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SUS adota teste inédito de fezes para rastrear câncer de intestino antes do surgimento dos sintomas

Novo protocolo do Ministério da Saúde prevê exame FIT para homens e mulheres de 50 a 75 anos sem queixas; método menos invasivo, sem preparo intestinal e com precisão superior pode acelerar diagnóstico de tumor que já é o segundo mais frequente no país

O câncer colorretal — que atinge o cólon e o reto — é hoje uma epidemia silenciosa e cada vez mais precoce no Brasil. Mais da metade dos casos (cerca de 65%) ainda é diagnosticada em estágios avançados, quando as chances de cura são drasticamente reduzidas. Mas um anúncio feito nesta quinta-feira (21) pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante agenda em Lyon, na França, promete mudar esse cenário: o SUS adotou um novo protocolo nacional de rastreamento, que utiliza o Teste Imunoquímico Fecal (FIT) como exame de referência para homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos.

“O que reduz a mortalidade não é só o exame, mas cuidar corretamente do paciente quando há necessidade de continuar a investigação” , afirma o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, em artigo do G1.

🧪 Como funciona o FIT e por que ele é superior

O teste FIT é um exame de fezes que detecta pequenas quantidades de sangue oculto – invisíveis a olho nu – que podem ser sinal de pólipos, lesões pré-cancerígenas ou câncer no intestino. Ao contrário dos exames antigos, o FIT utiliza anticorpos específicos para identificar sangue humano, eliminando interferências de dietas (como carne vermelha) e medicamentos, e oferecendo maior precisão.

Vantagens práticas para o paciente:

  • Não exige preparo intestinal (sem laxantes, jejum ou clister)
  • Não requer dieta restritiva antes da coleta
  • Amostra única coletada em casa com haste descartável
  • Menos invasivo (nenhum instrumento é introduzido no corpo)
  • Maior adesão populacional por ser rápido e indolor
  • Sensibilidade entre 85% e 92% para detectar alterações

Na prática, o paciente recebe um kit na unidade de saúde, coleta uma pequena porção das fezes em um tubo específico e envia o material para análise laboratorial. O resultado sai em poucos dias.

🔬 Do positivo ao tratamento: o fluxo do paciente

A estratégia do governo não para na entrega do exame. Quando o resultado aponta presença de sangue oculto, o paciente é encaminhado para exames complementares. A colonoscopia é considerada o padrão-ouro, pois permite visualizar diretamente o cólon e o reto e, fundamentalmente, retirar pólipos durante o procedimento, evitando que lesões evoluam para câncer.

Contudo, o oncologista Stefani faz um alerta importante: “A eficácia do rastreamento depende não apenas da oferta do teste, mas também da capacidade do sistema de saúde de investigar e tratar rapidamente os casos suspeitos.” O real impacto na mortalidade só ocorre se os pacientes com exames alterados conseguirem acesso ágil à colonoscopia, cirurgia e tratamento adequado – um dos maiores gargalos do SUS atualmente.

📉 Por que agora? Os números alarmantes do câncer colorretal no Brasil

O novo protocolo responde a um quadro epidemiológico preocupante, agravado pelo envelhecimento da população e por hábitos de vida nocivos.

IndicadorDado
Novos casos anuais (2026-2028)53,8 mil (Inca)
Segundo tipo de câncer mais frequenteAtrás apenas do câncer de pele não melanoma
Projeção de mortes (2026-2030)127 mil – aumento de quase 3 vezes ante 2001-2005
Total de óbitos (2001-2030)635 mil se mantida a tendência atual
Diagnóstico em estágio avançado65% dos casos, reduzindo drasticamente as chances de cura
Perda média de vida por paciente21 anos para mulheres e 18 anos para homens (dados de 2001-2030)
Perda de produtividade (2001-2030)US$ 22,6 bilhões

Além do sofrimento humano, o impacto econômico indireto é brutal: trata-se de uma geração inteira de profissionais que deixam o mercado de trabalho precocemente.

