A nova rota do perigo: maconha “creepy” com até 25% de THC reconfigura o tráfico e acende alerta na saúde pública
Conhecida na Colômbia como “cripa”, a variedade de cannabis é cultivada em laboratórios clandestinos e tem potência até 50 vezes maior que a maconha comum. Especialistas alertam que o alto teor de THC pode multiplicar por nove as chances de transtornos psiquiátricos, e o Brasil já se tornou o principal destino da droga que chega escondida em embarcações pelos rios amazônicos

A maconha que chega às ruas hoje não é a mesma que circulava há duas décadas. Enquanto a erva comum tem concentração de THC (tetrahidrocanabinol) entre 0,5% e 5%, uma nova variedade desenvolvida em laboratórios clandestinos na Colômbia pode atingir até 25% da substância psicoativa – e, em algumas cepas, até 35%. É a creepy, também conhecida no país vizinho como “cripa”, e ela já reconfigurou as rotas do tráfico de drogas na América do Sul.
🧪 O que é a creepy e por que ela é tão potente
A maconha creepy é uma variante da cannabis cultivada em estufas e laboratórios clandestinos, principalmente no departamento colombiano de Cauca. O nome, que em tradução livre do inglês significa “estranho”, “horripilante” ou “inquietante”, não é à toa: ela é famosa justamente por seus efeitos atordoantes e pela potência extremamente elevada, o que a torna mais cara e significativamente mais perigosa para a saúde.
O salto na concentração de THC é o grande diferencial. Para efeito de comparação:
- Década de 1970: THC nos brotos de maconha era inferior a 1%.
- Década de 1990: subiu para cerca de 4%.
- Maconha comum atual: varia entre 0,5% e 5%.
- Creepy: pode chegar a 25%.
- Variedades mais extremas: até 35% de THC, segundo estudo da Universidade do Colorado.
Em apenas algumas décadas, a concentração da substância psicoativa na maconha aumentou mais de 200%.
🧠 Os riscos à saúde mental: por que a creepy é mais perigosa
O alto teor de THC não é apenas uma questão de potência recreativa. Ele tem consequências diretas e graves para a saúde mental, especialmente quando o consumo começa cedo.
O THC se liga aos receptores canabinoides CB1, amplamente distribuídos pelo cérebro, em estruturas neuronais que mediam funções essenciais como memória, emoção e cognição. Quanto maior a concentração, maior o impacto.
Os números são alarmantes:
- O consumo de cannabis com alto teor de THC multiplica por nove as chances de desenvolvimento de qualquer transtorno psiquiátrico – incluindo bipolaridade, esquizofrenia, depressão, ansiedade e comportamento suicida.
- O risco de esquizofrenia triplica entre usuários de cannabis potente.
- Até 30% dos casos de esquizofrenia entre homens jovens (21 a 30 anos) poderiam ter sido prevenidos se não tivessem fumado cannabis, segundo estudo dinamarquês com 6 milhões de pessoas ao longo de 50 anos.
“Se a cannabis não existisse, o número de casos de esquizofrenia cairia drasticamente” , afirma o psiquiatra Celso Arango, ex-presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria.
O impacto é ainda maior quando o consumo ocorre durante a adolescência, período em que o cérebro ainda está em formação e as conexões neuronais do córtex pré-frontal estão sendo estabelecidas. Uma vez comprometidas, essas conexões não são reestabelecidas da mesma forma mais tarde.
🚤 A rota do tráfico: como a creepy chega ao Brasil
A creepy não é apenas um problema de saúde pública – é também um desafio logístico para as forças de segurança. A droga é plantada na Colômbia, principalmente no departamento de Cauca, e transportada por terra até os rios Orteguasa ou Caguán, que desaguam no Caquetá-Japurá.
A partir daí, escondida em embarcações que navegam pelos rios Japurá e Puruê, no Amazonas, a droga cruza a fronteira e se espalha pelo território brasileiro. O produto tem se tornado a droga mais apreendida nos rios amazônicos, superando o volume da cocaína.
“A porcentagem de THC da maconha potencializada do tipo creepy gira em torno de 24%” , segundo glossário publicado em 2023 pelo Centro de Estudos sobre Drogas e Desenvolvimento Social Comunitário (Cdesc) da Colômbia.
⚠️ A ilusão da normalidade: por que pais e avós se enganam
Um dos aspectos mais preocupantes apontados pelos especialistas é a baixa percepção social dos riscos associados à cannabis moderna.
“Pais e avós de crianças que usam a droga hoje se enganam ao acreditar que se trata da mesma maconha que fumavam antigamente. Pelo contrário: eles não têm nada a ver com isso” , alerta o pesquisador Fernando Berrendero, da Universidade Francisco Vitoria, na Espanha.
O que antes era uma droga com efeitos relativamente suaves se transformou em uma substância com potencial de causar danos neurológicos e psiquiátricos profundos – e o mercado ilegal, que se adapta rapidamente, já está abastecido com essa nova realidade.
🧭 O que fazer diante desse cenário?
Especialistas ouvidos pelo O Globo reforçam que a abordagem ao consumo de cannabis precisa ser atualizada à luz das novas evidências científicas. A maconha de hoje não é a maconha de 30 anos atrás – e as políticas de prevenção, educação e saúde mental precisam acompanhar essa transformação.
Os riscos aumentam dependendo de três fatores principais:
- Idade – quanto menor, pior o impacto no cérebro
- Dose – ou quantidade de THC consumida
- Duração do abuso – consumo contínuo ou intermitente
A mensagem final dos especialistas é clara: a creepy não é apenas uma versão mais forte da maconha que se conhecia. É uma substância fundamentalmente diferente, com riscos que não podem ser subestimados – e que já está mudando as rotas do tráfico e a paisagem da saúde pública no Brasil.
🔍 O que você precisa saber sobre a maconha creepy
| Aspecto | Informação |
|---|---|
| O que é | Variante da cannabis cultivada em laboratórios clandestinos na Colômbia, também chamada de “cripa” |
| Concentração de THC | Até 25% (vs. 0,5% a 5% da maconha comum) |
| Origem do nome | Do inglês creepy (estranho, horripilante), pelos efeitos atordoantes que causa |
| Rota de entrada no Brasil | Rios amazônicos (Japurá e Puruê), via Colômbia |
| Risco de transtornos psiquiátricos | Multiplica por 9 as chances de desenvolver bipolaridade, esquizofrenia, depressão, ansiedade ou comportamento suicida |
| Risco de esquizofrenia | Triplica entre usuários |
| Impacto na adolescência | Compromete conexões neuronais do córtex pré-frontal de forma irreversível |
| Comparação histórica | THC na maconha: 1% (1970) → 4% (1990) → até 35% (atual) |
| Principal alerta | A maconha de hoje não é a mesma de décadas atrás; riscos são muito maiores |