Sarampo volta com força nos EUA: em 6 meses, país já supera todos os casos de 2025; queda da vacinação expõe 44 estados ao maior surto em 35 anos
Dados da Universidade Johns Hopkins mostram 2.295 infecções em 2026, com 95% dos casos em não vacinados; cobertura infantil caiu de 95% para menos de 93%, nível abaixo do necessário para a imunidade coletiva; secretário de Saúde de Trump, Robert F. Kennedy Jr., é apontado como uma das figuras centrais por trás do movimento antivacina que levou ao ressurgimento da doença

Os Estados Unidos enfrentam o maior surto de sarampo em 35 anos. Dados divulgados nesta terça-feira (22) pela Universidade Johns Hopkins revelam que 2.295 casos da doença foram registrados no país desde o início de 2026 — um número que já supera o total de 2025 (2.289) em apenas seis meses. A epidemia, que já afetou 44 dos 50 estados americanos, é atribuída diretamente à queda da cobertura vacinal, que há anos vem se deteriorando e agora atinge um ponto crítico.
O recorde anterior datava de 1991, quando mais de 9.600 casos foram registrados antes da ampliação da vacinação provocar uma queda drástica das infecções. Nove anos depois, em 2000, o sarampo foi oficialmente declarado erradicado nos EUA. Agora, o país assiste ao ressurgimento de uma doença que já havia sido controlada — e o principal motor dessa volta é a desconfiança em relação às vacinas, alimentada por décadas de desinformação.
📊 Os números que assustam
A epidemia de 2026 não é um fenômeno isolado. Ela é o ápice de uma tendência que se arrasta há anos. Em 2025, o sarampo já havia causado três mortes, incluindo duas crianças pequenas não imunizadas. Neste ano, 95% dos casos registrados correspondem a pessoas não vacinadas ou com situação vacinal desconhecida.
A cobertura vacinal infantil, que em 2020 superava 95% — o patamar considerado necessário para garantir a proteção coletiva —, caiu para menos de 93%. A diferença pode parecer pequena, mas é decisiva: é o que separa a contenção da doença de sua disseminação descontrolada.
O sarampo não atinge apenas crianças pequenas. Elas representam menos de um quinto dos casos. Quase metade dos infectados tem entre 5 e 17 anos, e cerca de 30% são adultos. A doença, que muitos acreditavam pertencer ao passado, voltou a circular em todas as faixas etárias.
🧬 A semente da desconfiança: o estudo fraudulento de 2000
A raiz do movimento antivacina atual pode ser rastreada até um artigo publicado na revista The Lancet em 2000, que estabelecia uma ligação fraudulenta entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e o autismo. O estudo foi posteriormente retirado da publicação por fraude científica e falhas metodológicas. Mas era tarde demais.
“A difusão foi facilitada pela popularização da internet” — Anne Sénéquier, codiretora do Observatório da Saúde Global do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris)
A fake news continuou se espalhando, impulsionada por grupos e personalidades antivacina. Entre elas, uma figura central: Robert F. Kennedy Jr., atual secretário de Saúde dos Estados Unidos no governo Trump.
👤 O homem no comando da saúde americana
Kennedy Jr. fundou, em 2011, a organização Children’s Health Defense, apontada como responsável por 54% do conteúdo antivacina publicado no Facebook em 2020. Desde que foi convidado por Donald Trump para integrar o governo, o ex-advogado ambiental reformulou as estruturas federais de saúde pública.
Entre suas medidas:
- Centenas de demissões nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC)
- Reformulação do Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização, com nomeações de integrantes criticados por falta de experiência ou ceticismo em relação às vacinas
- Redução de 17 para 11 do número de vacinas recomendadas para crianças, retirando da lista imunizantes contra gripe, hepatites A e B, meningococo, bronquiolite e rotavírus
- Interrupção de investimentos em vacinas baseadas em RNA mensageiro
Em abril deste ano, Kennedy declarou diante de parlamentares: “Fizemos mais em matéria de prevenção do que qualquer outro país do mundo”. Os fatos, porém, demonstram o contrário.
🦠 O sarampo não é uma doença inofensiva
O sarampo pode provocar febre, sintomas respiratórios e erupções cutâneas, além de complicações graves como pneumonia, cegueira e encefalite. Em alguns casos, leva à morte. Antes da criação da vacina, nos anos 1960, a doença matava centenas de crianças por ano nos Estados Unidos e continua causando dezenas de milhares de mortes em todo o mundo.
O professor de epidemiologia William Moss, da Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins, resume a frustração:
“É muito frustrante. Isso mostra que não conseguimos interromper a transmissão do vírus”
🌍 A lição para o Brasil e para o mundo
O caso americano é um alerta global. A pandemia de Covid-19 amplificou a desconfiança em relação às vacinas. Segundo pesquisa da Kaiser Family Foundation realizada em 2022, 44% dos eleitores republicanos consideravam que os pais deveriam ter o direito de optar por não vacinar seus filhos — em 2019, esse percentual era de apenas 20%.
Paralelamente, a erradicação oficial do sarampo contribuiu para reduzir a percepção de risco da doença. O que muitos esqueceram é que o sarampo é a doença mais contagiosa conhecida — e a primeira a reaparecer quando a cobertura vacinal cai.
🔍 Resumo: o surto de sarampo nos EUA em números
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Casos em 2026 (até julho) | 2.295 |
| Casos em 2025 (ano inteiro) | 2.289 |
| Estados afetados | 44 de 50 |
| Mortes em 2025 | 3 (incluindo 2 crianças) |
| Casos em não vacinados | 95% |
| Cobertura vacinal infantil (2020) | >95% |
| Cobertura vacinal infantil (atual) | <93% |
| Nível necessário para imunidade coletiva | 95% |
| Crianças entre os infectados | <20% |
| Jovens (5 a 17 anos) entre os infectados | Quase 50% |
| Adultos entre os infectados | Cerca de 30% |