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Mais de mil casos confirmados: contaminação alimentar é a principal suspeita para surto de hepatite A em Juiz de Fora

Em audiência na Câmara Municipal, Vigilância Epidemiológica descarta água como fonte e aponta para alimentos contaminados; cidade responde por quase 90% dos casos de Minas Gerais e registra segunda morte pela doença em 2026

A contaminação alimentar é, neste momento, a principal hipótese para explicar o maior surto de hepatite A da última década em Juiz de Fora. A informação foi declarada pelo Departamento de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde (SS) durante audiência pública realizada na Câmara Municipal na tarde de terça-feira (26).

De acordo com o levantamento mais recente da pasta, já são mais de mil casos confirmados da doença desde dezembro de 2025, com maior concentração nas regiões Central e Sul da cidade, especialmente nos bairros Centro, São Mateus e Cascatinha.

A reunião, solicitada pelo vereador Sargento Mello Casal (PL) e realizada no plenário da Câmara, teve como objetivo ampliar o diálogo entre gestores públicos, profissionais de saúde e a comunidade diante do cenário de emergência sanitária. Estiveram presentes, entre outros, a chefe do Departamento de Vigilância Epidemiológica, Louise Cândido, o diretor-presidente da Cesama, Lincoln Santos Lima, e a subsecretária de Atenção à Saúde (SSAS), Marcilene Chaves Costa.

🧪 Água descartada, alimentos no foco da investigação

Um dos pontos centrais da investigação foi a análise dos sistemas de distribuição de água. De acordo com Louise Cândido, os pontos de coleta tiveram resultados negativos para o vírus da hepatite A, descartando a água como fonte primária de contaminação. Com a água afastada, a principal linha de investigação se concentra agora na contaminação por alimentos, mecanismo clássico de transmissão da doença por via fecal-oral.

A fala da Vigilância Epidemiológica endossa a literatura médica: a transmissão do vírus da hepatite A (HAV) ocorre principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados por fezes humanas contendo o patógeno, especialmente produtos consumidos crus ou mal higienizados, como verduras, frutas e mariscos. O período de incubação varia de 15 a 50 dias.

A descoberta recoloca o foco das ações de controle na cadeia de produção e manipulação de alimentos, exigindo inspeções sanitárias mais rigorosas e intensificação das campanhas educativas sobre higienização.

📈 Cenário epidemiológico: a cidade que concentra a epidemia mineira

O avanço da doença em 2026 transformou Juiz de Fora no principal epicentro da hepatite A em Minas Gerais.

A cidade concentra quase 90% dos casos registrados em todo o estado em abril, com 176 das 197 confirmações mineiras, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG).

Em números totais, o município contabiliza 808 casos entre janeiro e abril, sendo 223 somente no último mês. A SES-MG, por sua vez, registra 685 confirmações no mesmo período, com Juiz de Fora respondendo por 70% de todos os casos estaduais.

O crescimento é tão expressivo que o total de 2026 já supera a soma de todos os casos notificados na cidade na última década (2016–2025). Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar a explosão: falhas na higienização de alimentos, vulnerabilidades no saneamento básico em algumas regiões e uma população com baixa imunidade ao vírus.

⚠️ Duas mortes já foram registradas em 2026

O surto já causou ao menos duas mortes confirmadas neste ano:

  • A primeira vítima foi a cuidadora de idosos Ângela Cristina Terra Pinto, 60 anos, moradora do bairro Santa Luzia, que faleceu em 30 de abril. Segundo sua filha, a contaminação pode ter ocorrido após a tempestade histórica que atingiu Juiz de Fora em fevereiro, quando Ângela saiu para ajudar uma amiga que estava com água até a cintura em meio à enchente. Ela teria auxiliado na limpeza de casas e contato direto com a lama.
  • A segunda vítima foi Carlos Eduardo Silva Reis, cujo laudo confirmando a causa da morte por hepatite A foi divulgado exatamente na data da audiência (26 de maio). Sua esposa, Amanda Florita, esteve presente na reunião e fez um breve depoimento emocionado: “Estou aqui para representar o meu marido que morreu… saiu hoje o resultado… pela hepatite. Eu não tenho muito o que falar.”

Os casos fatais acenderam um alerta sobre a gravidade da doença e a necessidade de diagnóstico precoce e tratamento adequado, especialmente em pacientes com comorbidades hepáticas ou imunossupressão.

📉 Tendência de queda? Prefeitura aponta desaceleração

Apesar do cenário preocupante, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) afirma que o cenário epidemiológico já aponta desaceleração da transmissão. Na comparação entre a semana epidemiológica 11 (pico do surto, com 132 casos) e a semana 18 (com 15 casos confirmados), houve uma redução de 88,6% nos novos registros.