⏰ Idade de início: por que 50 anos, se as diretrizes falam em 45?

O oncologista Stephen Stefani observa: “As diretrizes hoje recomendam o rastreamento após os 45 anos na população em geral.” No entanto, o protocolo do SUS optou por iniciar a oferta do teste FIT a partir dos 50 anos. A decisão levou em conta a capacidade operacional da rede e a necessidade de priorizar a faixa etária de maior incidência, mas o Ministério da Saúde sinaliza que a expansão para os 45 anos pode ocorrer em etapas futuras, à medida que o programa for consolidado.

⚠️ Resultado negativo não é atestado de saúde eterno

É importante entender as limitações do teste:

  • Um resultado positivo não significa necessariamente câncer – hemorroidas, inflamações intestinais e outras condições benignas também podem causar sangramento.
  • Um resultado negativo não elimina completamente o risco da doença, já que algumas lesões pré-malignas podem não sangrar naquele momento. Por isso, diretrizes internacionais recomendam repetir o rastreamento periodicamente – em geral todos os anos ou a cada dois anos, dependendo da idade e do histórico familiar.

👨‍👩‍👧 Quem deve fazer o rastreamento?

O novo protocolo vale para pessoas sem sintomas na faixa etária de 50 a 75 anos. Contudo, pacientes com sinais de alerta – como sangue nas fezes, perda de peso inexplicada, anemia, alteração persistente do hábito intestinal (diarreia ou prisão de ventre) ou dor abdominal – devem procurar atendimento médico independentemente da idade. Pessoas com histórico familiar da doença, doenças inflamatórias intestinais ou síndromes genéticas também podem precisar iniciar o rastreamento mais cedo, conforme avaliação médica.

🏥 Capacidade instalada e os desafios logísticos

A pasta estima que a estratégia pode ampliar o acesso de mais de 40 milhões de brasileiros à prevenção e à detecção precoce. Há, porém, um calcanhar de aquiles: o SUS ainda tem filas para colonoscopia em várias regiões. Para que o programa faça sentido, é imperativo que os pacientes com FIT positivo não enfrentem espera de meses pelo exame complementar. O governo trabalha com a meta de ampliar a oferta de colonoscopias na rede pública e firmar parcerias com serviços privados para atender à demanda inicial.

📢 O que muda na prática para o cidadão

A partir de agora, usuários do SUS com idade entre 50 e 75 anos, sem sintomas e com risco médio para a doença, poderão solicitar o teste FIT nas unidades básicas de saúde. A recomendação é que o rastreamento seja repetido anualmente. O material é coletado em casa e entregue no posto de saúde, e o resultado é registrado no prontuário eletrônico. Em caso de positividade, o paciente será incluído em um fluxo prioritário para colonoscopia e seguimento oncológico, se necessário.

A adoção do FIT coloca o Brasil em linha com as melhores práticas internacionais e representa um passo concreto para reduzir a mortalidade por um tumor que já é o segundo mais incidente no país e o que mais cresce entre os jovens. A lógica é simples: diagnosticar antes dos sintomas é curar com muito mais frequência e com muito menos sofrimento.


🔍 O que você precisa saber

PerguntaResposta
O que é o FIT?Teste imunoquímico fecal que detecta sangue oculto nas fezes, invisível a olho nu.
Como é feito?Coleta de uma pequena amostra de fezes em casa, com kit fornecido pelo SUS.
Precisa de preparo?Não – sem dieta, laxantes ou jejum.
Para quem é indicado?Homens e mulheres de 50 a 75 anos, assintomáticos, com risco médio.
Com que frequência?Anualmente, conforme diretrizes internacionais.
Se der positivo?Paciente é encaminhado para colonoscopia (padrão-ouro).
Positivo é sempre câncer?Não – hemorroidas e inflamações também podem causar sangramento.
Onde conseguir?Nas unidades básicas de saúde do SUS.

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