Pular para o conteúdo
domingo, 1 de novembro de 2026
Últimas
NOTÍCIAS

“Tadala” nos treinos: remédio para ereção vira febre em academias e coloca saúde em risco

“Tadala” nos treinos: remédio para ereção vira febre em academias e coloca saúde em risco

Sem comprovação de benefícios para hipertrofia ou força, uso da tadalafila como pré-treino cresce entre jovens e expõe frequentadores a quedas de pressão, arritmias, infarto e até morte súbita; médicos alertam que “pump” é ilusão perigosa

No vestiário da academia, um homem de 28 anos, que chamaremos de Ricardo, toma um comprimido de cinco miligramas de tadalafila antes de treinar. O relato, colhido pela reportagem da Folha, é um retrato de uma prática que se tornou comum nos bastidores do mundo fitness: usar o medicamento indicado para disfunção erétil como se fosse um “pré-treino”. Apelidada de “tadala” nas redes sociais e em conversas entre amigos, a substância virou febre entre jovens que buscam mais vascularização, músculos inchados e a sensação de um “pump” mais intenso durante o treino.

O problema é que essa prática, além de não ter respaldo científico, pode ser fatal.

Um “pump” ilusório, riscos reais

A lógica por trás do uso é simples, mas perigosa. A tadalafila age inibindo a enzima PDE-5, o que relaxa os vasos sanguíneos e aumenta o fluxo de sangue. Durante o treino, isso pode criar a sensação de músculos mais inchados. No entanto, o endocrinologista Pedro Guilherme Cabral, do Hospital Brasília, é categórico: “O pump é apenas uma sensação temporária, não um indicador de hipertrofia ou ganho de força”.

O urologista Alexandre Sallum reforça que a ideia de que a tadalafila melhora o desempenho físico é pura especulação, sem nenhuma evidência científica. Estudos mostram que a substância não melhora a aptidão física em atletas saudáveis e, em alguns casos, pode até aumentar marcadores de dano muscular.

Enquanto os benefícios são uma miragem, os riscos são uma realidade concreta. O medicamento, quando usado sem orientação e associado ao esforço físico intenso, pode sobrecarregar o sistema cardiovascular.

Efeitos colaterais comuns e riscos graves

Os efeitos adversos mais comuns incluem dor de cabeça, dores musculares (especialmente na lombar), congestão nasal, vermelhidão no rosto e desconfortos gastrointestinais. Porém, o cenário pode se agravar rapidamente.

  • Queda de pressão e desmaios: A vasodilatação causada pelo medicamento pode levar a uma queda brusca da pressão arterial, resultando em tonturas, desmaios e quedas.
  • Riscos cardíacos graves: Durante o exercício, o coração já está sobrecarregado. A combinação com a tadalafila pode desencadear arritmias, infarto e até morte súbita. O cardiologista Nilton José Carneiro alerta que o uso frequente pode descontrolar a pressão e aumentar o risco de complicações fatais.
  • Priapismo: Em situações mais raras, o medicamento pode causar uma ereção prolongada e dolorosa por mais de quatro horas (priapismo), que pode levar a danos permanentes no pênis.
  • Interações perigosas: O risco é ainda maior para quem já usa outros medicamentos, como anti-hipertensivos ou nitratos (comuns em alguns pré-treinos), o que pode potencializar a queda de pressão e os efeitos adversos.

“Dependência psicológica” e o apelo da cultura fitness

A médica e farmacologista Fabiana Rossi destaca que a tadalafila não é isenta de riscos e que a falta de supervisão médica é um dos maiores problemas. Além dos danos físicos, o uso recreativo do medicamento pode gerar uma dependência psicológica. O coordenador do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Gustavo Marquesine Paul, explica que muitos jovens passam a acreditar que só terão um bom desempenho (seja no sexo ou nos treinos) se estiverem usando o remédio.

Vendas em disparada: um mercado bilionário

A popularidade da prática se reflete nos números de venda. Segundo dados da Anvisa, foram comercializadas 74,9 milhões de caixas de tadalafila em 2025, um aumento de 15,8% em relação a 2024. Em 2015, esse número era de apenas 3,2 milhões. Em 2024, a tadalafila ficou em terceiro lugar entre os medicamentos mais vendidos no país, atrás apenas de losartana e metformina, e gerou uma receita de mais de R$ 1,2 bilhão.

O que fazer?

A recomendação dos médicos é unânime: não use tadalafila ou qualquer outro medicamento para fins off-label (fora da bula) sem prescrição e acompanhamento. A substância é segura apenas quando utilizada para as indicações corretas (disfunção erétil, hipertensão arterial pulmonar ou sintomas urinários da próstata) e sob supervisão médica.

A saúde não tem atalho. O uso de medicamentos sem necessidade, especialmente com a promessa de resultados estéticos rápidos, é uma aposta perigosa que pode custar caro.