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domingo, 1 de novembro de 2026
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Sangue nas fezes, silêncio no consultório: pesquisa revela que brasileiros sabem dos sinais do câncer de intestino, mas não agem

Sangue nas fezes, silêncio no consultório: pesquisa revela que brasileiros sabem dos sinais do câncer de intestino, mas não agem

Levantamento inédito do Hospital A.C. Camargo aponta que 67% reconhecem o alerta, mas quase metade dos que viram sangue nas fezes não procurou um médico; incidência da doença cresce quase 3% ao ano em jovens de SP, e 2 em cada 3 brasileiros nunca ouviram falar do exame FIT, que deve chegar ao SUS para mais de 40 milhões de pessoas

O diagnóstico de câncer de intestino — também chamado de colorretal — que poderia ter sido feito precocemente esbarra em um paradoxo preocupante: a população reconhece os sinais de alerta, mas adia a ida ao médico. É o que mostra uma pesquisa inédita conduzida pelo Hospital A.C. Camargo, de São Paulo, em parceria com a Nexus, e repercutida pelo Fantástico neste domingo (19). O levantamento revela que o conhecimento sobre os sintomas não se traduz em ação — e o preço dessa hesitação pode ser medido em vidas.

O abismo entre saber e fazer

Os números são contundentes. Segundo a pesquisa, 67% dos entrevistados concordam que a presença de sangue nas fezes pode ser um sintoma de câncer colorretal. Mais do que isso: 80% consideram esse um sinal grave. A percepção do risco, no entanto, não se reflete em atitude prática.

Entre os 9% dos entrevistados que disseram já ter percebido sangue nas fezes em algum momento, quase metade não procurou atendimento médico. Especialistas ouvidos pelo Fantástico alertam que esse atraso pode comprometer as chances de diagnóstico precoce e, consequentemente, de cura da doença.

A cantora Preta Gil exemplifica essa rota de silêncio. Ao tornar público seu tratamento contra o câncer de intestino, ela contou que ignorou sintomas como prisão de ventre persistente, sangue nas fezes, presença de muco e alteração no formato das fezes antes de receber o diagnóstico — um relato que ecoa o padrão identificado pela pesquisa.

Um câncer que chega mais cedo

O estudo também reforça uma preocupação crescente da oncologia: o aumento de casos entre pessoas cada vez mais jovens. No estado de São Paulo, a incidência do câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos cresceu quase 3% ao ano entre 2000 e 2023. Ainda não há uma explicação definitiva para o fenômeno, mas mudanças no estilo de vida — como alimentação rica em ultraprocessados, sedentarismo e obesidade — estão entre as principais hipóteses dos especialistas.

O exame que ninguém conhece

A pesquisa revelou ainda um dado que ajuda a explicar por que tantos casos continuam sendo diagnosticados tardiamente: dois em cada três brasileiros nunca ouviram falar do FIT, sigla em inglês para teste imunoquímico fecal — um exame simples, não invasivo, que detecta sangramentos invisíveis a olho nu nas fezes e pode indicar a presença de pólipos ou tumores ainda em estágio inicial.

A boa notícia é que esse cenário pode começar a mudar em breve. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) prevê divulgar, no próximo mês, as regras de um novo protocolo nacional de rastreamento do câncer colorretal, que oferecerá o exame FIT pelo SUS. A iniciativa, já anunciada pelo Ministério da Saúde, pretende ampliar o acesso de mais de 40 milhões de brasileiros entre 50 e 75 anos ao diagnóstico precoce.

O que está em jogo

A importância da medida não pode ser subestimada. O câncer colorretal é o segundo tipo mais comum no Brasil, e a projeção é que a doença cause 635 mil mortes e perdas bilionárias ao país até 2030, segundo estimativas citadas na reportagem. Quando detectado precocemente, as chances de cura ultrapassam 90%. O problema é que, hoje, a maioria dos casos ainda é descoberta em estágios avançados — justamente porque os sinais são ignorados ou subestimados.

A mensagem final dos especialistas é clara: saber reconhecer os sintomas é um primeiro passo essencial. Mas não é suficiente. O próximo — e mais importante — é transformar esse conhecimento em ação, rompendo a barreira do medo, da procrastinação ou da banalização dos sinais. O exame FIT, quando chegar à rede pública, pode ser a ferramenta que faltava para virar essa chave.

🔍 O que você precisa saber

IndicadorDado
Reconhecem sangue nas fezes como sintoma67%
Consideram o sinal grave80%
Já perceberam sangue nas fezes9%
Desses, não procuraram médicoQuase metade
Crescimento anual em jovens (<50 anos) em SPQuase 3% (2000-2023)
Desconhecem o exame FIT2 em cada 3 brasileiros
Público-alvo do novo protocolo do SUSMais de 40 milhões (50 a 75 anos)
Projeção de mortes até 2030635 mil