Ainda assim, os números totais seguem elevados e sujeitos a atualização. Especialistas alertam que, embora a tendência de queda seja animadora, o risco persiste enquanto a cadeia de transmissão não for totalmente interrompida, com destaque para a necessidade de continuar as ações de investigação de alimentos suspeitos e vacinação em massa dos grupos vulneráveis.

💉 Vacinação: quem tem direito e onde se imunizar

A vacina contra a hepatite A está disponível gratuitamente no SUS para grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde. Em Juiz de Fora, têm direito ao imunizante:

  • Crianças de 15 meses a menores de 5 anos que não tenham sido vacinadas anteriormente (esquema de rotina);
  • Gestantes (em qualquer idade gestacional);
  • Pessoas com doenças hepáticas crônicas (cirrose, hepatite B ou C, entre outras);
  • Imunossuprimidos em geral (transplantados, pacientes oncológicos em quimioterapia, etc.);
  • Pessoas em uso de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao HIV;
  • Contatos domiciliares e sexuais de casos confirmados, independentemente da idade (desde que não vacinados previamente);
  • Pessoas de 11 a 39 anos que sejam contatos de casos confirmados;
  • Pessoas com condições clínicas especiais como fibrose cística, trissomias, hemoglobinopatias, candidatos a transplante, entre outras previstas pelo Ministério da Saúde.

Locais de aplicação (disponíveis em toda a rede municipal):

  • Unidades Básicas de Saúde (UBSs): de segunda a sexta-feira, a partir das 9h, e aos sábados, das 8h às 11h.
  • Serviço de Assistência Especializada (SAE) e Centro de Vigilância em Saúde (Avenida dos Andradas, 523, Morro da Glória), de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h.

A chefe do Departamento de Vigilância Epidemiológica, Louise Cândido, foi questionada na audiência pela vereadora Cida Oliveira (PT) sobre a possibilidade de ampliar a vacinação para toda a população adulta como medida emergencial. Louise respondeu que há uma discussão em andamento sobre a oferta de uma segunda dose para crianças para corrigir possíveis falhas vacinais, e que os dados do município estão sendo apresentados ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) para avaliação de novos critérios. Ela destacou, porém, que a ampliação irrestrita esbarra na disponibilidade limitada de doses: “Não estamos trabalhando com a vacinação ampliada, porque precisamos de critérios técnicos, mas também da disponibilidade do imunizante.”

🚧 Saneamento e lamento: a fala da comunidade

Durante a audiência, o morador José Walter Guimarães, representante do bairro Linhares, fez um apelo contundente às autoridades. Segundo ele, a região enfrenta problemas estruturais crônicos: vazamento de esgoto a céu aberto, córregos poluídos e ruas sujas, que criam ambiente propício para a proliferação do vírus. Ele demonstrou preocupação com a saúde da população em meio ao crescimento de casos da doença.

O relato reforça a complexidade do surto: mesmo que a água tratada esteja livre do vírus, a precariedade do saneamento básico em algumas regiões — com contato direto com esgoto e lama contaminada — continua sendo um vetor silencioso de transmissão.

⏳ O que muda agora

Com a contaminação alimentar como principal hipótese, a Vigilância Sanitária do município deve intensificar:

  • Inspeções em cozinhas industriais, restaurantes, cantinas e pontos de venda de alimentos preparados;
  • Ações educativas sobre higienização correta de frutas, verduras e legumes, consumo de água filtrada e lavagem frequente de mãos;
  • Fiscalização do transporte e armazenamento de gêneros alimentícios perecíveis;
  • Monitoramento de casos entre manipuladores de alimentos, com possível afastamento temporário de profissionais infectados.

Para a população em geral, além da vacinação dos grupos elegíveis, as principais medidas preventivas são: higienizar bem os alimentos, evitar o consumo de produtos crus de procedência duvidosa e lavar as mãos com frequência, especialmente antes das refeições e após usar o banheiro.


Surto de hepatite A em Juiz de Fora (maio/2026)

IndicadorDado
Casos confirmadosMais de 1.000 (desde dez/2025); 808 entre jan e abr (Prefeitura) / 685 (SES-MG)
Concentração estadual70% a 90% dos casos de MG, dependendo da base de dados
Bairros mais afetadosCentro, São Mateus, Cascatinha (região Central e Sul)
Mortes confirmadas em 20262 (Ângela Cristina Terra Pinto, 60 anos; Carlos Eduardo Silva Reis)
Principal hipóteseContaminação alimentar (água descartada por exames negativos)
Pico da transmissãoSemana epidemiológica 11 (132 casos)
Queda recente88,6% (15 casos na semana 18)
População elegível para vacinaCrianças 15m–5a, gestantes, hepatopatas, imunossuprimidos, PrEP, contatos, condições especiais

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