A estatística que não pode ser ignorada: 785 mil diagnósticos de hepatite em 23 anos — e milhões ainda não sabem que carregam o vírus
Mais de 300 mil casos de hepatite C e 289 mil de hepatite B foram registrados no Brasil entre 2000 e 2023, mas o número real é muito maior; transaminases normais não são atestado de saúde, e o teste sorológico deveria ser feito ao menos uma vez na vida, segundo especialistas — porque o fígado tem uma reserva funcional que esconde o estrago até ser tarde demais

Um bocado de gente anda para cima e para baixo carregando uma figurinha indesejável no fígado: um vírus de hepatite. Sem fazer a mínima ideia disso e, se duvidar, crente que está tudo em ordem porque o check-up mostrou que as enzimas hepáticas — as tais transaminases dosadas no sangue — estavam normais.
Quando se fala em “bocado de gente”, não há exagero. Entre os anos 2000 e 2023, o Brasil registrou 785.571 diagnósticos de hepatites virais. Desses, 318.916 eram hepatite C — e, uma vez acomodado, o vírus causador dessa doença não arreda o pé do fígado em oito de cada dez casos. O mesmo pode acontecer com dois em cada dez casos de hepatite B (e foram 289.029 registros dessa infecção no mesmo período).
Sem fazer barulho, esses invasores podem levar a péssimas surpresas: uma cirrose ou até mesmo um câncer. “Sem contar que a pessoa, desconhecendo sua condição, continua transmitindo o vírus para mais gente”, nota a médica patologista Paula Teixeira Vidigal, professora da Faculdade de Medicina da UFMG.
🫁 O abecedário das hepatites: A, B, C, D e E
“A hepatite é uma inflamação no fígado e um monte de coisas pode causá-la: de substâncias tóxicas a medicamentos, passando por ataques autoimunes, problemas metabólicos e vírus”, contextualiza a especialista. “Entre os vírus, existem aqueles que provocam infecções sistêmicas, que se espalham pelo corpo”, continua.
Mas há uma turma específica: os vírus hepatotrópicos, que têm uma afinidade especial com as células do fígado.
Hepatite A — Foi o primeiro a aprontar. Entre 2020 e 2023, essa infecção acometeu mais de 171 mil brasileiros que tiveram contato com fezes ou água contaminada. Conhecida como “hepatite dos viajantes”, seus sintomas incluem urina escura, fezes esbranquiçadas e olhos e pele amarelados. Geralmente, passa sozinha com repouso.
Hepatite B — Isolado em 1965, esse vírus é diferente. Sua transmissão não é fecal e sim por sexo e contato com fluidos corporais, como o sangue. “Em 20% dos infectados, o vírus da hepatite B fica cozinhando em banho-maria para sempre”. A maioria irá morrer com ele, mas não por causa dele — embora possa transmiti-lo. Em uma parcela menor, a inflamação mata os hepatócitos, que são substituídos por tecido conjuntivo (fibrose). Depois de 20 ou 30 anos, o acúmulo dessas fibroses forma a cirrose. Outra possibilidade é o câncer: a presença do vírus aumenta o risco de câncer de fígado em mais de dez vezes.
Hepatite C — Foi na década de 1970 que os médicos encontraram pacientes com uma hepatite que não era nem A nem B. O vírus da hepatite C seria isolado apenas em 1989. É um tipinho que permanece no fígado de 80% dos infectados. “Trata-se de um vírus instável. Na verdade, um retrovírus, como o HIV, com alta taxa de mutação e com vários subtipos. É por isso que, ao contrário dos vírus das hepatites A e B, para ele ainda não existe vacina”. A transmissão acontece por fluidos corporais, mas o vírus C é um pouco menos transmissível pelo sexo. O perigo está em agulhas, alicates de manicure mal higienizados — tudo que possa abrir uma brecha na pele.
Hepatite D — Existem registros de 4.525 casos de 2020 a 2023. “O primeiro não faz nada sozinho”, afirma a professora. “A pessoa precisa carregar o vírus da hepatite B ou pegar os dois vírus juntos.” O tipo D atua como comparsa, fazendo os estragos no fígado aparecerem muito mais depressa.
