser massa magra; enquanto uma nova droga em teste promete reter músculos, especialistas alertam que o maior vilão é o uso inadequado — e que exercício e proteína continuam sendo a base

O sucesso meteórico das canetas emagrecedoras — como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — veio acompanhado de uma sombra que a ciência corre para iluminar: a perda de massa magra. Estima-se que entre 25% e 40% do peso perdido com esses medicamentos possa ser tecido muscular, e não apenas gordura. A preocupação é tamanha que uma nova droga, o apitegromab, já está em testes clínicos para ser usada em combinação com os agonistas do GLP-1, com resultados promissores de retenção muscular. Mas, enquanto essa solução não chega, a comunidade médica reforça uma mensagem que parece óbvia, mas nem sempre é seguida: dieta rica em proteínas e exercícios de resistência são a primeira linha de defesa.
O dilema da massa magra: quanto músculo se perde e por quê
A perda de massa magra não é um fenômeno exclusivo das canetas emagrecedoras — qualquer emagrecimento significativo envolve alguma redução de tecido muscular. O problema é que, com os agonistas do GLP-1, a perda de apetite pode ser tão intensa que a ingestão de proteínas fica severamente comprometida, acelerando o processo.
Além disso, nem toda a massa magra perdida é músculo: parte é composta por água e tecido conjuntivo. A literatura médica ainda não tem uma resposta definitiva sobre o quanto essa perda é clinicamente relevante a ponto de comprometer o tratamento, mas os dados já acenderam um alerta mundial.
O que a ciência recomenda agora: proteína, peso e suplementos
Enquanto drogas como o apitegromab não chegam ao mercado, as estratégias são comportamentais e nutricionais. Um estudo liderado por Jeffrey Mechanick, do Hospital Mount Sinai de Nova York, resume a abordagem em duas frentes principais:
- Terapia nutricional: garantir a ingestão adequada de proteínas de alta qualidade e micronutrientes, com suplementação oral quando necessário.
- Atividade física: especialmente o treinamento de resistência (musculação), que tem demonstrado minimizar eficazmente a perda de massa e função muscular durante a terapia de redução de peso.
Pesquisadores da Universidade San Rafaelle de Roma também publicaram uma revisão de estudos sobre o papel dos aminoácidos essenciais e peptídeos na preservação muscular. A conclusão: a suplementação pode ajudar, mas os benefícios são mais consistentes quando combinados com exercícios de resistência.
O paradoxo da preguiça: a caneta não faz ninguém se mexer sozinho
Um dado preocupante veio à tona no congresso anual da Sociedade Endócrina dos Estados Unidos, em Chicago. A pesquisadora Sajana Maharjan, do Hospital St. John de Illinois, apresentou um estudo preliminar que mostra que, no mundo real, pacientes que iniciam o tratamento com agonistas do GLP-1 diminuem significativamente o número de passos diários e a atividade física moderada a vigorosa.
Ou seja: a perda de peso por si só não gera automaticamente mais disposição para se exercitar — e homens e pessoas com dores musculoesqueléticas são os que mais reduzem a atividade. O achado reforça a necessidade de intervenções direcionadas que incentivem a atividade física durante o tratamento, e não apenas a prescrição da caneta.
A promessa do apitegromab: reter músculos com uma droga
Enquanto o comportamento falha em alguns casos, a farmacologia avança. O apitegromab, uma droga que já é usada para combater a perda de musculatura em outros pacientes, funciona bloqueando a miostatina — uma proteína que inibe o crescimento muscular.
Num ensaio clínico de fase 2 com 102 pessoas em tratamento com tirzepatida (Mounjaro), um grupo recebeu o apitegromab e outro, placebo. Após 24 semanas, os resultados foram expressivos:
| Grupo | Perda de massa magra | Retenção em relação ao placebo |
|---|---|---|
| Apitegromab | 1,9 kg a menos de perda | 54,9% de retenção |
| Placebo | Perda maior | — |
O estudo, publicado na revista Nature Medicine na semana passada, mostra que a droga preservou músculos sem comprometer a perda de peso total. Mas o resultado não é uma garantia: o apitegromab ainda precisa passar por um ensaio clínico de fase 3 com mais voluntários antes de ser aprovado para essa indicação.
O alerta do endocrinologista: não demonizar, mas também não banalizar
O endocrinologista Alexandre Hohl, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, faz um contraponto importante ao debate. Para ele, a perda de massa magra não deve ser usada para demonizar as canetas, que são um divisor de águas no tratamento da obesidade.
“Há 10 anos, alguns pacientes chegavam chorando no nosso consultório e não tinha nada para fazer. Agora temos. A obesidade é uma doença crônica recidivante que mata, inclusive pela associação com câncer e uma série de outras doenças” , afirma Hohl.
Ele também relativiza os temores: evidências apresentadas no Congresso Americano de Diabetes mostraram que a perda muscular decorrente das canetas não está associada à perda de mobilidade das pessoas. Já os fenómenos virais como “Ozempic face” e “Ozempic butt” estão ligados a situações extremas de uso inadequado, e não ao uso clínico correto.
Dois mundos, um mesmo medicamento
Hohl chama atenção para uma distinção crucial: há dois cenários no mundo real:
| Cenário | Perfil do paciente | Consequência |
|---|---|---|
| Uso indicado | Pessoas clinicamente obesas, com acompanhamento médico | Perda de massa magra mitigada com dieta e exercício; benefícios superam riscos |
| Uso inadequado | Pessoas com transtornos alimentares, magreza, sem indicação clínica | Perda exagerada de massa gorda e magra; riscos elevados |
“O que percebemos são casos e mais casos de pessoas que nitidamente estão com transtornos alimentares, com magreza, e claramente uma perda de massa magra e massa gorda de maneira exagerada” , alerta Hohl.
Para os casos clínicos, a prática atual já consegue mitigar o problema da perda de massa magra antes de chegar à necessidade de recorrer a novos remédios — como o apitegromab, que pode se tornar uma ferramenta no futuro, mas não substitui o básico.
O veredito: a caneta certa, no paciente certo, com o acompanhamento certo
A perda de massa muscular com as canetas emagrecedoras é real, mensurável e merece atenção. Mas, segundo os especialistas, ela não invalida o tratamento — desde que ele seja feito com critério, supervisão médica e suporte nutricional e de exercícios.
A ciência já tem caminhos para reduzir esse efeito colateral: mais proteína, mais peso na academia e, no horizonte, uma droga que pode reter músculos enquanto a gordura desaparece. O maior risco, hoje, não está na caneta em si, mas em quem a usa sem precisar — e sem saber o que está perdendo.
🔍 Perda de massa magra e canetas emagrecedoras
| Aspecto | Informação |
|---|---|
| Proporção de peso perdido que pode ser massa magra | 25% a 40% |
| Estratégias atuais para mitigar a perda | Dieta rica em proteínas, suplementação de aminoácidos e treinamento de resistência |
| Efeito colateral comportamental | Pacientes tendem a reduzir atividade física durante o tratamento |
| Droga em teste | Apitegromab (bloqueia miostatina) |
| Resultado do estudo de fase 2 | Retenção de 54,9% da massa magra em comparação com placebo |
| Publicação | Nature Medicine (junho de 2026) |
| Próximo passo | Ensaio clínico de fase 3 para aprovação |
| Principal alerta | Uso inadequado (em pessoas sem obesidade) é o que causa perda muscular extrema |
| Posição dos especialistas | Benefícios das canetas superam riscos quando usadas com indicação e acompanhamento |




