O veneno ou o pântano? DNA de 400 anos reabre o maior mistério da família Médici
Análise genética inédita encontrou vestígios de malária nos ossos do grão-duque Francesco I, mas não convenceu todos os especialistas; enquanto uns dizem que o caso está encerrado, outros insistem que as erupções na pele e as mãos contraídas apontam para um assassinato com arsênico

Era 1587. O grão-duque Francesco I de’ Médici e sua esposa, Bianca Cappello, morreram com poucas horas de diferença, após dias de febre e agonia. Na época, a medicina apontava para a malária – a região de Poggio a Caiano, onde o casal estava, era cheia de pântanos e arrozais, habitats perfeitos para os mosquitos transmissores da doença. Mas os Médici não eram uma família comum. Assassinatos, rivalidades e conspirações eram tão parte da dinastia quanto o mecenato às artes. E o irmão mais novo de Francesco, Ferdinando, tinha tudo a ganhar com a morte do casal: era o próximo na linha de sucessão e corria o risco de ser preterido por Antonio, o filho ilegítimo de Francesco.
A suspeita de envenenamento por arsênico pairou por mais de quatro séculos. Agora, um estudo genético conduzido pelas universidades de Pisa e Yale, publicado em junho na revista iScience, promete encerrar o debate com uma resposta que parece definitiva – mas não foi capaz de calar todas as vozes.
🧬 O veredito do DNA: malária, e não veneno
A análise de DNA antigo extraído das costelas de Francesco identificou vestígios genéticos de Plasmodium, o protozoário responsável pela malária. Não apenas uma, mas duas espécies: Plasmodium falciparum e Plasmodium malariae, sugerindo que o grão-duque pode ter sido vítima de uma infecção dupla.
“O DNA é conclusivo. Isso resolve a questão e dissipa quaisquer dúvidas. Acredito que seja uma resposta definitiva” , afirmou Valentina Giuffra, professora de história da medicina na Universidade de Pisa e coautora do estudo.
Os pesquisadores também analisaram os restos do cardeal Giovanni de’ Médici, irmão mais novo de Francesco, que havia morrido 25 anos antes, também após uma viagem a áreas da Toscana conhecidas pela presença da doença. A malária foi detectada em sua amostra, sob uma cepa até então desconhecida. O padrão se repetia: membros da família viajavam para regiões pantanosas no outono – estação particularmente propícia à doença – e, poucos dias depois, começavam a apresentar febre intermitente.
⚖️ A outra versão: por que o veneno ainda não foi descartado
O estudo, no entanto, não convenceu todos os especialistas. Donatella Lippi, professora de história da medicina na Universidade de Florença e coautora do estudo de 2006 que defendia a tese do envenenamento, mantém sua posição.
“Contrair malária não significa morrer em decorrência dela” , escreveu Lippi, que não participou da nova pesquisa. Ela aponta que registros do Vaticano mencionam erupções cutâneas, febre e inchaço – todos sintomas de intoxicação aguda por arsênico. E acrescenta um dado macabro: quando o túmulo de Francesco foi aberto 300 anos após sua morte, suas mãos estavam contraídas, como se ele estivesse em meio a uma agonia, e o corpo estava bem preservado – o arsênico, segundo ela, poderia explicar ambas as coisas.
Giuffra rebate: as conclusões de Lippi não se baseiam nos ossos exumados do túmulo, mas em tecido biológico encontrado em outro local, onde alguns órgãos do grão-duque teriam sido depositados após a autópsia. E acrescenta que Francesco era um alquimista que realizava experimentos com substâncias químicas – o que poderia explicar as erupções cutâneas sem recorrer à hipótese de assassinato.
🩸 O desafio da ciência diante da história
Mesmo os autores do estudo admitem que a genética não pode provar a ausência de veneno. Gisella Caccone, pesquisadora principal em Yale, foi direta:
“Podemos dizer que eles tiveram malária; não podemos dizer que também não foram envenenados” .
Alexander Ochoa, autor principal do estudo, reconhece que as evidências genéticas “restringem o campo para especulações”, mas não as eliminam completamente.
David Caramelli, professor de antropologia da Universidade de Florença, que não participou do estudo, resume o dilema:
“A presença de DNA do patógeno não equivale necessariamente à comprovação da causa da morte. As evidências genéticas devem sempre ser interpretadas em conjunto com dados históricos, arqueológicos e patológicos” .
Ainda assim, ele reconhece que a nova pesquisa representa um “avanço significativo” e demonstra como a paleogenômica pode contribuir para abordar questões históricas de longa data.
🏛️ O que fica do mistério
A malária é uma das grandes assassinas históricas da humanidade – matou 610 mil pessoas só em 2024. O próprio nome da doença vem do italiano medieval mal aria, “mau ar”, por causa da crença de que ela era contraída ao respirar ar próximo a pântanos.
Os médicos da corte tentaram dissuadir alguns membros da família Médici de viajar para essas regiões, especialmente no outono. Não foram ouvidos. O resultado foi uma sucessão de mortes que, por quatro séculos, alimentaram teorias de conspiração.
O novo estudo não enterra de vez a hipótese do envenenamento – e talvez nunca enterre. Mas oferece uma resposta que a ciência de 1587 não poderia dar: a de que Francesco I de’ Médici, o grão-duque que governou Florença e a Toscana, tinha malária no sangue. Se o veneno veio depois, é uma pergunta que a genética, sozinha, não pode responder.
🔍 As duas faces do mistério Médici
| Aspecto | Hipótese da malária | Hipótese do envenenamento |
|---|---|---|
| Principal evidência | DNA de Plasmodium (duas espécies) nas costelas de Francesco | Erupções cutâneas, febre e inchaço descritos em registros do Vaticano |
| Apoio histórico | Sintomas compatíveis com malária; viagem a região pantanosa no outono | Mãos contraídas e corpo bem preservado 300 anos após a morte |
| Quem defende | Valentina Giuffra (Pisa), Alexander Ochoa e Gisella Caccone (Yale) | Donatella Lippi (Florença) – autora do estudo de 2006 que apontava arsênico |
| Limitação | DNA não prova que a malária foi a causa da morte | Análise baseada em tecido de órgãos, não nos ossos exumados |
| Veredito dos autores | “O DNA é conclusivo” | “Não podemos dizer que também não foram envenenados” |