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domingo, 1 de novembro de 2026
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O colesterol que a estatina não toca: Lp(a), o fator genético silencioso que pode triplicar o risco de infarto

O colesterol que a estatina não toca: Lp(a), o fator genético silencioso que pode triplicar o risco de infarto

Lipoproteína(a) é determinada quase que inteiramente pela herança familiar e não responde a dieta ou exercício; nova diretriz americana recomenda dosagem única para todos os adultos, e os primeiros medicamentos específicos — como o pelacarseno — podem ter seus resultados divulgados ainda este ano

Existe um tipo de colesterol que escapa às principais armas da cardiologia moderna. Não se altera com dieta, não responde à prática de exercícios e, o que é mais surpreendente, as estatinas — os medicamentos mais prescritos para baixar o colesterol “ruim” — praticamente não o afetam. É a lipoproteína(a), ou Lp(a), uma fração lipídica determinada quase inteiramente pela genética.

Estima-se que uma em cada cinco pessoas tenha níveis elevados dessa substância — na maioria das vezes, sem saber. E quando esses níveis estão acima de cerca de 50 mg/dL, o risco de infarto pode ser até três vezes maior.


🧬 Um colesterol que se herda, não se escolhe

Ao contrário do LDL, que oscila conforme alimentação, peso e uso de medicamentos, a lipoproteína(a) é definida sobretudo pela herança familiar. Cerca de 90% do valor de cada pessoa vem da genética.

“A lipoproteína(a) é determinada principalmente pela genética, e não é algo que se corrija com dieta. A pessoa nasce com uma tendência a tê-la mais alta ou mais baixa” , afirma o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Essa origem genética a torna, ao mesmo tempo, importante e difícil de enfrentar: dieta, exercício e estatinas — os três pilares do controle do colesterol — praticamente não a alteram.


📊 O risco real: infarto, AVC e calcificação da válvula

O interesse pela lipoproteína(a) cresceu à medida que estudos observacionais associaram seus níveis elevados a desfechos graves. Valores acima de cerca de 50 mg/dL — o equivalente ao quartil mais alto da população — relacionam-se a um risco cerca de três vezes maior de infarto.

A fração também favorece a calcificação da válvula aórtica, um problema comum em idosos. E, por atuar de forma independente do LDL, a lipoproteína(a) funciona como um marcador adicional: duas pessoas com o mesmo colesterol “ruim” podem ter riscos cardiovasculares diferentes a depender desse valor.


🔬 Por que quase ninguém dosou (até agora)

Durante anos, medir a lipoproteína(a) fazia pouca diferença prática: não havia tratamento específico, e o resultado raramente mudava a conduta. Esse cenário começou a mudar.

A diretriz de dislipidemia publicada em março de 2026 pelo American College of Cardiology e pela American Heart Association passou a recomendar a dosagem da lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida para todos os adultos.

Trata-se de um exame de sangue simples, feito uma única vez, já que o valor tende a permanecer estável ao longo da vida.

“A recomendação hoje é que cada pessoa dose a lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida, para conhecer o próprio risco cardiovascular” , afirma Mattar.

Descobrir uma lipoproteína(a) alta não significa, por ora, iniciar um remédio para baixá-la — mas serve de alerta para controlar com mais rigor tudo aquilo que se consegue mudar.

“Quem tem a lipoproteína(a) elevada precisa se cuidar mais: manter o LDL baixo, os triglicérides controlados, a pressão e a glicemia em ordem, além de atividade física e alimentação equilibrada” , orienta o cardiologista.


💊 Os primeiros remédios: a promessa do pelacarseno

A lacuna terapêutica pode estar perto do fim. Diversas empresas testam substâncias voltadas a reduzir a lipoproteína(a), e a mais avançada é o pelacarseno, da Novartis — uma injeção mensal que, em estudos iniciais, reduziu a fração em torno de 80%.

O medicamento é o foco do estudo Horizon, o primeiro grande ensaio a investigar se baixar a lipoproteína(a) de fato diminui infartos e AVCs — com mais de 8 mil pacientes acompanhados por anos. Os resultados são esperados ao longo de 2026, com apresentações aguardadas no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) , marcado para o fim de agosto, em Munique. Outras terapias, incluindo uma versão em comprimido, também estão em teste.

Mattar faz, porém, uma ressalva que separa a promessa da comprovação: reduzir a lipoproteína(a) ainda não é o mesmo que reduzir eventos.

“Provavelmente baixar a lipoproteína(a) trará benefício, mas ainda não temos estudos que confirmem isso. Pesquisas capazes de mostrar redução de infartos e AVCs precisam de mais de cinco anos de acompanhamento” , explica.

É essa lacuna que os estudos das próximas semanas começam a preencher: mostrar não apenas o quanto os novos remédios derrubam a lipoproteína(a), mas se essa queda se traduz em menos infartos.


🧭 O que fazer agora?

Por enquanto, a lipoproteína(a) é um número que vale a pena conhecer mesmo sem um remédio para mudá-lo — porque indica o quanto é preciso proteger todo o resto. E, em questão de meses, a medicina pode descobrir se um novo capítulo no controle do risco cardiovascular está prestes a começar.

🔍 Lipoproteína(a) — o que você precisa saber

AspectoInformação
O que éLipoproteína(a) — uma fração do colesterol determinada geneticamente
PrevalênciaCerca de 1 em cada 5 pessoas tem níveis elevados
Fator genético90% do valor vem da genética; não responde a dieta ou exercício
RiscoValores > 50 mg/dL triplicam o risco de infarto
Efeito das estatinasPraticamente não alteram a Lp(a)
Quando dosarRecomendação: pelo menos uma vez na vida para todos os adultos
ExameExame de sangue simples, feito uma única vez
Tratamento atualControle rigoroso de LDL, triglicérides, pressão e glicemia
Promessa terapêuticaPelacarseno (injeção mensal) — redução de ~80% em estudos iniciais
Próximos passosResultados do estudo Horizon aguardados para o fim de agosto de 2026