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segunda-feira, 2 de novembro de 2026
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Por que o inverno nos deixa tão cansados? A resposta está na biologia — e não é “frescura”

Por que o inverno nos deixa tão cansados? A resposta está na biologia — e não é “frescura”

Vasoconstrição, alterações hormonais, sobrecarga imunológica e menos luz solar explicam a fadiga típica dos dias frios; especialistas alertam quando o cansaço deixa de ser normal e viram sinal de alerta para o coração

O ar frio, os dias mais curtos e a vontade de ficar embaixo das cobertas não são fruto da imaginação — são respostas biológicas do corpo às baixas temperaturas. Sentir mais cansaço, desânimo e sonolência no inverno é tão natural quanto a queda das folhas no outono, e tem explicações profundas na fisiologia humana.


🩸 Vasoconstrição e coração acelerado: o preço de se manter aquecido

Quando o termômetro cai, o corpo entra em modo de preservação. O cardiologista Adriano Senter Magajevski, do Hospital Sugisawa, em Curitiba, explica que o organismo aciona mecanismos para manter a temperatura interna estável.

“O corpo lança mão de mecanismos para manter a temperatura corporal, seja através de vasoconstrição (o vaso reduz de calibre para evitar a irradiação do calor), assim como aumento do tônus muscular (contração leve e contínua dos músculos).”

A vasoconstrição reduz o fluxo sanguíneo para a pele e as extremidades, preservando o calor. Paralelamente, ocorre uma ativação do sistema simpático, responsável por controlar funções automáticas como batimentos cardíacos, respiração e pressão arterial.

“Isso leva a um maior consumo de oxigênio por parte dos órgãos e principalmente do coração, com aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial — algo parecido com o que ocorre durante os jogos do Brasil” , compara o cardiologista.

O resultado de todo esse esforço extra é um só: o corpo sente mais cansaço. Rigidez muscular, desconforto físico e a própria sensação de frio completam o pacote.


🌞 Menos luz, mais melatonina e a queda da serotonina

Outro fator determinante para a fadiga invernal é a redução da exposição à luz solar. Com os dias mais curtos e as noites mais longas, a produção de neurotransmissores e hormônios é alterada.

A bióloga Thaís Pacheco, mestre em biologia celular e molecular e professora do UniCuritiba, explica o mecanismo:

“A menor exposição à luz solar reduz a produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao bem-estar, e pode aumentar a produção de melatonina, hormônio que regula o sono. Essa combinação favorece a sensação de cansaço, sonolência e desânimo.”

A queda da serotonina ajuda a explicar por que o inverno costuma ser acompanhado de um humor mais baixo. Já o aumento da melatonina — o hormônio do sono — sinaliza ao corpo que é hora de descansar, mesmo durante o dia.


🦠 Sistema imunológico sobrecarregado: o custo de combater infecções

O inverno também é a temporada de gripes, resfriados e outras infecções respiratórias. E esse aumento de casos não é coincidência — ele tem relação direta com o cansaço.

O pneumologista Luiz Felipe Natel Kugler Mendes, do Hospital VITA, em Curitiba, explica que o frio favorece alterações imunológicas e fisiológicas que tornam o organismo mais suscetível.

“A inalação de ar frio provoca uma vasoconstrição na mucosa respiratória, o que reduz a chegada de células de defesa à porta de entrada desses patógenos. Paralelamente, a exposição ao ar frio e seco compromete a função do sistema mucociliar (mecanismo de defesa do aparelho respiratório), diminuindo sua eficácia.”

Além disso, alguns vírus respiratórios, como o da influenza e o vírus sincicial respiratório (VSR), sobrevivem e se transmitem melhor em climas frios. E o comportamento humano também ajuda: no inverno, as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados, pouco ventilados e com maior aglomeração, o que facilita a transmissão.

