Canetas emagrecedoras: por que uma em cada cinco pessoas não perde peso com os medicamentos e o que fazer quando o tratamento “não funciona”
Estudos clínicos mostram que até 20% dos usuários de agonistas GLP-1 não atingem perda de peso significativa; especialistas apontam fatores genéticos, metabólicos e comportamentais — e alertam: interromper o tratamento por conta própria pode ser ainda pior

Os agonistas do receptor GLP-1 — as chamadas “canetas emagrecedoras”, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — transformaram o tratamento da obesidade. Os resultados são impressionantes: muitos pacientes perdem entre 15% e 21% do peso corporal em ensaios clínicos.
O que os virais das redes sociais costumam omitir, porém, é que nem todo mundo responde a esses medicamentos. Estudos indicam que entre 10% e 20% dos usuários — até uma em cada cinco pessoas — perde menos de 5% do peso corporal, uma meta considerada clinicamente pouco significativa. A ciência ainda tenta entender exatamente por quê.
Afinal, o que significa “não responder”?
Na literatura médica, a definição é clara. Considera-se “não respondedor” o paciente que não consegue perder ao menos 5% do peso corporal após três meses de tratamento com agonistas GLP-1 em dose adequada.
Os números variam conforme o medicamento e o estudo:
Por que o medicamento não funciona para alguns?
Os especialistas são categóricos: raramente há uma única causa. O que se observa é uma combinação de fatores biológicos, genéticos, metabólicos e comportamentais. As principais hipóteses incluem:
- Variação genética nos receptores de GLP-1: Algumas pessoas nascem com menos receptores de incretinas ou com receptores menos sensíveis. Nesses casos, os efeitos de redução do apetite e de lentificação do esvaziamento gástrico — centrais para o funcionamento da droga — são menos pronunciados. Uma mutação em uma parte do circuito cerebral que regula o apetite, por exemplo, está presente em 0,3% da população e pode levar a uma média de 17 kg de peso adicional já na adolescência.
- Presença de diabetes tipo 2: Pacientes com diabetes costumam ter uma resposta pior em termos de perda de peso do que pessoas sem a doença, possivelmente devido à maior resistência à insulina e às alterações metabólicas subjacentes. Um estudo de 2024 com mais de 4.400 adultos com diabetes tipo 2 em uso de liraglutida, semaglutida ou dulaglutida mostrou que apenas 14% conseguiram ao mesmo tempo melhorar o controle glicêmico e perder peso de forma relevante.
- Condições médicas e medicamentos concomitantes: Condições como apneia do sono, disfunções tireoidianas (hipotireoidismo não tratado, síndrome de Cushing), esteatose hepática e outras doenças metabólicas podem dificultar ou impedir a perda de peso, assim como certos medicamentos de uso comum, entre eles antidepressivos, esteroides e anticoncepcionais.
- Fatores psicológicos: Um estudo apresentado no Congresso Europeu de Endocrinologia de 2024 identificou que 44,4% dos não respondedores à semaglutida tinham histórico de doença psiquiátrica. Além disso, as três únicas pessoas que ganharam peso após três meses de tratamento eram todas mulheres com transtorno depressivo maior ativo.
- Ajuste inadequado da dose: A resposta também depende do escalonamento progressivo da dose, estratégia usada para reduzir efeitos colaterais e melhorar a tolerância. Em alguns casos, pode ser necessário recuar temporariamente ou avançar mais lentamente. Por isso, os médicos reforçam: o paciente não deve interromper o uso por conta própria, mas manter acompanhamento para ajustar a estratégia.
O impacto psicológico do “fracasso” do tratamento
A decepção, para muitos, é devastadora — especialmente para quem sempre lutou contra a balança e via nos novos medicamentos a esperança de uma solução definitiva. A experiência de Jessica Layeux, de 42 anos, relatada pelo Estadão, é emblemática. Após 15 meses usando Zepbound (tirzepatida), ela perdeu apenas meio quilo.
