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Tecnologia pode mudar a vida de quem vive com diabetes, mas acesso é restrito no SUS e vira batalha judicial

Sete em cada dez brasileiros com diabetes dizem que a doença afeta o bem-estar emocional; 44% defendem uso de sensores inteligentes para prever crises glicêmicas; vice-presidente da SBD alerta para gastos menores com internações, mas Conitec ainda resiste à incorporação em larga escala

O diabetes é uma epidemia silenciosa que avança sobre o Brasil. São 16,6 milhões de adultos diagnosticados, o que coloca o país na 6ª posição mundial em número de casos. A cada ano, mais brasileiros descobrem que convivem com a doença – e com o impacto profundo que ela causa não apenas no corpo, mas também na mente.

Uma pesquisa global realizada em setembro de 2025 pelo Global Wellness Institute (GWI) , em parceria com a Roche Diagnóstica, ouviu 4.326 pessoas com diabetes em 22 países – sendo 20% delas no Brasil. Os resultados, divulgados nesta quinta-feira (21), revelam uma realidade que muitas vezes fica escondida atrás dos números de exames e receitas: o adoecimento emocional.

Sete em cada dez brasileiros com diabetes afirmam que a doença afeta de modo significativo o bem-estar emocional. Setenta e oito por cento relatam ter ansiedade ou preocupação com o futuro, e dois em cada cinco pacientes se sentem sós ou isolados em função da doença.

O dado mais contundente, no entanto, vem da relação com a tecnologia. Quarenta e quatro por cento dos entrevistados defendem que tecnologias mais inteligentes, capazes de prever mudanças nos níveis de glicose, deveriam ser priorizadas para prevenção de complicações. Entre os que usam medidores tradicionais (glicosímetros de ponta de dedo), 46% consideram que os sensores de monitoramento contínuo de glicose (CGM) deveriam ser adotados devido à capacidade de funcionarem como alertas preditivos.

O peso invisível da doença: ansiedade, isolamento e incerteza

A pesquisa da GWI e Roche escancara a dimensão psicológica de uma condição que exige vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana:

  • 55% dos brasileiros com diabetes dizem não acordar plenamente descansados, devido aos efeitos das variações glicêmicas durante a noite.
  • 56% afirmam que o diabetes limita a capacidade de passar o dia fora de casa.
  • 46% têm dificuldades em situações comuns, como trânsito ou reuniões longas.
  • Somente 35% se consideram muito confiantes no gerenciamento da própria condição.

“Não é só uma questão de tomar remédio e medir a glicose. É viver com a incerteza constante do que vai acontecer nas próximas horas. Isso desgasta”, resume uma paciente ouvida pela reportagem.

A promessa da tecnologia: prever, prevenir e proteger

Entre os pacientes com diabetes tipo 1 – aqueles que dependem totalmente da insulina e têm oscilações glicêmicas mais bruscas –, a demanda por tecnologia é ainda mais alta. Noventa e cinco por cento consideram fundamentais ferramentas capazes de prever hipoglicemia e hiperglicemia, o que facilitaria a convivência diária com a doença.

Cinquenta e três por cento dos entrevistados apontam que a principal funcionalidade desejada em sensores com inteligência artificial (IA) é a capacidade de prever níveis futuros de glicose. Entre os pacientes com diabetes tipo 1, esse número sobe para 68%. Saber as tendências antecipadas dos níveis de glicose daria a 56% dos brasileiros consultados a sensação de estarem no controle da doença, enquanto 48% disseram que a redução de surpresas – picos e quedas inesperadas – aumentaria significativamente sua qualidade de vida.

André Vianna, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), explica a importância desses dispositivos: “O ideal para esses pacientes é ter um monitoramento contínuo da glicose por meio de sensores que já estão amplamente disponíveis em grande parte do mundo. Esse sensor permite à pessoa entender precocemente o que vai acontecer nas próximas horas. A pessoa vai saber se a glicose dela daqui a meia hora vai estar alta ou baixa e pode tomar uma atitude preventiva.”

O paradoxo: tecnologia disponível, mas fora do alcance da maioria

No Brasil, os sensores de monitoramento contínuo de glicose são amplamente difundidos entre pessoas de maior poder aquisitivo, que podem arcar com os custos – que ultrapassam R$ 300 por sensor, com duração de até 14 dias. Já no Sistema Único de Saúde (SUS), a realidade é outra: não houve disponibilização em larga escala.

Em janeiro de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) decidiu não incorporar o sistema de monitorização contínua da glicose por escaneamento intermitente (conhecido como “sensor flash” ou FreeStyle Libre) para pacientes com diabetes tipos 1 e 2. A portaria SECTICS/MS nº 2, de 31 de janeiro de 2025, tornou pública a decisão, sob a justificativa de avaliação técnica e econômica.

Enquanto isso, em países ricos como França, Reino Unido e Estados Unidos, esses sensores são disponibilizados amplamente – seja por sistemas públicos de saúde, seja por operadoras de saúde privadas.

“Essas pessoas vão acabar indo menos para o hospital, vão se internar menos, vão menos para o pronto-socorro. Isso, inclusive, além de melhorar a saúde, diminui o custo do tratamento”, argumenta Vianna. “Por isso, o monitor contínuo já é algo bastante estabelecido no mundo.”

