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domingo, 1 de novembro de 2026
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A rota perigosa da cetamina: psiquiatras de nova entidade médica promovem uso indiscriminado para fins sem respaldo científico

A rota perigosa da cetamina: psiquiatras de nova entidade médica promovem uso indiscriminado para fins sem respaldo científico

Dirigentes da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, filiada à Ordem Médica Brasileira (OMB), divulgam anestésico para fibromialgia, vícios, transtorno bipolar e até “bloquinho da cetamina” no Carnaval; especialista do HCFMUSP alerta para “desvio perigoso” que banaliza tratamento de condição grave e pode aumentar consumo ilegal

O que era para ser uma alternativa promissora no tratamento da depressão resistente está se transformando, nas mãos de alguns médicos, em uma promessa indiscriminada de cura para males que vão desde a fibromialgia até a falta de libido. Uma reportagem do Estadão revela que duas das principais lideranças da Sociedade Brasileira de Psiquiatria – entidade filiada à Ordem Médica Brasileira (OMB) – vêm promovendo em redes sociais o uso da cetamina para indicações não previstas em bula e sem evidências científicas sólidas.

A substância, um anestésico também usado no tratamento de depressão resistente, pode levar à morte por overdose em grandes quantidades – como ocorreu com o ator Matthew Perry, intérprete de Chandler em Friends, em 2023. No Brasil, a cetamina não tem registro na Anvisa. A agência aprovou apenas uma molécula semelhante, a escetamina, restrita ao tratamento do transtorno depressivo maior em pacientes que não responderam a pelo menos dois antidepressivos.


💊 As promessas fora da bula e o “Bloquinho da Cetamina”

A psiquiatra Inês Gullich, presidente da sociedade, indica a substância para depressão (inclusive pós-parto), fibromialgia, vícios e transtorno bipolar – usos não autorizados pela Anvisa. Até pouco tempo, ela se apresentava no Instagram como “CEO Psiquiatria Injetável”, referência a um curso que ministra para ensinar outros médicos a prescreverem medicamentos injetáveis.

A diretora executiva da entidade, Veronica Jordani, também anuncia o uso da cetamina para dor crônica, fibromialgia, ansiedade, transtorno do estresse pós-traumático e fobias. Durante o Carnaval deste ano, ela publicou uma imagem gerada por inteligência artificial de um “Bloquinho da Cetamina – infusão de alegria”, com a legenda de que sua clínica estava com a agenda “cheia de aplicações de cetamina endovenosa”.

“Conteúdos em redes sociais como o do ‘Bloquinho da Cetamina’ são perigosos porque podem inadvertidamente sugerir o medicamento como algo para ‘wellbeing’ (bem-estar). E não é nada disso. É para tratar uma condição grave e extremamente debilitante, que tem um estigma enorme.” – Rodolfo Damiano, psiquiatra coordenador do Ambulatório de Depressão Resistente do HCFMUSP


🧪 O que a ciência realmente diz sobre a cetamina

A principal vantagem da cetamina e da escetamina é a rapidez: enquanto antidepressivos tradicionais levam semanas, elas podem reduzir sintomas depressivos em horas a poucos dias. No entanto, o uso foi pensado para situações em que “a velocidade do efeito é uma necessidade clínica, não uma questão de conveniência” – como quadros depressivos com ideação suicida.

Para as demais indicações citadas pelas médicas, os riscos são claros:

Indicação off-labelRisco / Evidência
Dependência químicaHá indícios positivos, mas ainda são poucos estudos e com amostras pequenas
Depressão bipolarHá risco de piorar a fase de mania do transtorno
Depressão pós-partoUso não é seguro para bebês; a mãe precisaria ficar sem amamentar
FibromialgiaEstudos pequenos mostram alívio de curto prazo, mas evidência muito limitada para uso rotineiro

“O que considero um desvio perigoso é a aceleração da difusão de clínicas e plataformas que oferecem cetamina para praticamente qualquer queixa – ansiedade leve, insônia, fadiga, dor inespecífica – sem base em evidências e, muitas vezes, sem monitoramento adequado.” – Rodolfo Damiano

O psiquiatra também alerta que a banalização do uso pode aumentar o consumo ilegal, elevando o risco de dependência e overdose – o que ocorreu com Matthew Perry, que usava cetamina para depressão, mas acabou morrendo após conseguir doses mais altas com traficantes.


💉 Além da cetamina: implantes hormonais e o mercado da “saúde da mulher”

A presidente da Sociedade Brasileira de Psiquiatria também promove implantes hormonais. Em um vídeo, Inês diz que irá colocar um implante de testosterona e gestrinona em mulheres com cansaço, falta de libido, insônia, irritação e perda de massa muscular.

A testosterona não é indicada para nenhuma dessas queixas – seu uso em mulheres restringe-se ao transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), condição diagnosticada após exclusão de outros fatores como estresse, problemas no relacionamento e depressão. A gestrinona, usada nos “chips da beleza” proibidos pela Anvisa, não tem comprovações de segurança para essas finalidades.

Os riscos incluem alterações hepáticas, no colesterol, hipertensão, arritmias, infarto, embolia, resistência à insulina, além de efeitos colaterais como pele oleosa, acne, aumento de pelos, queda de cabelo, aumento do clitíris e engrossamento da voz.


⚖️ O que dizem as envolvidas e a OMB

Procurada, Inês Gullich afirmou que utiliza a escetamina (permitida no Brasil) e que “não defendo nem pratico o uso indiscriminado do medicamento”. Sobre as indicações fora da bula, ela disse que “existem linhas de pesquisa e experiências clínicas em diferentes centros no mundo investigando o potencial terapêutico da cetamina”. Veronica Jordani não se pronunciou.

A OMB, por sua vez, afirmou que “eventuais condutas individuais de médicos não podem ser atribuídas à instituição”.


🔍 O contexto: a guerra pelos títulos de especialista

A reportagem do Estadão integra uma série sobre a OMB, entidade que protagoniza uma disputa judicial contra o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB) pelo direito de aplicar provas de título para certificar médicos especialistas. A série mostrou ainda que a maioria dos médicos que lideram as sociedades ligadas à OMB atua no mercado de emagrecimento e terapias hormonais – um nicho lucrativo permeado por protocolos e produtos sem evidência científica.

A mensagem final dos especialistas é clara: a cetamina é uma ferramenta poderosa para um grupo específico de pacientes com depressão resistente. Mas, nas mãos erradas – e com a promessa de curar tudo –, ela se torna um risco à saúde pública.


🔍 O que você precisa saber sobre o uso da cetamina

AspectoInformação
O que éAnestésico também usado no tratamento de depressão resistente
Situação no BrasilCetamina não tem registro na Anvisa; apenas a escetamina é aprovada
Uso aprovadoTranstorno depressivo maior em pacientes que não responderam a pelo menos dois antidepressivos
Usos off-label promovidosFibromialgia, vícios, transtorno bipolar, dor crônica, ansiedade, TEPT, fobias
RiscosOverdose, dependência, piora da mania bipolar, riscos para bebês na amamentação
Alerta do especialista“Desvio perigoso” oferecer cetamina para ansiedade leve, insônia, fadiga sem base em evidências
ContextoOMB disputa com CFM/AMB o direito de certificar especialistas