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Looksmaxxing: a nova obsessão estética que leva jovens a procedimentos extremos e acende alerta entre médicos

Movimento que promete a “aparência máxima” ganha força no TikTok e está enraizado em comunidades incel; prática divide-se entre “softmaxxing” (cuidados básicos) e “hardmaxxing” (cirurgias e até automutilação); especialistas alertam para riscos físicos e psicológicos, e destacam o papel do cirurgião em recusar procedimentos quando a demanda foge da realidade

 Illustration: Paddy Mills at Synergy/The Guardian

A busca pela aparência perfeita sempre fez parte do imaginário humano, mas uma nova tendência entre adolescentes e jovens adultos está levando essa procura a um patamar preocupante. Trata-se do looksmaxxing – um termo em inglês que significa, literalmente, “maximizar a aparência” –, uma prática que promete elevar a beleza masculina ao extremo, muitas vezes por meio de procedimentos invasivos, dietas radicais, exercícios intensos e, em alguns casos, até automutilação.

O movimento, que ganhou enorme impulso no TikTok nos últimos anos, tem raízes em comunidades da chamada machosfera, especialmente entre grupos incel (celibatários involuntários) , e reflete uma visão distorcida sobre atração e relacionamentos. A preocupação de pais, médicos e especialistas em saúde mental é crescente – e já há mortes associadas a essa busca desenfreada por um corpo e rosto “ideais”.


📱 O que é o looksmaxxing e como ele se divide

O looksmaxxing não é um fenômeno recente – circula nas redes há pelo menos uma década –, mas sua popularização explodiu com o algoritmo do TikTok, que amplificou vídeos de jovens mostrando transformações, dicas e, em alguns casos, procedimentos perigosos.

A prática é dividida em dois níveis principais, conforme explicou o cirurgião plástico André Maranhão, diretor do Departamento de Eventos Científicos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), ao O Globo.

1. Softmaxxing (ou “melhorias leves”) – considerado o estágio inicial e mais acessível. Inclui:

  • Mudanças de corte de cabelo e barba
  • Uso de cosméticos e produtos para a pele
  • Adoção de rotinas de exercícios e dietas
  • Correção postural e cuidados com a higiene

Nessa fase, as alterações são naturais, reversíveis e, em sua maioria, saudáveis.

2. Hardmaxxing (ou “melhorias pesadas”) – o ponto em que a prática se torna perigosa. Envolve:

  • Procedimentos estéticos invasivos (preenchimentos, botox, rinoplastias, implantes)
  • Cirurgias plásticas múltiplas e sucessivas
  • Uso de anabolizantes e outros produtos para ganho muscular acelerado
  • Em casos extremos, técnicas de automutilação – como bater com um martelo no próprio rosto ou forçar a região dos olhos com instrumentos, numa tentativa bizarra de alterar a estrutura óssea.

“No movimento looksmaxxing, chama atenção a tentativa de alcançar padrões estéticos muitas vezes irreais, frequentemente amplificados por redes sociais, filtros digitais e imagens altamente editadas” , alerta Maranhão.


🌏 O caso que chocou o mundo: o influenciador expulso de um voo

Um dos exemplos mais extremos do looksmaxxing é o do influenciador digital australiano Ronan Androgenic. Ele se tornou conhecido nas redes por documentar, uma após outra, as cirurgias plásticas a que se submetia – mostrando não apenas os resultados, mas também o processo clínico e a recuperação.

O auge da repercussão ocorreu quando Ronan foi retirado de um voo de volta para a Austrália após passar por uma cirurgia estética na Tailândia. Os comissários consideraram que ele apresentava uma aparência doentia e o convidaram a se retirar. Ele ainda demorou dias para conseguir retornar ao país.

Em seu perfil no Instagram, Ronan se define abertamente como um looksmaxxer e exibe um rosto que, segundo relatos, chegou a perder a expressividade – uma consequência visível do excesso de procedimentos. O caso ilustra o limite tênue entre a busca pela beleza e a desfiguração promovida pela compulsão estética.


🧬 A raiz do movimento: a conexão com a cultura incel e o ódio às mulheres

O looksmaxxing não é apenas uma onda de vaidade masculina. Ele está profundamente enraizado em uma ideologia que culpa a aparência pela falta de sucesso amoroso e sexual.

Os grupos incel – homens que se consideram “involuntariamente celibatários” – acreditam que o interesse feminino é exclusiva ou majoritariamente baseado na aparência física. Essa crença alimenta uma narrativa de ódio contra as mulheres e uma obsessão por atingir padrões estéticos que supostamente garantiriam a aprovação feminina.

O professor de psicologia Andrew Thomas, da Universidade de Swansea, estudou o fenômeno e publicou suas descobertas na revista científica The Journal of Sex Research. Em entrevista, ele explicou que os incels apresentam erros de pensamento específicos sobre relacionamentos e atração – distorções que podem ser corrigidas com terapia cognitivo-comportamental.