A judicialização do acesso: uma saída, mas não a solução

Diante da ausência de uma política nacional de fornecimento de sensores, famílias têm recorrido à Justiça. Em Santa Catarina, a Defensoria Pública garantiu na Justiça o direito de uma paciente com diabetes tipo 1 a receber gratuitamente o sensor FreeStyle Libre 2. No Rio de Janeiro, a Defensoria conseguiu insumo para uma criança em Paraty. Em Mato Grosso do Sul, uma audiência pública discutiu a criação de política estadual para atender cerca de 5,8 mil pessoas com diabetes tipo 1, com prioridade para crianças e adolescentes.

Projetos de lei municipais e estaduais têm avançado aos poucos. Em Ribeirão Preto (SP) , a partir de abril de 2026, crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 passaram a contar com o FreeStyle Libre 2 de forma gratuita – 15 pacientes receberam o sensor na cerimônia de abertura. Em São Sebastião (SP) , a prefeitura incorporou o sensor ao protocolo municipal de acompanhamento de pacientes com diabetes. Mas essas ações ainda são pontuais, dependentes da vontade política local e de orçamentos municipais.

A nova geração de bombas de insulina: inteligência artificial a serviço do paciente

Enquanto o SUS ainda debate a incorporação dos sensores, a tecnologia não para. Em outubro de 2025, a Anvisa aprovou o registro da Nano Pump, considerada a menor bomba de insulina automatizada do mundo. O dispositivo, desenvolvido pela empresa chinesa Medtrum, é um patch pump adesivo, sem fios, colado diretamente sobre a pele.

O grande diferencial não está apenas no tamanho (4 cm por 3 cm por 1 cm de espessura). O sistema integra um sensor de glicose (CGM Nano) e um algoritmo de inteligência artificial, que mimetiza o funcionamento de um pâncreas artificial. Ele ajusta automaticamente a liberação de insulina conforme as flutuações nos níveis de glicose, calculados a cada dois minutos.

“A inteligência do sistema está na sua integração com o sensor de glicose. Juntos, bomba e sensor utilizam um algoritmo inteligente que ajusta automaticamente a liberação do hormônio de acordo com as flutuações nos níveis de glicose no sangue, mimetizando de forma parcial a função de um pâncreas saudável”, explica o comunicado da Alliance Pharma, representante da Medtrum no Brasil.

A bomba tem uso autorizado para crianças a partir de 2 anos (modo manual) e a partir de 6 anos (modo automático), é à prova d’água e estará disponível no mercado privado. O preço, no entanto, ainda não foi divulgado, mas a expectativa é que seja acessível apenas para quem tem plano de saúde de alto nível ou recursos próprios.

O futuro do diabetes no Brasil: onde a tecnologia encontra a política pública

Para o vice-presidente da SBD, a tecnologia não é um luxo – é uma necessidade. “Vem diminuir essa carga do diabetes, esse estresse diário e constante das pessoas que convivem com diabetes e com a incerteza do que vai acontecer com a sua glicose daqui a algum tempo, atrapalhando muitas vezes as funções diárias do indivíduo – o sono, o trabalho, momentos de descontração.”

Mas, enquanto a incorporação ampla de sensores e bombas de insulina não avança no SUS, o Brasil convive com uma realidade de duas velocidades: quem tem recursos – ou recorre à Justiça – tem acesso; quem não tem, continua usando a ponta de dedo e lidando com a angústia da incerteza.

Os números da pesquisa GWI/Roche são inequívocos: 70% dos brasileiros com diabetes já disseram que a doença afeta seu bem-estar emocional. A tecnologia que pode reduzir essa carga já existe. Falta a vontade política e o investimento para que ela chegue a quem mais precisa.


🔍 Resumo da pesquisa GWI/Roche sobre diabetes e tecnologia no Brasil

IndicadorPercentual
Brasileiros que dizem que diabetes afeta o bem-estar emocional70%
Relatam ansiedade ou preocupação com o futuro78%
Sentem-se sós ou isolados pela doença40% (2 em cada 5)
Dizem que diabetes limita passar o dia fora de casa56%
Têm dificuldades em situações comuns (trânsito, reuniões)46%
Não acordam descansados por variações glicêmicas noturnas55%
Consideram fundamentais ferramentas preditivas (diabetes tipo 1)95%
Defendem priorização de tecnologias inteligentes44%

📍 Contexto nacional (IDF Atlas 2025 / Vigitel 2025):

  • Brasileiros com diabetes diagnosticados: 16,6 milhões (6º lugar mundial)
  • Prevalência em adultos (2024): 12,9% (crescimento de 135% desde 2006)
  • Diabetes tipo 1: cerca de 600 mil pessoas

⚙️ Tecnologias mencionadas:

  • Sensor de monitoramento contínuo de glicose (CGM) / Flash (FreeStyle Libre): aprovado pela Anvisa, disponível no mercado privado (R$ 300+ por sensor), ainda não incorporado em larga escala no SUS (decisão Conitec de não incorporação em jan/2025)
  • Bomba de insulina Patch Pump (Medtrum Nano): aprovada pela Anvisa em out/2025; dispositivo adesivo com IA que simula pâncreas artificial; disponível no mercado privado

🏛️ Situação do acesso no SUS:

  • Conitec decidiu não incorporar o sistema de monitorização contínua da glicose por escaneamento intermitente (Portaria SECTICS/MS nº 2, 31/01/2025)
  • Fornecimento restrito a ações judiciais e iniciativas municipais isoladas (Ribeirão Preto, São Sebastião)
  • Projetos de lei em tramitação em diversos estados e municípios

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