OMS convoca comitê de emergência enquanto surto de ebola na RDC já soma 131 mortes e ameaça se alastrar
Variante rara do vírus, para a qual não há vacinas ou tratamentos aprovados, já cruzou a fronteira com Uganda, matou profissionais de saúde e acendeu alerta global; agência considera cenário “extraordinário” e pede contenção urgente

Em meio à 16ª reunião anual da Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, a Organização Mundial da Saúde (OMS) acionou seu mais alto nível de alerta para um surto que já dura semanas e se espalha rapidamente pelo leste da República Democrática do Congo (RDC). A agência convocou para esta terça-feira (19) uma reunião de emergência do comitê de regulamentação sanitária, dois dias após classificar a epidemia como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) – o segundo nível mais elevado de alerta, atrás apenas de uma emergência pandêmica.
Os números são preocupantes e evoluem a cada boletim. De acordo com o Ministério da Saúde congolês, o país registra 131 mortes suspeitas e 513 casos suspeitos. A OMS, em seu último relatório, confirma 8 casos confirmados em laboratório, 246 casos suspeitos e 80 óbitos suspeitos na província de Ituri, no leste do país, considerados os dados oficiais mais atualizados até o momento.
Uma Cepa Rara e sem Ferramentas: O Desafio do Bundibugyo
O surto atual é causado por uma variante rara e pouco conhecida do ebola: o vírus Bundibugyo, uma das seis espécies do gênero Ebolavirus. Esta cepa é particularmente desafiadora porque, ao contrário da cepa Zaire – responsável pela maioria dos surtos conhecidos –, não existem vacinas ou tratamentos medicamentosos aprovados especificamente contra ela.
“A situação é complexa o suficiente para exigir coordenação internacional” , avaliou a Dra. Amanda Rojek, do Instituto de Ciências Pandêmicas da Universidade de Oxford.
A letalidade estimada do Bundibugyo gira em torno de 30% a 40% dos infectados, um patamar ligeiramente inferior ao da cepa Zaire (que pode chegar a 90% em alguns surtos), mas ainda assim altamente perigoso.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, manifestou profunda preocupação com “a escala e a velocidade” do surto, que já dura semanas e ameaça fugir ao controle.
Propagação Internacional e Mortes de Profissionais de Saúde
A confirmação, no último domingo (17), de pelo menos dois casos do vírus em Uganda, país vizinho, um deles com desfecho fatal, foi o estopim para a declaração de emergência internacional. A OMS informou que os infectados viajaram da RDC para a capital Kampala, sem nenhuma ligação aparente entre si, o que sugere múltiplas cadeias de transmissão.
A situação sobre o terreno é ainda mais delicada devido a outros fatores agravantes:
- Profissionais de saúde na linha de frente: Pelo menos quatro profissionais de saúde estão entre as vítimas fatais. Isso acendeu o alerta para possíveis falhas nos protocolos de prevenção e controle de infecções (PCIR) nas unidades de saúde locais, o que pode amplificar a transmissão dentro dos hospitais.
- Insegurança e conflito armado: A região leste da RDC é assolada por décadas de guerra civil e instabilidade, o que dificulta enormemente o acesso das equipes de resposta, o rastreamento de contatos e a implementação de medidas de contenção.
Possível “Surto Muito Maior” e Resposta Global
A OMS alerta que os números oficiais podem representar apenas “a ponta do iceberg”. A alta taxa de positividade entre as primeiras amostras (oito positivos entre 13 coletadas), o aumento contínuo de casos suspeitos e o surgimento de aglomerados de mortes na comunidade sugerem que a transmissão já pode ser generalizada.
“Estamos profundamente preocupados. O vírus já cruzou fronteiras e não temos um arsenal completo para detê-lo. Precisamos de ação imediata e coordenada” , afirmou o diretor-geral da OMS na abertura da assembleia.
O comitê de emergência reunido nesta terça-feira deve deliberar sobre as recomendações temporárias para os países afetados e para a comunidade internacional, incluindo protocolos de vigilância em fronteiras, rastreamento de contatos e preparação de sistemas de saúde.
Apesar da gravidade, a OMS ressalta que o atual surto não atende aos critérios para ser declarado uma emergência pandêmica. O risco de propagação global permanece baixo, mas o cenário para a região da África Central, com as estreitas ligações comerciais e de viagens entre a RDC, Uganda, Ruanda e Sudão do Sul, é de alto risco.
🔍 Surto de ebola na RDC (atualização – 19 de maio de 2026)
| Indicador | Informação |
|---|---|
| Nível de Alerta OMS | Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) |
| Cepa causadora | Vírus Bundibugyo (raro, sem vacina aprovada) |
| Área mais afetada | Província de Ituri (leste da RDC) |
| Casos suspeitos | 513 (Ministério da Saúde RDC) / 246 (OMS) |
| Mortes suspeitas | 131 (Ministério da Saúde RDC) / 80 (OMS) |
| Casos confirmados lab | 8 (RDC) + 2 (Uganda) |
| Profissionais de saúde mortos | Pelo menos 4 (RDC) |
| Letalidade estimada | 30% a 40% |
| Fatores agravantes | Guerra civil, insegurança, falta de vacinas e tratamentos, casos em país vizinho (Uganda) |
| Próximo passo | Reunião do comitê de emergência da OMS para definir recomendações temporárias |




