Pular para o conteúdo
domingo, 1 de novembro de 2026
Últimas
NOTÍCIAS

A Itália que inspirou o mundo perdeu a receita: como o país da dieta mediterrânea se tornou campeão europeu de obesidade infantil

A Itália que inspirou o mundo perdeu a receita: como o país da dieta mediterrânea se tornou campeão europeu de obesidade infantil

Em Ponticelli, subúrbio de Nápoles, uma em cada duas crianças tem excesso de peso; a comida italiana mudou, e a tradição virou armadilha: de modelo de longevidade, o país virou laboratório de uma epidemia que atinge os mais jovens — e desafia médicos a repensar o que significa comer bem

A scooter Vespa de Salvatore não aguenta mais. Aos 17 anos, ele pesa 170 kg e tem dificuldade para amarrar os próprios cadarços. Os pneus da sua Vespa estouraram sete vezes em uma semana. “Ele come o tempo todo”, diz a mãe, Anna. Ele é um rosto — e um corpo — de uma crise silenciosa que varre a Itália, o país que deu ao mundo a dieta mediterrânea.


🍝 O país que ensinou o mundo a comer bem perdeu o rumo

Por décadas, a Itália foi sinônimo de alimentação saudável. A dieta mediterrânea — rica em verduras, legumes, azeite de oliva, grãos integrais e peixe — ganhou fama mundial nos anos 1950, quando o fisiologista americano Ancel Keys associou os hábitos alimentares do sul da Itália a índices extraordinariamente baixos de doenças cardíacas.

Aquela Itália, porém, não existe mais. “Apenas 10% dos italianos realmente seguem a dieta mediterrânea”, afirma o médico Valter Longo, diretor do Instituto de Longevidade da Universidade do Sul da Califórnia.

O que a substituiu, Longo resume com uma frase curta: pizza, pasta, patate, proteine e pane — os “cinco P” da dieta italiana moderna. As prateleiras dos supermercados estão abastecidas com ultraprocessados, e as pizzarias servem fatias cobertas com batata frita, linguiça e salgados fritos. A tradição virou caricatura de si mesma.


👶 Crianças de 2 anos pesando 25 kg: o drama em Ponticelli

O epicentro da crise fica no sul do país. Em algumas partes da Campânia, a região de Nápoles, mais de 40% das crianças de oito e nove anos estão acima do peso. O subúrbio de Ponticelli ganhou a nada invejável reputação de ser uma das capitais mundiais da obesidade infantil.

O pediatra Roberto Berni Canani, da Universidade Federico II, em Nápoles, vê as consequências todos os dias. “Já tratei crianças de apenas dois ou três anos que pesavam 25 quilos”. O problema, segundo ele, é que a maioria dos pais não percebe o que está acontecendo. “Eles vêm me procurar por causa de outros problemas — tosse, dor de estômago, diarreia. Não percebem que o peso da criança é o que está causando isso.”

Francesca, de 10 anos, pesa 60 kg e tem tosse persistente e dificuldade para engolir. Seus pais a levaram ao médico por causa dos sintomas — não pelo peso. No café da manhã, ela come pão com Nutella; no lanche, um bolinho recheado de chocolate; no almoço, macarrão com lentilhas; e no jantar, frango. “Eu coloco verduras na frente dela, mas ela não toca”, diz a mãe.

Berni Canani é direto: o problema não é uma refeição específica, mas o padrão geral — pequenos alimentos hipercalóricos ao longo do dia, bebidas açucaradas, poucas frutas e verduras, e pouca compreensão de como esses hábitos se acumulam. “Esta é uma mãe muito boa. Um pai muito bom. Eles simplesmente não reconhecem a importância da qualidade da alimentação e do peso corporal.”


🏫 Uma batalha perdida na escola, em casa e na cultura

Os hábitos pouco saudáveis começam em casa e são reforçados na escola. Muitas escolas italianas funcionam em palácios antigos, que nunca foram projetados para educação física moderna. A escola primária Ugo Foscolo, em Nápoles, tem uma quadra mal dimensionada.

A professora Francesca Pecce conta que um de seus alunos, de 10 anos, pesa cerca de 60 kg. Ela tentou conversar com a mãe. “Mas ela não está preocupada. Na cultura napolitana, se uma criança é um pouco gordinha e tem as bochechas rosadas, as pessoas muitas vezes acham que ela é saudável.”

Some-se a isso o clichê secular das mães e avós italianas que demonstram amor por meio da comida, e tem-se uma combinação explosiva.


💊 A cirurgia, o GLP-1 e o jejum: as respostas da medicina

Salvatore aguarda uma cirurgia que pode mudar sua vida no Hospital Betania, em Ponticelli. A médica Sonja Chiappetta trata pacientes com obesidade grave há 15 anos. “Até recentemente, a maioria de meus pacientes estava na faixa dos 50 anos. Agora vejo esses mesmos pacientes quando ainda são adolescentes, alguns com apenas 16 anos. Eles estão cada vez mais jovens, e isso é assustador.”

A cirurgia que ela realiza remove até 90% do estômago. Mas Salvatore foi informado de que não pode fazer a operação — seu peso é tão elevado que torna o procedimento perigoso demais. Em vez disso, Chiappetta prescreveu a ele uma injeção de GLP-1 para reduzir o apetite e ajudá-lo a emagrecer o suficiente para a cirurgia.

A Campânia se tornou um campo de testes para intervenções ambiciosas — entre elas, um controverso estudo de uma “dieta que imita o jejum”. Pesquisadores estão recrutando 300 adolescentes acima do peso que, durante cinco dias a cada três meses, seguirão uma dieta tão restritiva que se assemelha a um jejum. O objetivo é provocar uma “reinicialização metabólica”.

Valter Longo, que estuda os efeitos do jejum há três décadas, defende a abordagem. “O jejum, ou a privação controlada de alimentos, está associado a uma vida mais longa e saudável.”

Mas o pediatra Berni Canani teme que dietas restritivas possam representar riscos psicológicos para adolescentes, cuja relação com a comida ainda está em desenvolvimento. “Temo que impor restrições alimentares a adolescentes possa aumentar o risco de transtornos alimentares, anorexia e dismorfia corporal.”


⚖️ Uma lei que reconhece o óbvio: obesidade é doença

Em 2025, a Itália se tornou o primeiro país a aprovar uma lei nacional que reconhece a obesidade como uma doença crônica, progressiva e reincidente. Em vez de tratar a obesidade simplesmente como resultado de escolhas ruins, a nova lei a reconhece como uma condição influenciada pela biologia, pelo ambiente e pelas circunstâncias sociais.

A mudança de perspectiva é crucial. A Itália que inspirou o mundo a comer melhor agora luta para salvar sua própria geração mais jovem. Salvatore espera fazer a cirurgia no verão. “Para que, pela primeira vez em anos, possa usar roupa de banho sem se sentir constrangido”, diz a reportagem. Ele não está sozinho.

🔍 A crise da obesidade infantil na Itália em números

IndicadorDado
Crianças com excesso de peso na Campânia (8-9 anos)Mais de 40%
Italianos que seguem a dieta mediterrâneaApenas 10%
Crianças de 2-3 anos tratadas com 25 kgRelato clínico do pediatra Roberto Berni Canani
Peso de Salvatore (17 anos)170 kg
Peso de Francesca (10 anos)60 kg
Ano da lei italiana que reconhece obesidade como doença crônica2025
Número de alunos em programa de educação nutricional na CampâniaMais de 17 mil