Hepatite E — Encontrada no Norte do país, com 1.846 casos registrados no mesmo período. Transmitida pelas fezes, se parece com o tipo A e passa sozinha.
🔇 A maioria das hepatites é assintomática — e as transaminases normais não dizem nada
A maioria das hepatites não dá sintomas. Inclusive a hepatite A, que quando dá pistas pode deixar a pessoa amarelada. Já as hepatites B e C, nem isso: provocam um leve mal-estar, embrulham o estômago, causam leseira. “A pessoa comenta que pegou uma virose qualquer”, nota Paula Vidigal. “Bem, ela está mesmo com uma virose, só que no fígado”.
O fato de ser ou não sintomática não tem relação com o risco de a infecção virar crônica. E, mesmo quando cronifica, nem sempre as transaminases aumentam para valer. É que o fígado tem uma enorme reserva funcional — pode perder uma boa parte do seu tecido sem dar sinais. É por isso que as hepatites avançam silenciosamente.
🧪 O teste que pode salvar vidas (e que você provavelmente nunca fez)
Para quebrar o silêncio, só mesmo checando se há anticorpos no sangue. Na opinião de Paula Vidigal, o teste para o vírus da hepatite B — para quem demorou para tomar a vacina — e da hepatite C deveria ser feito pelo menos uma vez na vida. “Idealmente, todo ano ou a cada dois anos, pedindo a prescrição ao médico que acompanha a sua saúde, seja ele um ginecologista, um urologista ou um cardiologista”.
No caso da hepatite B, o exame acusa se a pessoa está com o vírus ou se os anticorpos vêm de uma infecção do passado ou, ainda, da vacina. Já a presença de anticorpos para hepatite C só indica que um dia você se infectou. Para saber se o vírus continua pelo fígado, os médicos solicitam um exame de PCR, que identifica partículas virais na circulação.
💊 O tratamento mudou: cura para a hepatite C, controle para a B
Antes, quando a infecção por hepatite C era confirmada, o paciente recebia injeções de interferon — uma proteína que tinha efeitos adversos fortes e só funcionava em cerca de metade dos pacientes. Isso mudou. Hoje, prescrevem-se comprimidos antivirais, disponíveis no SUS desde 2015. Eles promovem taxas de cura superiores a 95%.
No caso da hepatite B, os remédios não matam o vírus, mas dão para controlar o seu crescimento. A ordem é acompanhar cada caso com o hepatologista — até porque, em alguns indivíduos, o vírus pode ficar quieto, sem causar maiores danos.
Mas, para isso, só tem um jeito: passar pelo teste e saber se um dia, sem que você tivesse se dado conta, um desses vírus resolveu transformar o seu fígado em endereço permanente.
🔍 O que você precisa saber sobre as hepatites virais
| Tipo | Transmissão | Crônica? | Vacina? | Tratamento |
|---|---|---|---|---|
| A | Fecal-oral (água/fezes contaminadas) | Não (passa sozinha) | Sim | Repouso e hidratação |
| B | Sexo, sangue, fluidos corporais | 20% dos casos | Sim | Antivirais (controle) |
| C | Sangue, agulhas, instrumentos contaminados | 80% dos casos | Não | Antivirais (cura >95% no SUS) |
| D | Coinfecção com HBV | Sim (se com HBV) | Sim (via HBV) | Antivirais |
| E | Fecal-oral | Não (passa sozinha) | Não | Repouso e hidratação |
Dados do Brasil (2000-2023):
- Total de diagnósticos: 785.571
- Hepatite C: 318.916
- Hepatite B: 289.029
- Hepatite A: 171 mil+ (2020-2023)
- Hepatite D: 4.525
- Hepatite E: 1.846
O que fazer:
- Faça o teste sorológico para hepatites B e C pelo menos uma vez na vida
- A vacina contra hepatite B está disponível no SUS
- O tratamento para hepatite C (antivirais) tem cura superior a 95% e está disponível no SUS