Demência não é destino: OMS atualiza diretrizes e afirma que 45% dos casos podem ser prevenidos com mudanças no estilo de vida
Novas recomendações da agência da ONU incluem pela primeira vez o uso de aparelhos auditivos e desaconselham suplementos como vitaminas B e E; evidências mostram que fatores como isolamento social, poluição e doenças crônicas são tão ou mais determinantes que a genética

Não há cura para a demência. Mas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há um caminho claro para evitar que ela se manifeste — ou, pelo menos, para adiar seu aparecimento por anos. Em suas diretrizes atualizadas sobre prevenção da doença, publicadas nesta quinta-feira (16), a agência da ONU reforça que 45% do risco de demência pode ser evitado com ajustes no estilo de vida. A mensagem é direta: o que você faz hoje — e o que a sociedade oferece a você — importa tanto quanto sua herança genética.
Com mais de 57 milhões de pessoas vivendo com demência no mundo e um impacto econômico global estimado em US$ 1,3 trilhão por ano — metade desse valor representando cuidados não remunerados prestados por familiares e amigos —, a OMS decidiu que era hora de transformar o conhecimento acumulado em ação concreta.
🧠 O que mudou nas diretrizes da OMS
A atualização, que revisa as recomendações de 2019, chega em um momento em que a base de evidências científicas sobre a demência “cresceu significativamente”. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que as novas diretrizes “traduzem esse conhecimento em ação” e oferecem aos países “recomendações claras e baseadas em evidências que podem ser colocadas em prática imediatamente”.
Entre as principais novidades, estão:
1. Aparelhos auditivos entram na lista de prevenção
Pela primeira vez, a OMS recomenda o uso de aparelhos auditivos como medida para reduzir o risco de demência. A justificativa é clara: a perda auditiva é um dos fatores de risco sobre os quais é possível agir de forma prática e imediata. “É fácil de detectar, e os aparelhos auditivos são consagrados, reversíveis e de baixo risco”, afirma a neurocientista Carolina Ferreira-Atuesta, doutoranda no Hospital Universitário de Zurique.
Estudos recentes reforçam essa recomendação. Em um trabalho apresentado no Congresso da Academia Europeia de Neurologia, a pesquisadora mostrou que o uso de aparelhos auditivos está associado a um risco 23% menor de demência em pessoas com epilepsia e perda auditiva.
2. Suplementos: não tome por conta própria
Embora algumas pesquisas sugiram que certos suplementos possam ajudar a prevenir a demência, a OMS foi categórica: vitaminas B e E, ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 e multivitaminas não devem ser usados com essa finalidade sem recomendação médica. A razão? Faltam evidências robustas de que os benefícios superem os riscos.
3. Estimulação cognitiva e interação social
A diretriz reforça a importância de atividades que exercitam o cérebro — como leitura, jogos, contação de histórias e atividades em grupo. A neurocientista Carol Garrafa, CEO da consultoria Santé, explica o mecanismo: “A ausência de interação real atrofia conexões neurais e está diretamente associada ao declínio cognitivo. Já a interação social e conversas prazerosas são fatores que beneficiam diretamente o desempenho cognitivo e a linguagem, e há sólidos indícios que funcionam como uma barreira preventiva contra o Alzheimer”.
4. Poluição do ar: um fator de risco ambiental
A OMS também incluiu a redução da exposição à poluição atmosférica, especialmente ao material particulado fino (PM2.5), como uma medida que pode diminuir o risco de declínio cognitivo.
5. Terapia hormonal na menopausa: sem indicação para prevenção
Para mulheres com 65 anos ou mais, a reposição hormonal não deve ser usada com o objetivo de prevenir demência. Para mulheres abaixo dessa faixa etária, as evidências ainda são insuficientes para recomendar ou contraindicar seu uso com essa finalidade.
6. Programas multidomínio: a abordagem mais robusta
Entre todas as recomendações, a OMS destaca os programas personalizados que combinam exercício, alimentação saudável, controle de fatores cardiovasculares, estímulo cognitivo e participação social como uma das medidas com evidência mais sólida.
🩺 Os fatores de risco que podem ser controlados
As novas diretrizes da OMS não se limitam a recomendações individuais. Elas apontam para um conjunto de fatores de risco modificáveis que, se atacados ao longo da vida, podem reduzir significativamente a incidência da doença:
| Categoria | Fatores de risco |
|---|---|
| Hábitos de vida | Tabagismo, consumo excessivo de álcool, inatividade física |
| Doenças crônicas | Diabetes, hipertensão arterial |
| Fatores sociais | Isolamento social, falta de estimulação cognitiva |
| Fatores ambientais | Poluição do ar (especialmente PM2.5) |
| Condições sensoriais | Perda auditiva não tratada |
💬 O que os especialistas dizem
A neurocientista Carol Garrafa resume o espírito das novas diretrizes: o cérebro é um órgão social. “A ausência de interação real atrofia conexões neurais”. Já a interação social e conversas prazerosas funcionam como uma barreira preventiva contra o Alzheimer.
A mensagem da OMS é clara: a demência não é uma sentença inevitável do envelhecimento. É, em grande medida, uma doença que reflete escolhas — individuais e coletivas. E as ferramentas para agir já estão disponíveis. Resta usá-las.
🔍 O que a OMS recomenda para prevenir a demência
| Recomendação | O que diz a diretriz |
|---|---|
| Aparelhos auditivos | Oferecer para reduzir risco — perda auditiva é fator modificável e fácil de tratar |
| Suplementos | Evitar vitaminas B, E, ômega-3 e multivitaminas sem prescrição médica |
| Estimulação cognitiva | Incentivar leitura, jogos, contação de histórias e atividades em grupo |
| Interação social | Fundamental para manter conexões neurais e prevenir declínio cognitivo |
| Poluição do ar | Reduzir exposição a material particulado fino (PM2.5) |
| Terapia hormonal | Não indicada para prevenção em mulheres ≥ 65 anos; evidência insuficiente abaixo dessa idade |
| Programas multidomínio | Combinação de exercício, dieta, controle cardiovascular, estímulo cognitivo e social — evidência mais robusta |
| Fatores de risco controláveis | Tabagismo, álcool, inatividade física, diabetes, hipertensão, isolamento social |