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domingo, 1 de novembro de 2026
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O preço do medo: Ilson esperou uma afta crescer e perdeu 25 kg antes de descobrir um câncer em estágio avançado

O preço do medo: Ilson esperou uma afta crescer e perdeu 25 kg antes de descobrir um câncer em estágio avançado

Diagnosticado com carcinoma de orofaringe associado ao HPV, o brasiliense de 58 anos adiou a ida ao médico por meses e só buscou ajuda quando o emagrecimento extremo se tornou impossível de ignorar; após cirurgia de sete horas, quimio e radioterapia, ele está curado, e seu caso se tornou um alerta sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce

A dor de garganta que não passava e uma afta na língua que só aumentava eram os únicos sinais. Para Ilson Iglesias, de 58 anos, morador de Brasília, eles pareciam incômodos menores, dignos de remédios caseiros e espera. O que ele não sabia é que escondiam um carcinoma espinocelular de base de língua – um tumor maligno na orofaringe, já em estágio avançado quando finalmente procurou ajuda.

Ilson perdeu a mãe para um câncer há três anos. O luto e o medo de ouvir um diagnóstico semelhante o paralisaram. “Apesar de já saber que as coisas não estavam normais, o medo de descobrir a verdade me fez tentar diversos remédios para atenuar a dor de garganta e tentar curar a afta que só aumentava”, lembra ele. A hesitação custou caro: quando finalmente foi ao médico, a doença já estava em estágio avançado.

O estopim: a perda de 25 quilos

O que finalmente o levou ao consultório foi o emagrecimento extremo. Ilson perdeu 25 quilos por causa da doença – uma queda de peso que não podia mais ser ignorada. Casado e pai de três filhos, sendo um deles de apenas 12 anos, ele conta que o diagnóstico foi devastador. “Meu mundo acabou. Tenho uma bela esposa e três filhos: um filho de 12 anos, que ainda precisa muito de mim; e outros dois, de 22 e 28 anos. Foi uma loucura. Para mim, a morte era certa, apenas uma questão de tempo. Nada mais fazia sentido”.

Um tumor ligado ao HPV

O diagnóstico foi de câncer de orofaringe associado ao papilomavírus humano (HPV) , um tipo de tumor que, segundo a oncologista Fernanda Guedes, do Hospital Brasília, tem aumentado dramaticamente nas últimas décadas. “Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, o HPV agora é responsável por cerca de 60% a 70% dos novos casos de câncer de orofaringe”, explica a médica, que aponta o sexo oral como o principal fator de risco para a infecção.

O HPV tipo 16, em particular, é identificado em 86,9% dos casos de câncer de orofaringe associado a ISTs. Embora o tabaco e o álcool ainda sejam os principais causadores desse tipo de câncer, o perfil epidemiológico está mudando. O dentista Fábio de Abreu Alves, presidente da Câmara Técnica de Estomatologia do CROSP, alerta que a orofaringe – região que envolve palato mole, amígdalas e a língua – é hoje um território onde os HPVs 16 e 18 estão se tornando os principais agentes.

O calvário do tratamento e a cura

A demora no diagnóstico forçou uma abordagem agressiva. Ilson foi submetido a uma cirurgia de sete horas, passou dez dias hospitalizado, enfrentou seis sessões de quimioterapia e 30 de radioterapia. Durante o tratamento, perdeu a capacidade de falar e se alimentar normalmente, precisou usar sonda e contar com fisioterapia e fonoterapia para recuperar funções básicas.

Quatro meses depois, o câncer de Ilson está sem evidência, curado. Neste mês de julho, ele finalizou o tratamento e, para comemorar, fez uma viagem a Cusco, no Peru, com a família. “Até junho ainda me alimentava por sonda. Hoje, apesar de um pouco de dificuldade, já como de tudo. Mas a luta continua. Tenho exame de imagem no final de agosto. O fato é que atualmente me importo muito com meu presente. O futuro a gente vai construindo”, diz ele, esperançoso.

Um alerta no Julho Verde

O caso de Ilson acontece no mês dedicado à conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço – o Julho Verde. Os sintomas que ele ignorou – dor de garganta persistente, dificuldade para engolir, nódulo no pescoço, alteração na voz, manchas na boca e emagrecimento sem causa aparente – são os mesmos que, se identificados precocemente, poderiam ter levado a um tratamento menos agressivo.

“O receio do diagnóstico ainda faz muitas pessoas adiarem a busca por atendimento, e isso pode fazer com que a doença seja descoberta em estágios mais avançados, exigindo tratamentos mais intensivos”, destaca a reportagem.

A história de Ilson é um alerta. O medo de ouvir uma má notícia não a impede de chegar – apenas a torna mais difícil de enfrentar.


🔍 Resumo do caso de Ilson Iglesias

AspectoInformação
Idade58 anos
DiagnósticoCarcinoma espinocelular de base de língua (câncer de orofaringe)
AssociaçãoHPV (papilomavírus humano)
Perda de peso25 kg antes do diagnóstico
TratamentoCirurgia de 7h, 6 sessões de quimioterapia, 30 de radioterapia
Tempo de internação10 dias
Sequelas temporáriasDificuldade para falar e se alimentar, uso de sonda
Status atualSem evidência de câncer (curado), em monitoramento trimestral
Sintomas iniciaisDor de garganta persistente, afta na língua que não cicatrizava
Mês de conscientizaçãoJulho Verde (câncer de cabeça e pescoço)