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domingo, 1 de novembro de 2026
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O silêncio do pâncreas: o tumor que mais mata e quase nunca é pego a tempo

O silêncio do pâncreas: o tumor que mais mata e quase nunca é pego a tempo

Com sobrevida de apenas 12,8% em cinco anos, câncer de pâncreas é o mais letal entre os tumores comuns; não há rastreamento recomendado para a população geral, e os primeiros sinais — dor abdominal, cansaço, perda de apetite — se confundem com gastrite e estresse. Quando o corpo finalmente grita, o alarme costuma chegar tarde demais

A história de Elizabeth Paes Gomes, 74 anos, é um roteiro que a oncologia conhece bem. Durante meses, os gastroenterologistas que a acompanhavam repetiam o mesmo diagnóstico: gastrite, sistema nervoso, nada grave. Quando a dor apertou, em 2024, ela mesma completou o raciocínio — estava de férias, era mês de aniversário, tinha exagerado na comida e na bebida. Até que a pele começou a amarelar. A tomografia de urgência encontrou um tumor no pâncreas. Três dias depois, ela estava na mesa de cirurgia.

O que aconteceu com Elizabeth não é exceção. É a regra. E é por isso que o câncer de pâncreas, apesar de representar pouco mais de 1% de todos os diagnósticos oncológicos no Brasil, responde por 5% das mortes por câncer. Nos Estados Unidos, onde as séries de sobrevida são mais consolidadas, apenas 12,8% dos pacientes chegam vivos ao quinto ano após o diagnóstico. Se o tumor for encontrado antes de se espalhar, esse índice sobe para 44%; se já houver metástase, despenca para 3%.


🧬 A anatomia do silêncio: por que o pâncreas se esconde

O pâncreas ocupa uma posição privilegiada para passar despercebido. Fica entre a coluna e o estômago, cercado pelos principais vasos do abdome. “Essa vizinhança, que deveria funcionar como proteção, atua contra o paciente: o tumor alcança as veias e as artérias em pouco tempo e se dissemina antes de dar qualquer sinal”, explica Marcos Belotto, cirurgião do Centro Oncológico do Hospital Nove de Julho.

A localização do tumor determina o tipo de aviso que o corpo dá. Quando cresce na cabeça do pâncreas, comprime a via biliar e provoca icterícia — o amarelão que finalmente levou Elizabeth ao hospital. Quando aparece no corpo ou na cauda, produz dor nas costas e dificuldade para comer, porque invade o estômago. “Uma parte considerável dos diagnósticos nasce de uma investigação que começou em outro lugar”, diz Belotto.

Menos de 30% dos pacientes chegam ao diagnóstico em condições de serem operados. E a cirurgia segue sendo o único tratamento com potencial de cura.


🚨 Sintomas que servem para tudo

Antes da icterícia, quase sempre há meses de sinais que não apontam para lugar nenhum. Cerca de 80% dos pacientes têm dor ou desconforto abdominal em algum momento; 85% perdem peso; entre 50% e 60% relatam falta de apetite e cansaço.

“O problema não está na intensidade desses sintomas, e sim na inespecificidade deles”, afirma Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation. “Dor abdominal, cansaço e perda de apetite cabem em dezenas de diagnósticos mais prováveis, e é para esses que médico e paciente olham primeiro. Ninguém que acorda cansado desconfia que tem câncer de pâncreas.”

Há ainda uma distorção de memória que embaralha a reconstrução do caso. “O primeiro sintoma que o paciente identifica quase nunca é o primeiro que ele teve”, observa Stefani. “Se a pergunta for genérica, a resposta é que não havia nada. Se você ancorar em uma data, o Natal ou o aniversário, família e paciente começam a reconstituir sinais de meses antes.”

A icterícia costuma ser o sinal que finalmente leva o paciente ao consultório. Ela não vem sozinha: a pele e o branco dos olhos ficam amarelados; a bile depositada na pele provoca coceira intensa; a urina escurece até a cor de refrigerante de cola; e as fezes, que deveriam ser tingidas pela bile, ficam esbranquiçadas. “Urina escura acompanhada de fezes esbranquiçadas indica obstrução da via biliar”, resume Stefani. “Não é sinônimo de câncer de pâncreas, mas é motivo para investigar sem demora.”


🔍 Por que não existe rastreamento para o pâncreas?

A pergunta é inevitável: se encontrar o tumor cedo multiplica por catorze a chance de sobreviver cinco anos, por que não há um exame de rotina para o pâncreas, como a mamografia para a mama ou a colonoscopia para o intestino?

Stefani responde a partir dos critérios que definem um bom teste de rastreamento. “Ele precisa ser simples de aplicar em larga escala, não pode acusar alterações irrelevantes e, acima de tudo, precisa mudar o destino de quem ele encontra”, diz. “Nenhum exame de pâncreas chegou perto disso. Não há, em nenhum país e em nenhuma sociedade médica, recomendação de rastrear a doença.”

