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domingo, 1 de novembro de 2026
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Demência não é destino: OMS atualiza diretrizes e afirma que 45% dos casos podem ser prevenidos com mudanças no estilo de vida

Demência não é destino: OMS atualiza diretrizes e afirma que 45% dos casos podem ser prevenidos com mudanças no estilo de vida

Novas recomendações da agência da ONU incluem pela primeira vez o uso de aparelhos auditivos e desaconselham suplementos como vitaminas B e E; evidências mostram que fatores como isolamento social, poluição e doenças crônicas são tão ou mais determinantes que a genética

Não há cura para a demência. Mas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há um caminho claro para evitar que ela se manifeste — ou, pelo menos, para adiar seu aparecimento por anos. Em suas diretrizes atualizadas sobre prevenção da doença, publicadas nesta quinta-feira (16), a agência da ONU reforça que 45% do risco de demência pode ser evitado com ajustes no estilo de vida. A mensagem é direta: o que você faz hoje — e o que a sociedade oferece a você — importa tanto quanto sua herança genética.

Com mais de 57 milhões de pessoas vivendo com demência no mundo e um impacto econômico global estimado em US$ 1,3 trilhão por ano — metade desse valor representando cuidados não remunerados prestados por familiares e amigos —, a OMS decidiu que era hora de transformar o conhecimento acumulado em ação concreta.


🧠 O que mudou nas diretrizes da OMS

A atualização, que revisa as recomendações de 2019, chega em um momento em que a base de evidências científicas sobre a demência “cresceu significativamente”. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que as novas diretrizes “traduzem esse conhecimento em ação” e oferecem aos países “recomendações claras e baseadas em evidências que podem ser colocadas em prática imediatamente”.

Entre as principais novidades, estão:

1. Aparelhos auditivos entram na lista de prevenção
Pela primeira vez, a OMS recomenda o uso de aparelhos auditivos como medida para reduzir o risco de demência. A justificativa é clara: a perda auditiva é um dos fatores de risco sobre os quais é possível agir de forma prática e imediata. “É fácil de detectar, e os aparelhos auditivos são consagrados, reversíveis e de baixo risco”, afirma a neurocientista Carolina Ferreira-Atuesta, doutoranda no Hospital Universitário de Zurique.

Estudos recentes reforçam essa recomendação. Em um trabalho apresentado no Congresso da Academia Europeia de Neurologia, a pesquisadora mostrou que o uso de aparelhos auditivos está associado a um risco 23% menor de demência em pessoas com epilepsia e perda auditiva.

2. Suplementos: não tome por conta própria
Embora algumas pesquisas sugiram que certos suplementos possam ajudar a prevenir a demência, a OMS foi categórica: vitaminas B e E, ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 e multivitaminas não devem ser usados com essa finalidade sem recomendação médica. A razão? Faltam evidências robustas de que os benefícios superem os riscos.

3. Estimulação cognitiva e interação social
A diretriz reforça a importância de atividades que exercitam o cérebro — como leitura, jogos, contação de histórias e atividades em grupo. A neurocientista Carol Garrafa, CEO da consultoria Santé, explica o mecanismo: “A ausência de interação real atrofia conexões neurais e está diretamente associada ao declínio cognitivo. Já a interação social e conversas prazerosas são fatores que beneficiam diretamente o desempenho cognitivo e a linguagem, e há sólidos indícios que funcionam como uma barreira preventiva contra o Alzheimer”.

4. Poluição do ar: um fator de risco ambiental
A OMS também incluiu a redução da exposição à poluição atmosférica, especialmente ao material particulado fino (PM2.5), como uma medida que pode diminuir o risco de declínio cognitivo.

5. Terapia hormonal na menopausa: sem indicação para prevenção
Para mulheres com 65 anos ou mais, a reposição hormonal não deve ser usada com o objetivo de prevenir demência. Para mulheres abaixo dessa faixa etária, as evidências ainda são insuficientes para recomendar ou contraindicar seu uso com essa finalidade.

6. Programas multidomínio: a abordagem mais robusta
Entre todas as recomendações, a OMS destaca os programas personalizados que combinam exercício, alimentação saudável, controle de fatores cardiovasculares, estímulo cognitivo e participação social como uma das medidas com evidência mais sólida.


🩺 Os fatores de risco que podem ser controlados

As novas diretrizes da OMS não se limitam a recomendações individuais. Elas apontam para um conjunto de fatores de risco modificáveis que, se atacados ao longo da vida, podem reduzir significativamente a incidência da doença:

CategoriaFatores de risco
Hábitos de vidaTabagismo, consumo excessivo de álcool, inatividade física
Doenças crônicasDiabetes, hipertensão arterial
Fatores sociaisIsolamento social, falta de estimulação cognitiva
Fatores ambientaisPoluição do ar (especialmente PM2.5)
Condições sensoriaisPerda auditiva não tratada

💬 O que os especialistas dizem

A neurocientista Carol Garrafa resume o espírito das novas diretrizes: o cérebro é um órgão social. “A ausência de interação real atrofia conexões neurais”. Já a interação social e conversas prazerosas funcionam como uma barreira preventiva contra o Alzheimer.

A mensagem da OMS é clara: a demência não é uma sentença inevitável do envelhecimento. É, em grande medida, uma doença que reflete escolhas — individuais e coletivas. E as ferramentas para agir já estão disponíveis. Resta usá-las.

🔍 O que a OMS recomenda para prevenir a demência

RecomendaçãoO que diz a diretriz
Aparelhos auditivosOferecer para reduzir risco — perda auditiva é fator modificável e fácil de tratar
SuplementosEvitar vitaminas B, E, ômega-3 e multivitaminas sem prescrição médica
Estimulação cognitivaIncentivar leitura, jogos, contação de histórias e atividades em grupo
Interação socialFundamental para manter conexões neurais e prevenir declínio cognitivo
Poluição do arReduzir exposição a material particulado fino (PM2.5)
Terapia hormonalNão indicada para prevenção em mulheres ≥ 65 anos; evidência insuficiente abaixo dessa idade
Programas multidomínioCombinação de exercício, dieta, controle cardiovascular, estímulo cognitivo e social — evidência mais robusta
Fatores de risco controláveisTabagismo, álcool, inatividade física, diabetes, hipertensão, isolamento social