Novos critérios permitem diagnosticar esclerose múltipla antes mesmo dos sintomas; entenda a mudança que pode transformar o prognóstico
Revisão dos Critérios de McDonald, publicada em 2025 no The Lancet Neurology, amplia a precisão diagnóstica ao incluir o nervo óptico como nova região de lesão e permite tratar pacientes assintomáticos com lesões típicas; objetivo é antecipar o tratamento para evitar sequelas em uma doença que afeta 40 mil brasileiros

A esclerose múltipla (EM) é a condição neurológica mais comum entre adultos jovens. Afeta 2,9 milhões de pessoas no mundo e cerca de 40 mil no Brasil. Durante anos, o diagnóstico dependia do aparecimento de sintomas claros — perda visual, desequilíbrio, formigamentos ou fraqueza muscular. Mas uma revisão dos Critérios de McDonald, publicada em 2025 no periódico The Lancet Neurology, mudou esse cenário.
A atualização incorpora novos marcadores biológicos e amplia a precisão dos exames, permitindo que o diagnóstico seja feito em estágios cada vez mais precoces — inclusive antes mesmo de o paciente apresentar qualquer queixa.
“O objetivo é antecipar o diagnóstico, a fim de prevenir sintomas, para evitar o aparecimento de sequelas” , afirma o neurologista Herval Ribeiro Soares Neto, do Hospital Israelita Einstein.
🧬 O que é a esclerose múltipla e por que o diagnóstico precoce é crucial
A EM é uma doença autoimune em que células do sistema de defesa atacam a bainha de mielina — uma espécie de capa que reveste os neurônios e é essencial para a transmissão de impulsos nervosos. Esse ataque causa inflamação e lesões em regiões como o nervo óptico, a medula espinhal e o cerebelo.
Os sintomas variam conforme a área afetada:
- Perda visual ou visão embaçada
- Vertigem e desequilíbrio
- Perda de sensibilidade ou formigamento
- Perda de força muscular
Em cerca de 80% dos casos, a doença se manifesta em surtos que duram semanas e podem melhorar espontaneamente. Mas a recuperação nem sempre é completa — depende da capacidade do organismo de refazer a bainha de mielina (remielinização). Por isso, quanto mais cedo o tratamento começar, menor o risco de sequelas permanentes.
🔬 O que mudou nos Critérios de McDonald
A revisão de 2025 trouxe duas novidades principais:
1. Inclusão do nervo óptico como região típica de lesão — até então, as lesões eram avaliadas em quatro áreas: periventricular, juxtacortical/cortical, infratentorial e medula espinhal. O nervo óptico agora se junta a essa lista, ampliando as possibilidades de detecção precoce.
2. Diagnóstico em pacientes assintomáticos com lesões típicas — antes, pessoas que tinham lesões nos exames de imagem mas não apresentavam sintomas eram classificadas como portadoras de síndrome radiológica isolada. Agora, esses pacientes podem receber o diagnóstico de EM e iniciar o tratamento antes mesmo de a doença se manifestar clinicamente.
“Isso é importante porque podemos começar a tratar a doença antes que ela se manifeste, melhorando o prognóstico” , observa a neurologista Ana Cláudia Piccolo, coordenadora do departamento científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
🧪 Como o diagnóstico é feito hoje
O diagnóstico da EM combina três pilares:
- Exame clínico e histórico do paciente
- Ressonância magnética de crânio e coluna — capaz de visualizar lesões típicas em detalhe
- Análise do líquor (líquido cefalorraquidiano), retirado por punção lombar, para detectar marcadores como as bandas oligoclonais — um grupo de proteínas que indica atividade inflamatória no sistema nervoso central
“A qualidade desses exames faz a diferença para um diagnóstico mais correto e precoce” , destaca Soares Neto.
No Einstein, por exemplo, foi criado um laudo estruturado de ressonância magnética específico para EM, que avalia a hipótese de forma sistematizada.
⚠️ O desafio: sintomas que passam despercebidos
Apesar dos avanços, mais de 80% dos países enfrentam dificuldades para fazer o diagnóstico precoce, segundo a 3ª Edição do Atlas da Esclerose Múltipla (2021).
O problema é que os sintomas iniciais são muitas vezes inespecíficos e confundidos com outras condições:
- Fadiga persistente
- Perda de equilíbrio
- Visão embaçada
“A porta de entrada costuma ser o ortopedista, o otorrino ou o oftalmo” , relata Piccolo.
E mesmo quando o paciente chega ao neurologista, pode ser por outros motivos: “Às vezes, a doença é diagnosticada quando a pessoa vai investigar enxaqueca ou mesmo um traumatismo craniano” , observa Soares Neto.
💊 Tratamento: mais eficaz, mais seguro, mais individualizado
O tratamento da EM evoluiu significativamente nos últimos anos. Hoje, existem mais de dez opções de medicamentos, principalmente imunomoduladores e imunossupressores, aplicados via endovenosa ou em comprimidos.
“A evolução do tratamento permitiu maior eficácia, com menos chance de novos surtos e novas lesões no cérebro e na medula” , destaca Soares Neto.
Com o tratamento de alta eficácia atual, há mais de 90% de chance de evitar novas lesões inflamatórias no cérebro.
Em abril de 2026, a Anvisa aprovou o ublituximabe (Briumvi) , um anticorpo monoclonal que impede os linfócitos de atacarem a bainha de mielina, reduzindo as crises. “É um tratamento de uma classe que já existe no mercado, mais uma alternativa” , observa Soares Neto.
🧭 O futuro: tratar antes de a doença aparecer
A grande virada dos novos critérios diagnósticos é a possibilidade de tratar a EM antes mesmo dos sintomas. Isso representa uma mudança de paradigma: em vez de esperar que a doença se manifeste para agir, a medicina agora pode antecipar o diagnóstico e proteger o paciente de sequelas irreversíveis.
“Não existe um protocolo único, uma receita de bolo, o tratamento é individualizado” , diz Soares Neto. “Mas com tratamento de alta eficácia, é possível silenciar a doença por décadas.”
A mensagem final é clara: a esclerose múltipla não é mais uma sentença de incapacidade. Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento multidisciplinar, é possível preservar a funcionalidade e a qualidade de vida por muitos anos.
🔍 O que muda com a nova diretriz
| Aspecto | Antes | Agora (Critérios 2025) |
|---|---|---|
| Regiões de lesão | 4 (periventricular, juxtacortical/cortical, infratentorial, medula) | 5 (inclui nervo óptico) |
| Pacientes com lesões mas sem sintomas | Classificados como “síndrome radiológica isolada” | Podem receber diagnóstico de EM e iniciar tratamento |
| Objetivo | Diagnosticar após sintomas | Antecipar o diagnóstico para evitar sequelas |
| Tratamento de alta eficácia | Menos opções | Mais de 10 medicamentos; >90% de chance de evitar novas lesões |
| Novo medicamento (2026) | — | Ublituximabe (Briumvi) aprovado pela Anvisa |