“Nossas descobertas destacam a importância de um suporte personalizado à saúde mental para incels, pois eles parecem apresentar erros de pensamento específicos relacionados às relações sexuais que podem impactar seus relacionamentos interpessoais” , afirmou Thomas.

O looksmaxxing, nesse contexto, funciona como uma promessa falsa: a de que a transformação física resolverá todos os problemas de rejeição e isolamento social, quando, na verdade, o que está em jogo é uma questão emocional e psicológica muito mais profunda.


🇧🇷 O alerta brasileiro: a morte de Gabriel Ganley e o uso de anabolizantes

No Brasil, a discussão sobre os excessos estéticos ganhou um contorno trágico com a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de apenas 22 anos. Ele impressionou colegas e seguidores ao relatar que havia ganhado 20 kg em apenas dois dias – um sinal claro do uso indiscriminado de anabolizantes e outras substâncias para acelerar o ganho de massa muscular.

O caso acendeu um alerta na opinião pública sobre a pressão por corpos irreais entre os jovens e os perigos do uso de hormônios sem acompanhamento médico. Apesar de o looksmaxxing ainda não estar amplamente difundido no Brasil, a tendência já preocupa pais, educadores e profissionais de saúde.

O cirurgião plástico André Maranhão ressalta que a maioria dos homens que procura cirurgia plástica no país busca resultados discretos, naturais e compatíveis com sua identidade. No entanto, o looksmaxxing representa uma inversão perigosa desse princípio.


🩺 O papel do médico: quando dizer “não” é a conduta mais ética

Diante da pressão estética crescente, os cirurgiões plásticos têm um papel fundamental: o de barreira de proteção contra procedimentos desnecessários e perigosos.

Maranhão destaca que a cirurgia plástica tem limites anatômicos e biológicos. Chega um ponto em que novas intervenções deixam de agregar benefício e passam a aumentar riscos, comprometendo a naturalidade, a função e até a segurança do paciente.

“O papel do cirurgião plástico não é apenas executar procedimentos. Temos a responsabilidade de avaliar se a cirurgia realmente trará benefício ao paciente. Quando identificamos expectativas incompatíveis com a realidade, insatisfação persistente após múltiplas cirurgias ou sinais sugestivos de transtorno dismórfico corporal, a conduta mais ética pode ser justamente não operar” , afirmou.

O transtorno dismórfico corporal (TDC) – uma condição em que a pessoa percebe defeitos inexistentes ou exagerados em sua aparência – é uma contraindicação clara para procedimentos estéticos. Pacientes com TDC tendem a nunca ficar satisfeitos e a buscar intervenções sucessivas, num ciclo vicioso que pode levar à automutilação e à depressão.


🧠 Saúde mental em primeiro lugar

O looksmaxxing não é apenas uma questão estética – é, antes de tudo, um sintoma de sofrimento psíquico. A obsessão por mudar a aparência física para atender a padrões irreais reflete uma insatisfação profunda com o próprio corpo e, muitas vezes, com a própria vida.

Especialistas recomendam que jovens que se identificam com essa busca desenfreada busquem acompanhamento psicológico para entender as motivações por trás do desejo de transformação. A terapia cognitivo-comportamental, como sugeriu o professor Andrew Thomas, pode ajudar a corrigir distorções de pensamento e a construir uma relação mais saudável com a própria imagem.

A mensagem final é clara: a beleza não é uma fórmula matemática, e não há procedimento estético que substitua a aceitação e o cuidado com a saúde mental. O caminho para o bem-estar passa por dentro, não apenas pela superfície.


🔍 Looksmaxxing e seus riscos

AspectoInformação
O que éMovimento que promete “maximizar a aparência” para atingir padrões irreais de beleza
Público-alvoAdolescentes e jovens adultos, especialmente do sexo masculino
Raízes ideológicasComunidades incel e machosfera; associa atratividade feminina exclusivamente à aparência física
SoftmaxxingMelhorias leves (cuidados com cabelo, barba, pele, exercícios, dietas)
HardmaxxingProcedimentos invasivos (cirurgias, preenchimentos, anabolizantes) e até automutilação
Caso emblemáticoInfluenciador Ronan Androgenic, expulso de voo por “aparência doentia” após múltiplas cirurgias
Caso no BrasilMorte do fisiculturista Gabriel Ganley, 22 anos, após ganho extremo de peso com anabolizantes
Riscos à saúdeComplicações cirúrgicas, infecções, reações adversas a anabolizantes, transtorno dismórfico corporal, depressão e suicídio
Papel do médicoRecusar procedimentos quando houver expectativas irreais ou sinais de transtorno psicológico
Abordagem recomendadaTerapia cognitivo-comportamental para corrigir distorções de pensamento e promover autoaceitação

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