“Não importa o que eu faça, esses ‘remédios milagrosos’ não funcionam” , disse Jessica, que passou a se culpar e a se preocupar obsessivamente se estava armazenando o medicamento na temperatura correta ou aplicando a injeção no local certo.
A Dra. Katherine Saunders, especialista em obesidade na Weill Cornell Medicine, resume o sentimento de muitos pacientes: “Pode ser devastador. Com expectativas tão altas, há muito espaço para decepções” .
Danielle Griffin, outra paciente que usou Wegovy por um ano e meio, perdeu apenas 6 kg. “Fiz tudo certo, mas não tive sucesso. É desanimador. É uma montanha-russa emocional” , desabafou.
O que fazer se o medicamento “não funcionar”?
Diante da suspeita de não resposta, a conduta jamais deve ser a interrupção abrupta ou a automedicação. O caminho recomendado pelos especialistas inclui:
- Reavaliação clínica completa: A primeira medida é investigar se há causas tratáveis para a falta de resposta, como hipotireoidismo não diagnosticado, síndrome da apneia do sono ou uso de medicamentos que interferem no metabolismo.
- Ajuste na estratégia terapêutica: Em alguns casos, a solução pode ser aumentar a dose (se o paciente ainda não atingiu a dose máxima tolerada), trocar para outro agonista GLP-1 (como mudar da semaglutida para a tirzepatida, que atua em dois receptores) ou associar outros fármacos antiobesidade, sob rigorosa supervisão médica.
- Reforço das intervenções no estilo de vida: Os medicamentos não são mágicos — eles funcionam melhor quando combinados com dieta balanceada, atividade física regular e suporte comportamental. Nos ensaios clínicos, os participantes recebiam acompanhamento com nutricionistas e psicólogos.
- Considerar tratamentos alternativos: Para os verdadeiros não respondedores, outras opções existem, incluindo medicamentos de diferentes classes (como bupropiona-naltrexona, liraglutida em doses mais altas) e, em casos de obesidade grave com comorbidades, a cirurgia bariátrica.
O futuro: medicina de precisão para a obesidade
A boa notícia é que a ciência não está parada. Pesquisadores investigam fatores genéticos e outras características dos pacientes para, no futuro, prever como cada pessoa irá reagir antes mesmo de iniciar o tratamento.
Empresas farmacêuticas já desenvolvem novas moléculas, com mecanismos de ação distintos, que podem oferecer opções para aqueles que não respondem aos GLP‑1 atuais. Exames genéticos e laboratoriais mais sofisticados — para avaliar, por exemplo, fenótipos associados à obesidade — também começam a ser considerados na prática clínica.
Entretanto, até que esses avanços cheguem ao consultório, a mensagem dos especialistas é clara: a caneta — quando bem utilizada — é segura para a maioria, mas não é uma solução universal. A resposta varia, e o “fracasso” do tratamento raramente é culpa do paciente. Cabe à medicina investigar, individualizar e, quando necessário, oferecer alternativas terapêuticas.
🔍 Resumo: Por que as canetas emagrecedoras podem não funcionar
| Fator de risco / Causa | O que dizem os estudos |
|---|---|
| Genética | Variações no gene do receptor GLP-1 (ex.: rs6923761) afetam a resposta. Cerca de 0,3% da população tem mutação em circuito cerebral que regula o apetite. |
| Diabetes tipo 2 | Estudo com 4.467 pacientes diabéticos: apenas 14% tiveram bom controle glicêmico e perda de peso simultânea. |
| Depressão e doenças psiquiátricas | Em um estudo, 44,4% dos não respondedores tinham histórico psiquiátrico. Ganho de peso associado a depressão ativa. |
| Medicamentos concomitantes | Antidepressivos, esteroides, anticoncepcionais e outros podem atrapalhar a perda de peso. |
| Condições clínicas não tratadas | Apneia do sono, hipotireoidismo, síndrome de Cushing, esteatose hepática dificultam a resposta. |
| Sexo | Homens tendem a ter maior taxa de não resposta (41,6% vs 14,2% entre mulheres, em um estudo). |
| Dose inadequada | Escalonamento muito lento ou interrupção precoce comprometem os resultados. |




