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domingo, 1 de novembro de 2026
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A nova rota do perigo: maconha “creepy” com até 25% de THC reconfigura o tráfico e acende alerta na saúde pública

A nova rota do perigo: maconha “creepy” com até 25% de THC reconfigura o tráfico e acende alerta na saúde pública

Conhecida na Colômbia como “cripa”, a variedade de cannabis é cultivada em laboratórios clandestinos e tem potência até 50 vezes maior que a maconha comum. Especialistas alertam que o alto teor de THC pode multiplicar por nove as chances de transtornos psiquiátricos, e o Brasil já se tornou o principal destino da droga que chega escondida em embarcações pelos rios amazônicos

A maconha que chega às ruas hoje não é a mesma que circulava há duas décadas. Enquanto a erva comum tem concentração de THC (tetrahidrocanabinol) entre 0,5% e 5%, uma nova variedade desenvolvida em laboratórios clandestinos na Colômbia pode atingir até 25% da substância psicoativa – e, em algumas cepas, até 35%. É a creepy, também conhecida no país vizinho como “cripa”, e ela já reconfigurou as rotas do tráfico de drogas na América do Sul.


🧪 O que é a creepy e por que ela é tão potente

A maconha creepy é uma variante da cannabis cultivada em estufas e laboratórios clandestinos, principalmente no departamento colombiano de Cauca. O nome, que em tradução livre do inglês significa “estranho”, “horripilante” ou “inquietante”, não é à toa: ela é famosa justamente por seus efeitos atordoantes e pela potência extremamente elevada, o que a torna mais cara e significativamente mais perigosa para a saúde.

O salto na concentração de THC é o grande diferencial. Para efeito de comparação:

  • Década de 1970: THC nos brotos de maconha era inferior a 1%.
  • Década de 1990: subiu para cerca de 4%.
  • Maconha comum atual: varia entre 0,5% e 5%.
  • Creepy: pode chegar a 25%.
  • Variedades mais extremas: até 35% de THC, segundo estudo da Universidade do Colorado.

Em apenas algumas décadas, a concentração da substância psicoativa na maconha aumentou mais de 200%.


🧠 Os riscos à saúde mental: por que a creepy é mais perigosa

O alto teor de THC não é apenas uma questão de potência recreativa. Ele tem consequências diretas e graves para a saúde mental, especialmente quando o consumo começa cedo.

O THC se liga aos receptores canabinoides CB1, amplamente distribuídos pelo cérebro, em estruturas neuronais que mediam funções essenciais como memória, emoção e cognição. Quanto maior a concentração, maior o impacto.

Os números são alarmantes:

  • O consumo de cannabis com alto teor de THC multiplica por nove as chances de desenvolvimento de qualquer transtorno psiquiátrico – incluindo bipolaridade, esquizofrenia, depressão, ansiedade e comportamento suicida.
  • O risco de esquizofrenia triplica entre usuários de cannabis potente.
  • Até 30% dos casos de esquizofrenia entre homens jovens (21 a 30 anos) poderiam ter sido prevenidos se não tivessem fumado cannabis, segundo estudo dinamarquês com 6 milhões de pessoas ao longo de 50 anos.

“Se a cannabis não existisse, o número de casos de esquizofrenia cairia drasticamente” , afirma o psiquiatra Celso Arango, ex-presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria.

O impacto é ainda maior quando o consumo ocorre durante a adolescência, período em que o cérebro ainda está em formação e as conexões neuronais do córtex pré-frontal estão sendo estabelecidas. Uma vez comprometidas, essas conexões não são reestabelecidas da mesma forma mais tarde.


🚤 A rota do tráfico: como a creepy chega ao Brasil

A creepy não é apenas um problema de saúde pública – é também um desafio logístico para as forças de segurança. A droga é plantada na Colômbia, principalmente no departamento de Cauca, e transportada por terra até os rios Orteguasa ou Caguán, que desaguam no Caquetá-Japurá.

A partir daí, escondida em embarcações que navegam pelos rios Japurá e Puruê, no Amazonas, a droga cruza a fronteira e se espalha pelo território brasileiro. O produto tem se tornado a droga mais apreendida nos rios amazônicos, superando o volume da cocaína.

“A porcentagem de THC da maconha potencializada do tipo creepy gira em torno de 24%” , segundo glossário publicado em 2023 pelo Centro de Estudos sobre Drogas e Desenvolvimento Social Comunitário (Cdesc) da Colômbia.


⚠️ A ilusão da normalidade: por que pais e avós se enganam

Um dos aspectos mais preocupantes apontados pelos especialistas é a baixa percepção social dos riscos associados à cannabis moderna.

“Pais e avós de crianças que usam a droga hoje se enganam ao acreditar que se trata da mesma maconha que fumavam antigamente. Pelo contrário: eles não têm nada a ver com isso” , alerta o pesquisador Fernando Berrendero, da Universidade Francisco Vitoria, na Espanha.

O que antes era uma droga com efeitos relativamente suaves se transformou em uma substância com potencial de causar danos neurológicos e psiquiátricos profundos – e o mercado ilegal, que se adapta rapidamente, já está abastecido com essa nova realidade.


🧭 O que fazer diante desse cenário?

Especialistas ouvidos pelo O Globo reforçam que a abordagem ao consumo de cannabis precisa ser atualizada à luz das novas evidências científicas. A maconha de hoje não é a maconha de 30 anos atrás – e as políticas de prevenção, educação e saúde mental precisam acompanhar essa transformação.

Os riscos aumentam dependendo de três fatores principais:

  1. Idade – quanto menor, pior o impacto no cérebro
  2. Dose – ou quantidade de THC consumida
  3. Duração do abuso – consumo contínuo ou intermitente

A mensagem final dos especialistas é clara: a creepy não é apenas uma versão mais forte da maconha que se conhecia. É uma substância fundamentalmente diferente, com riscos que não podem ser subestimados – e que já está mudando as rotas do tráfico e a paisagem da saúde pública no Brasil.


🔍 O que você precisa saber sobre a maconha creepy

AspectoInformação
O que éVariante da cannabis cultivada em laboratórios clandestinos na Colômbia, também chamada de “cripa”
Concentração de THCAté 25% (vs. 0,5% a 5% da maconha comum)
Origem do nomeDo inglês creepy (estranho, horripilante), pelos efeitos atordoantes que causa
Rota de entrada no BrasilRios amazônicos (Japurá e Puruê), via Colômbia
Risco de transtornos psiquiátricosMultiplica por 9 as chances de desenvolver bipolaridade, esquizofrenia, depressão, ansiedade ou comportamento suicida
Risco de esquizofreniaTriplica entre usuários
Impacto na adolescênciaCompromete conexões neuronais do córtex pré-frontal de forma irreversível
Comparação históricaTHC na maconha: 1% (1970) → 4% (1990) → até 35% (atual)
Principal alertaA maconha de hoje não é a mesma de décadas atrás; riscos são muito maiores