Quando o sistema imunológico é acionado para combater esses agentes, ele consome mais energia:

“A fadiga é causada, principalmente, pela intensa resposta inflamatória do organismo, que consome grande parte da energia corporal para produzir células de defesa, levando à prostração (muita fraqueza) e astenia (sensação de falta de força ou energia).”

O impacto direto do agente infeccioso nas vias aéreas também pode comprometer a função pulmonar, reduzindo a oxigenação do sangue e potencializando o cansaço.


👶 Quem sofre mais com o frio? Crianças, idosos e grupos vulneráveis

Nem todo mundo sente o impacto do inverno da mesma forma. Segundo os especialistas, crianças e idosos tendem a ser mais afetados:

  • Crianças: têm menor massa corporal e sistema de termorregulação ainda em desenvolvimento.
  • Idosos: os mecanismos de controle da temperatura corporal ficam menos eficientes com o envelhecimento.

Pessoas com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial, também podem sentir um impacto maior, pois tendem a ter menor capacidade de adaptação às mudanças fisiológicas provocadas pelo frio.

Há ainda outro grupo que merece atenção: pessoas com transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade e transtorno afetivo sazonal (TAS) — um tipo de depressão desencadeado pelas mudanças na exposição à luz ao longo das estações. A menor exposição solar está associada ao aumento dos sintomas depressivos, que podem contribuir para a sensação de fadiga.


🚨 Quando o cansaço deixa de ser normal e vira alerta

O cansaço típico do inverno geralmente é leve, melhora com repouso e não interfere significativamente nas atividades diárias. Mas há sinais que exigem atenção.

O cardiologista Adriano Senter Magajevski lista os alertas para problemas cardiovasculares:

“Sinais de alerta cardiovascular incluem fadiga desproporcional ao esforço, fadiga que piora progressivamente, fadiga acompanhada de dispneia, edema de tornozelos, dor torácica, palpitações ou sintomas que persistem mesmo em repouso.”

O pneumologista Mendes complementa:

“É muito difícil que o indivíduo, isoladamente, consiga se autodiagnosticar. Isso é desaconselhável. Então, ele deve procurar atendimento médico sempre que a gravidade do quadro estiver comprometendo muito a sua autonomia física e respiratória principalmente.”


🧣 Como reduzir os efeitos do frio no dia a dia

Para atravessar o inverno com mais disposição, os especialistas recomendam:

  • Aproveitar a luz natural durante o dia
  • Praticar atividades físicas regularmente
  • Manter uma alimentação equilibrada
  • Priorizar um sono de qualidade
  • Manter uma boa hidratação — já que no frio muitas pessoas bebem menos água

“Esses hábitos ajudam a preservar a disposição e o equilíbrio do organismo durante o inverno” , destaca a bióloga Thaís Pacheco.

A sensação de cansaço nos dias frios não é “frescura” — é biologia pura. Entender os mecanismos por trás dela é o primeiro passo para lidar melhor com o inverno e saber quando o corpo está apenas se adaptando ou pedindo ajuda.


🔍 Os 4 pilares do cansaço no inverno

FatorMecanismoConsequência
VasoconstriçãoRedução do fluxo sanguíneo para pele e extremidades para preservar calorMaior esforço do coração, aumento da pressão e da frequência cardíaca, sensação de cansaço
Menos luz solarQueda na produção de serotonina e aumento da melatoninaSonolência diurna, desânimo, humor mais baixo
Sobrecarga imunológicaCorpo combate mais infecções respiratórias no invernoConsumo energético elevado, prostração e fraqueza
ComportamentoPermanência em ambientes fechados e aglomeradosMaior transmissão de vírus e sobrecarga do sistema imunológico

Sinais de alerta que exigem atendimento médico:

  • Fadiga desproporcional ao esforço
  • Piora progressiva do cansaço
  • Falta de ar, inchaço nos tornozelos, dor no peito ou palpitações
  • Prostração intensa ou mal-estar muito diferente de gripes anteriores