A ressonância magnética, lembrada com frequência como saída, detecta o tumor — em tese. Aplicada a quem não tem sintoma, vira loteria: para cada achado real entrariam na conta milhares de casos que passariam despercebidos e uma enxurrada de alterações sem significado clínico, cada uma delas capaz de levar a uma biópsia de pâncreas desnecessária. “Examinar em excesso produz doença onde não há”, diz Stefani. “E existe um limite material. Não há ressonância para a população inteira, e ocupar as máquinas com quem não precisa significa tirá-las de quem precisa.”

Sem exame, o que sobra é reduzir risco: não fumar, evitar bebida alcoólica, manter atividade física e um padrão alimentar saudável. Cada item corta uma fração da probabilidade — nenhum deles a elimina.


👨‍👩‍👧‍👦 Quem entra na vigilância?

O rastreamento não existe para a população geral, mas existe para grupos específicos. Stefani trabalha com uma escala de risco: a chance de desenvolver a doença em algum momento da vida fica entre 1% e 1,5%. Com dois parentes de primeiro grau afetados — pai, mãe, irmãos ou filhos —, o risco sobe para 7% a 8%. Com três ou mais, chega perto de 20%. Em síndromes genéticas raras, como a de Peutz-Jeghers, algumas estimativas apontam que até um terço dos portadores desenvolverá o tumor.

Para esses pacientes, e também para quem tem pancreatite crônica ou de repetição, a recomendação é acompanhamento anual por imagem, além de teste genético quando o histórico familiar aponta para uma mutação hereditária. “A idade em que esse parente adoeceu muda a leitura”, pondera Belotto. “Um caso aos 70 anos pode ser esporádico. Um caso aos 40 aumenta bastante a probabilidade de haver uma mutação por trás.”


💊 O tratamento andou; o diagnóstico, não

O contraste que define o momento é esse. Enquanto o rastreamento segue parado, a terapia se moveu.

Na sessão plenária do congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2026, foram apresentados os resultados do daraxonrasib, primeiro inibidor de RAS a chegar a um estudo de fase 3 no pâncreas. Cerca de 90% dos tumores de pâncreas são movidos por mutações no gene RAS. A sobrevida global mediana passou de 6,7 meses com quimioterapia para 13,2 meses com o medicamento oral — uma redução de 60% no risco de morte.

O daraxonrasib segue investigacional: não tem registro na Anvisa nem aprovação da FDA. A agência americana autorizou, em abril, um programa de acesso expandido para pacientes elegíveis nos Estados Unidos — a aprovação definitiva é considerada possível ainda em 2026.

É por essa aprovação que Elizabeth espera. “Minha maior esperança é me segurar até esse remédio chegar. Que a Anvisa e o FDA aprovem logo, e que ele seja liberado para todo mundo. Pelo SUS, inclusive.”

“Até pouco tempo atrás, o horizonte oferecido a esses pacientes era de 12 a 18 meses”, diz Belotto. “Depois de décadas sem nenhuma novidade relevante, o câncer de pâncreas voltou a ter perspectiva. O que se persegue agora é transformá-lo numa doença crônica.”


🌊 Dois anos depois

Elizabeth voltou à quimioterapia depois de pouco mais de um ano sem sinais da doença, quando surgiu uma metástase no pulmão. Do dia do diagnóstico, fala como quem descreve um tsunami. “Você está plena de vida e, de repente, parece que recebeu uma sentença de morte.”

Da rotina, fala com carinho. Continua andando na praia, faz pilates, toma café com as amigas, vai ao teatro, a shows e ao cinema. “Sempre fui muito positiva, e decidi que essa positividade ia trabalhar a meu favor. Que eu vou ficar bem e vou superar tudo isso.”

🔍 O que você precisa saber sobre o câncer de pâncreas

AspectoInformação
Novos casos por ano no Brasil (2026-2028)Mais de 13 mil
Participação nos diagnósticos oncológicosPouco mais de 1%
Participação nas mortes por câncer5%
Sobrevida em 5 anos (EUA)12,8%
Sobrevida se encontrado antes de metastatizar44%
Sobrevida se já houver metástase3%
Pacientes diagnosticados em condições de operarMenos de 30%
Exame de rastreamento para população geralNão existe em nenhum país
Principais sintomas iniciaisDor abdominal (80%), perda de peso (85%), falta de apetite e cansaço (50-60%)
Sinal tardio que leva ao diagnósticoIcterícia (pele e olhos amarelados, urina escura, fezes claras)
Risco na população geral1% a 1,5%
Risco com 2 parentes de primeiro grau7% a 8%
Risco com 3 ou mais parentesPróximo de 20%
Novo tratamento em estudoDaraxonrasib (primeiro inibidor de RAS no pâncreas)
Ganho de sobrevida com daraxonrasib6,7 → 13,2 meses (redução de 60% no risco de morte)