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Estudo expõe desperdício bilionário: SUS ainda prescreve drogas ineficazes contra câncer de próstata avançado

Pesquisa publicada no JCO Global Oncology analisou 38.851 pacientes atendidos na rede pública entre 2017 e 2023; 19% dos homens com doença resistente à castração receberam “terapias fúteis”, que não aumentam a sobrevida — e custaram US$ 63,3 milhões que poderiam ter sido investidos em tratamentos modernos já disponíveis no sistema

Um em cada cinco. É a proporção de pacientes com câncer de próstata avançado atendidos pelo SUS que ainda recebem medicamentos completamente ineficazes para o seu estágio da doença. São homens que, na fase mais crítica do tumor — quando ele já não responde mais à terapia hormonal padrão —, são submetidos a drogas que não aumentam em um único dia a sua sobrevida, o que os especialistas chamam de “tratamentos fúteis”.

Os números são alarmantes. Uma análise conduzida por dez pesquisadores brasileiros, publicada no prestigiado periódico JCO Global Oncology, avaliou 38.851 pacientes da rede pública com câncer de próstata avançado resistente à castração (CPRC) no período de 2017 a 2023. A conclusão: 19% desse total recebeu terapias ineficazes, incapazes de conter a progressão tumoral ou prolongar a vida. O gasto com esses medicamentos — entre eles ciclofosfamida, flutamida, vinorelbina e mitoxantrona — somou US$ 63,3 milhões em sete anos.

“Na oncologia, a diferença entre os pacientes tratados no serviço público e no privado costuma ser gritante. Nos hospitais particulares, os pacientes vivem muito mais porque têm acesso aos melhores tratamentos” , afirmou ao UOL o oncologista Fernando Sabino, do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, um dos autores do estudo.

O achado, no entanto, não era o objetivo inicial da pesquisa. O time de pesquisadores — que reúne alguns dos maiores especialistas em câncer de próstata do país — pretendia inicialmente analisar custos e propor otimizações dentro do orçamento existente. O que encontraram foi um cenário de desorganização e ausência de política nacional estruturada para a jornada do paciente na rede pública.

“Tratamentos fúteis”: o atraso de uma geração na oncologia

O câncer de próstata avançado resistente à castração é um estágio cruel. Após um período em que a terapia hormonal (castração química) consegue controlar o tumor — pois as células malignas dependem da testosterona para crescer —, chega o momento em que a doença escapa a esse controle. É nesse ponto que os tratamentos precisam ser intensificados.

Nos anos 1990 e início dos 2000, o arsenal terapêutico era limitado. Além da quimioterapia com docetaxel (a única com algum benefício modesto), restavam drogas como ciclofosfamida, flutamida, vinorelbina e mitoxantrona. Elas tinham um efeito paliativo mínimo sobre os sintomas, mas nenhum impacto demonstrado na sobrevida global de pacientes com CPRC.

“A ‘pegadinha’ é que elas baixam o PSA [antígeno prostático específico, marcador tumoral]. O médico vê o número caindo e acha que o tratamento está funcionando. Mas não está” , alerta Sabino. O PSA pode cair temporariamente, mas isso não se traduz em dias a mais de vida.

Enquanto o SUS mantinha essas opções obsoletas em seus protocolos, a oncologia mundial avançava. Em 2011, nos Estados Unidos — e, em 2013, nos hospitais privados brasileiros — surgiram medicamentos capazes de reduzir em até 25% o risco de morte de homens com câncer de próstata resistente à castração. Entre eles, a abiraterona e a enzalutamida, drogas modernas que bloqueiam a via do andrógeno por mecanismos diferentes e mais potentes do que as terapias antigas.

O paradoxo do dinheiro: há recursos, falta organização

Um dos achados mais contundentes da análise é que o problema do SUS não é, primariamente, a falta de verbas. Em sete anos, gastaram-se US$ 63,3 milhões com tratamentos fúteis que não trouxeram qualquer benefício aos pacientes. O mesmo montante, se realocado, poderia ter proporcionado acesso a terapias modernas já incorporadas ao sistema.

“A dificuldade de acesso não ocorre por falta de dinheiro, mas por desorganização e por não existir uma política nacional que defina a jornada desse indivíduo, ou seja, o que deve ser feito com ele quando alcança esse estágio do câncer” , explica Sabino.

A compra de medicamentos, detalha o oncologista, não é centralizada pelo Ministério da Saúde. O dinheiro é repassado aos estados e municípios, que são responsáveis pelas compras junto aos centros de referência em oncologia. Essa descentralização, embora tenha vantagens locais, cria um caldo de cultura para a persistência de práticas ultrapassadas: sem um protocolo nacional rígido e monitoramento centralizado, cada serviço acaba repetindo o que sempre fez.

O abismo entre a evidência e a prática no Brasil

As diretrizes internacionais mais recentes são claras. O NCCN (National Comprehensive Cancer Network), nos Estados Unidos, recomenda para pacientes com CPRC metastático a continuação da terapia de privação androgênica associada a inibidores da via do receptor de andrógeno (como abiraterona, enzalutamida, apalutamida ou darolutamida), quimioterapias mais modernas (cabazitaxel), imunoterapias, radiofármacos ou terapias-alvo. A monoterapia com drogas da geração dos anos 1990 não é mais sequer listada como opção.

