Três a cinco xícaras por dia: café é associado a menor risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca, aponta novo documento da AHA
Declaração científica da American Heart Association revisa evidências e conclui que até 400 mg de cafeína diários são seguros para a maioria dos adultos; benefícios parecem vir do café como um todo — e não da cafeína isolada —, mas especialistas alertam para os riscos de energéticos, pós concentrados e suplementos

A xícara de café que acompanha o início do dia, a pausa para o trabalho ou o encontro com amigos pode ser mais do que um ritual de prazer. Ela pode, segundo as evidências científicas mais recentes, ser também um aliado da saúde cardiovascular.
Uma nova declaração científica da American Heart Association (AHA) , publicada nesta segunda-feira (20), concluiu que o consumo moderado de café — de três a cinco xícaras de 240 ml por dia, o equivalente a até 400 mg de cafeína — está associado a um menor risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, hipertensão e diabetes tipo 2. Grandes estudos de acompanhamento também mostraram associação entre o consumo habitual moderado de café e menor risco de morte por todas as causas.
A mensagem, no entanto, vem acompanhada de ressalvas importantes: os benefícios observados não podem ser simplesmente extrapolados para bebidas energéticas, suplementos de cafeína ou doses elevadas da substância, que levantam preocupações por possíveis efeitos cardiovasculares adversos.
☕ Mais do que cafeína: o café como um todo
Um dos pontos centrais da declaração é que os benefícios não parecem ser explicados apenas pela cafeína. A maior parte das pesquisas avaliou o consumo de café e chá, e não da cafeína isoladamente.
O café contém uma complexa mistura de compostos biologicamente ativos — como ácidos clorogênicos, diterpenos, trigonelina e melanoidinas — que apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Essas substâncias podem contribuir para melhorar a sensibilidade à insulina, a função dos vasos sanguíneos e o metabolismo da glicose.
Essa pode ser uma das explicações para o fato de alguns estudos também terem encontrado benefícios associados ao café descafeinado. Ou seja, o efeito protetor parece vir do café como um todo, e não apenas da cafeína isolada.
📉 O que a ciência mostra: números expressivos
Os dados reunidos pela AHA são robustos. Uma revisão de 28 estudos prospectivos mostrou redução de 20% no risco de diabetes tipo 2 entre pessoas que consumiam, em média, 3,5 xícaras de café por dia. Entre aqueles que consumiam cerca de cinco xícaras diárias, a redução chegou a 30%.
Em relação às doenças cardiovasculares, a revisão concluiu que o consumo habitual de café não aumenta o risco de doença arterial coronariana. Pelo contrário: diversos estudos apontaram associação entre consumo leve ou moderado e redução aproximada de 10% no risco da doença, sendo o menor risco observado entre duas e três xícaras diárias.
Para insuficiência cardíaca, a maioria das pesquisas encontrou ausência de aumento do risco ou redução moderada da ocorrência da doença, especialmente entre pessoas que consumiam café em quantidades baixas ou moderadas.
🔬 O paradoxo da pressão arterial e da genética
A relação entre cafeína e pressão arterial, segundo a declaração, é complexa. Pessoas com hipertensão podem apresentar aumento temporário da pressão após consumir cafeína. No entanto, estudos de longo prazo sugerem que os efeitos habituais tendem a ser pequenos.
Os pesquisadores identificaram ainda uma relação em formato de “J”: alguns estudos observaram aumento do risco de hipertensão entre pessoas que consumiam de uma a três xícaras de café por dia, enquanto consumos mais elevados mostraram tendência oposta. Segundo os autores, ainda não está claro como esses efeitos ocorrem ao longo do tempo e eles podem variar conforme a sensibilidade individual.
A genética também influencia a resposta ao café. Cada pessoa metaboliza a cafeína em velocidades diferentes, influenciadas principalmente por fatores genéticos relacionados à enzima CYP1A2. Apesar disso, ainda não há evidências suficientes para afirmar que essas diferenças alterem os efeitos do consumo habitual de café sobre doenças cardiovasculares ou mortalidade.
🧪 Café sem filtro: o lado menos conhecido
O modo de preparar o café também pode fazer diferença para a saúde cardiovascular. Segundo a declaração, o café sem filtro pode aumentar os níveis de colesterol LDL — o chamado colesterol “ruim”. Isso ocorre por causa do cafestol, um composto presente principalmente em preparações como French press, café turco, café fervido escandinavo e, em menor quantidade, no espresso.
Já o café filtrado em papel e o café solúvel praticamente não contêm quantidades relevantes dessa substância e não apresentaram esse efeito nas pesquisas analisadas.
🚨 O alerta: energéticos, pós e doses extremas
A principal ressalva da declaração envolve as bebidas energéticas e o consumo de doses muito elevadas de cafeína. Segundo a AHA, as evidências disponíveis sugerem que esses produtos podem aumentar significativamente a pressão arterial e foram associados, em relatos de casos, à ocorrência de fibrilação atrial, fibrilação ventricular e até morte súbita após ingestão de quantidades extremamente elevadas de cafeína, especialmente em cápsulas ou pós concentrados.
Os autores também alertam que os possíveis benefícios observados com a cafeína naturalmente presente em alimentos e bebidas não devem ser extrapolados para produtos sintéticos ou para doses elevadas da substância.
🔍 O que falta saber: a ciência pede mais estudos
Apesar das conclusões favoráveis ao consumo moderado de café, a AHA ressalta que grande parte das evidências disponíveis vem de estudos observacionais, que não permitem estabelecer relação de causa e efeito.
Os autores defendem novos ensaios clínicos para separar os efeitos específicos da cafeína daqueles produzidos pelos demais compostos presentes no café e para compreender melhor como diferentes fontes de cafeína afetam a saúde cardiovascular e como as respostas variam entre os indivíduos.
Até lá, a mensagem para o consumidor é clara: o café, consumido com moderação, é um aliado da saúde do coração — mas não justifica a busca por doses extremas ou fontes sintéticas de cafeína. E, como em quase tudo na vida, o segredo está no equilíbrio.
🔍 O que a AHA diz sobre café e saúde cardiovascular
| Aspecto | Evidência |
|---|---|
| Consumo seguro | Até 400 mg de cafeína/dia = 3 a 5 xícaras de café (240 ml) |
| Riscos reduzidos | Infarto, AVC, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, hipertensão, diabetes tipo 2 |
| Redução do diabetes tipo 2 | 20% (3,5 xícaras/dia) a 30% (5 xícaras/dia) |
| Redução de doença arterial coronariana | Cerca de 10% |
| Café filtrado vs. sem filtro | Sem filtro (French press, turco) aumenta colesterol LDL devido ao cafestol; filtrado em papel e solúvel não |
| Pressão arterial | Efeito complexo; aumento temporário em hipertensos; estudos de longo prazo mostram efeitos pequenos |
| Genética | Metabolismo varia (enzima CYP1A2), mas ainda não há evidências suficientes de impacto clínico |
| Alerta principal | Benefícios não se aplicam a energéticos, pós concentrados ou suplementos de cafeína |