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Novas diretrizes dos EUA para o colesterol trazem alerta contra suplementos e ampliam visão de risco para 30 anos

Documento da AHA e ACC reforça prevenção precoce desde a infância, inclui novas ferramentas de cálculo de risco e recomenda cautela com produtos como óleo de peixe, sem eficácia comprovada contra eventos cardiovasculares

O controle do colesterol ganhou um novo e importante capítulo. A Associação Americana do Coração (AHA) e o Colégio Americano de Cardiologia (ACC) divulgaram uma atualização das diretrizes para o manejo do colesterol e prevenção de doenças cardiovasculares, trazendo novidades que vão desde a forma de calcular o risco do paciente até um alerta contundente sobre o uso de suplementos alimentares.

Especialistas brasileiros ouvidos pelo Estadão analisaram as principais mudanças do documento, que alinha-se, em muitos pontos, com as orientações já adotadas pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em sua última diretriz, publicada em setembro de 2025.

1. Prevenção Começa na Infância 👶

Um dos pilares do novo documento é a ênfase na identificação e controle precoces do colesterol. O médico José Francisco Saraiva, membro do Departamento de Aterosclerose da SBC, explica que a aterosclerose – o acúmulo de gordura nas artérias – é um processo inflamatório que pode começar já na infância.

Por isso, as entidades norte-americanas reforçam a recomendação de rastreamento do colesterol em crianças entre 9 e 11 anos, especialmente para detectar casos de hipercolesterolemia familiar, uma condição genética que eleva drasticamente o risco cardiovascular desde cedo.

2. Nova Ferramenta de Risco: PREVENT (e o Horizonte de 30 Anos) 📊

A diretriz introduz uma nova calculadora de risco cardiovascular, chamada PREVENT, com avanços significativos em relação às ferramentas anteriores, que projetavam o risco em até 10 anos. Agora, é possível estimar a probabilidade de eventos cardiovasculares em até 30 anos.

De acordo com Saraiva, as equações da PREVENT incorporam fatores de risco antes não considerados, como:

  • Excesso de peso ou obesidade.
  • Doença renal crônica.

Além disso, a ferramenta passou a calcular também a probabilidade de o paciente desenvolver insuficiência cardíaca, um desfecho cardiovascular grave e diretamente relacionado ao acúmulo de fatores de risco ao longo da vida. “É uma reunião de dados mais abrangentes e mais bem calibrados, mais refinados” , avaliou o cardiologista.

3. Exames Mais Específicos Entram em Cena 🔬

A diretriz americana agora inclui a recomendação de exames mais específicos para uma avaliação de risco mais precisa:

  • Lipoproteína(a) [Lp(a)]: Recomenda-se medir este marcador pelo menos uma vez na vida, uma orientação que já consta na diretriz brasileira. Níveis elevados de Lp(a) têm forte componente genético e são um fator de risco independente para doenças cardiovasculares.
  • Apolipoproteína B (ApoB): Pode ser utilizada principalmente quando há dúvida sobre o risco real do paciente ou como uma meta extra no tratamento, ajudando a garantir que a proteção cardiovascular seja mais adequada. A ApoB mede o número de partículas aterogênicas (que causam aterosclerose) no sangue.

O documento também atualizou as orientações sobre novas terapias para o tratamento da hipertrigliceridemia grave (níveis muito elevados de triglicérides).

4. O Recado Mais Direto: Suplementos Não Substituem Remédios ⚠️

Um dos pontos que mais chama a atenção na nova diretriz é o posicionamento firme em relação aos suplementos alimentares.

“Não é recomendado substituir medicamentos tradicionais, validados por grandes estudos, por suplementos alimentares, já que estes não possuem eficácia comprovada para a diminuição do risco cardiovascular.”

O exemplo citado é o do óleo de peixe (ômega-3), amplamente consumido como alternativa “natural” para a saúde do coração. A diretriz é clara: não há evidências robustas de que ele substitua as estatinas e outros fármacos com eficácia comprovada em reduzir infartos e AVCs.

Especialistas brasileiros endossam o alerta com argumentos adicionais:

  • Evidência frágil: “A base dessa recomendação é clara. Nos suplementos, a evidência se apoia em opiniões isoladas, frequentemente de quem cria ou comercializa o produto. Raramente há validação clínica robusta” , afirma o cardiologista Luiz Sérgio Carvalho, do Hospital Sírio-Libanês.
  • Variabilidade e risco: A nutricionista Aline Marcadenti de Oliveira, da Socesp, pontua que os suplementos têm grande variabilidade de composição e doses, ao contrário dos medicamentos padronizados. “Ao substituir os medicamentos, a gente pode aumentar o risco de infartos, AVCs e piorar a aterosclerose.”
  • Efeito colateral pouco conhecido: Aline acrescenta que o ômega-3, por exemplo, pode aumentar o LDL (o “mau” colesterol) em alguns casos.

O cardiologista Leandro Costa, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, resume o espírito da diretriz: as recomendações são baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis, priorizando as opções mais bem sustentadas por dados.

O que Fica para o Paciente?

A mensagem final das diretrizes – americanas e brasileiras – é de que o manejo do colesterol deve ser precoce, personalizado e baseado em ciência. A prevenção de longo prazo (30 anos) exige uma visão ampliada, que começa na infância e leva em conta múltiplos fatores. E, num mundo de promessas milagrosas nas redes sociais, a orientação é clara: não troque o certo (medicamentos validados) pelo duvidoso (suplementos sem eficácia comprovada).


Principais Novidades das Diretrizes AHA/ACC 2026

AspectoO que Mudou / Foi Reforçado
Início da PrevençãoRastreio de colesterol em crianças de 9 a 11 anos (hipercolesterolemia familiar).
Ferramenta de RiscoCalculadora PREVENT, com projeção de risco de até 30 anos, incluindo insuficiência cardíaca e novos fatores (obesidade, doença renal).
Novos ExamesMedida da Lipoproteína(a) [Lp(a)] ao menos uma vez na vida. Uso da ApoB para refinar risco e metas.
SuplementosAlerta contra substituir medicamentos por suplementos como óleo de peixe, sem eficácia comprovada para redução de eventos cardiovasculares.
TriglicéridesInclusão de novas terapias para casos graves (hipertrigliceridemia).

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