A diretriz da Associação Americana de Urologia (AUA/SUO), atualizada em 2026, também recomenda a oferta de terapias combinadas e agentes modernos, como apalutamida, para pacientes com CPRC não metastático de alto risco. Nenhuma das diretrizes inclui ciclofosfamida, flutamida ou mitoxantrona como padrão no cenário de resistência à castração.

No Brasil, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) já incorporou abiraterona, apalutamida, darolutamida e enzalutamida para indicações específicas no SUS. Os medicamentos estão disponíveis — em tese. A questão é que, na prática clínica diária de muitos serviços, médicos menos atualizados ou com acesso limitado à informação seguem prescrevendo o que aprenderam há 20 anos.

“Uma coisa é falar do oncologista que está nas grandes capitais. Outra é o profissional que está lá no interior do país e que nem sabe que já existe abiraterona no SUS. Esse colega vê o PSA ser derrubado por medicamentos que são totalmente ineficazes para esse estágio e acha que está fazendo o melhor para o paciente” , lamenta Sabino.

Os medicamentos ineficazes (e os que deveriam substituí-los)

A seguir, um resumo das drogas que ainda são prescritas sem embasamento para CPRC e as alternativas modernas já disponíveis no SUS ou em fase de incorporação:

Medicamento ineficaz (CPRC)ClassePor que é obsoletoAlternativa moderna (no SUS)
CiclofosfamidaAgente alquilanteTem alguma atividade paliativa, mas sem ganho de sobrevida global. Estudos datam dos anos 1990.Abiraterona + prednisona / Enzalutamida
FlutamidaAntiandrógeno não esteroidal (1ª geração)Baixa potência, perde eficácia rapidamente (fenômeno de retirada). Efeitos adversos gastrointestinais e hepáticos relevantes.Apalutamida / Darolutamida / Enzalutamida (antiandrógenos de 2ª geração)
VinorelbinaAlcaloide da vincaResposta limitada em monoterapia. Não prolonga sobrevida global em ensaios clínicos robustos.Docetaxel (primeira linha de quimioterapia) ou cabazitaxel (pós-docetaxel)
MitoxantronaAntracenedionaDemonstrou melhora paliativa (controle da dor), mas não aumento da sobrevida. Cardiotoxicidade significativa.Radioterapia paliativa dirigida a metástases ósseas sintomáticas; radiofármacos (ex.: rádio-223)

O caminho para frente: otimizar recursos e salvar vidas

A mensagem final dos pesquisadores não é de desespero, mas de oportunidade. O estudo no JCO Global Oncology foi feito com a premissa de não se tirar uma moeda a mais dos cofres públicos, apenas de se realocar gastos do que não funciona para o que funciona.

Para isso, são necessários:

  1. Atualização imediata dos protocolos assistenciais do SUS, retirando a indicação formal de medicamentos sabidamente ineficazes para CPRC.
  2. Educação médica continuada, especialmente para oncologistas que atuam em regiões menos centrais do país, sobre as opções modernas já disponíveis na rede pública.
  3. Monitoramento centralizado das prescrições e desfechos, com indicadores que permitam identificar rapidamente serviços que estejam prescrevendo fora do padrão baseado em evidência.
  4. Transparência de custos e alocação, para que os US$ 63,3 milhões desperdiçados sejam realocados, ano a ano, em terapias que efetivamente prolongam a vida com qualidade.

“A ideia não é gastar mais recursos, mas usá-los com inteligência” , conclui Fernando Sabino.

O desperdício bilionário em tratamentos fúteis não é apenas uma afronta à racionalidade econômica. É uma tragédia humana: milhares de homens receberam, ao longo de sete anos, drogas que não poderiam salvá-los, enquanto terapias modernas — já pagas com os mesmos impostos — estavam disponíveis mas subutilizadas por falta de organização do sistema.

Está na hora de o SUS não apenas incorporar novas tecnologias, mas também abandonar velhas práticas.


🔍 Resumo do estudo e suas implicações

AspectoInformação
PeriódicoJCO Global Oncology
Período analisado2017 a 2023
Número de pacientes38.851 (SUS, com câncer de próstata avançado resistente à castração)
Proporção com tratamentos ineficazes19% (cerca de 1 em cada 5)
Medicamentos ineficazes citadosCiclofosfamida, flutamida, vinorelbina, mitoxantrona
Gasto total com tratamentos fúteisUS$ 63,3 milhões (7 anos)
Tratamentos modernos disponíveis (mas subutilizados)Abiraterona, enzalutamida, apalutamida, darolutamida, docetaxel, cabazitaxel
Principal entrave identificadoDesorganização, falta de política nacional estruturada e desatualização de protocolos, não falta de recursos.
Principal recomendaçãoRealocar gastos do ineficaz para o eficaz, investir em educação médica continuada e monitoramento centralizado das prescrições.

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