Urologia aos 12, próstata aos 45: o roteiro que todo homem deveria seguir para envelhecer com saúde
No Dia do Homem, especialistas afirmam que a resistência masculina em buscar atendimento médico está ligada a fatores culturais, e não à falta de informação; saber quais profissionais procurar em cada fase da vida é o primeiro passo para prevenir doenças silenciosas e reduzir complicações

A saúde masculina ainda é um campo minado por tabus. Muitos homens só procuram um médico quando a dor já é insuportável ou o problema já está avançado. Celebrado nesta quarta-feira (15), o Dia do Homem serve justamente para virar essa chave: não se trata apenas de tratar doenças, mas de preveni-las antes que elas apareçam.
Especialistas ouvidos pela reportagem são categóricos: saber quais médicos procurar em cada fase da vida é um dos caminhos mais eficazes para identificar doenças precocemente e reduzir o risco de complicações. E o acompanhamento, segundo eles, deve começar muito antes do que a maioria imagina.
😷 O peso da cultura: por que o homem demora para ir ao médico
A resistência masculina em buscar atendimento médico não é falta de informação — é cultural. A psicóloga Priscila Maria Gabos, do Hospital Samaritano Higienópolis, explica que muitos homens foram educados para acreditar que precisam suportar a dor e resolver os problemas sozinhos.
“Os modelos tradicionais de masculinidade podem criar uma falsa associação entre vulnerabilidade e fraqueza” , afirma.
O resultado é um atraso que pode custar caro: sintomas físicos e emocionais são minimizados, diagnósticos são postergados e as chances de prevenção se reduzem. Para a psicóloga, reconhecer limites, expressar emoções e procurar apoio são habilidades ligadas ao autocuidado e à maturidade emocional.
“Quanto mais naturalizarmos a busca por ajuda e os cuidados preventivos, maior tende a ser a adesão dos homens e melhores serão as chances de uma vida mais longa e saudável” , diz.
👶 Infância: o pediatra como porta de entrada
O cuidado com a saúde masculina começa muito cedo. Na infância, o pediatra é o profissional de referência. Além de monitorar crescimento e desenvolvimento, essa fase exige atenção a aspectos como:
- Higiene e saúde bucal
- Desenvolvimento motor e emocional
- Maturação sexual e vacinação
Algumas condições, como fimose e problemas relacionados aos testículos, exigem intervenção precoce. O médico de família também começa a exercer um papel importante desde a infância.
🧑🎓 Adolescência: a chegada do urologista
É na adolescência que muitos homens têm seu primeiro contato com o urologista — e, segundo especialistas, isso deve acontecer entre 12 e 18 anos.
“Nessa fase, o urologista pode orientar sobre ISTs, higiene, sexualidade e autocuidado, além de avaliar o desenvolvimento puberal” , afirma o urologista Ricardo Ferro, coordenador da Urologia do Hospital Brasília.
A visita nessa idade não é apenas para tratar problemas, mas para educar e prevenir.
🧑💻 Dos 20 aos 39 anos: o médico de família como central
Na vida adulta jovem, o médico de família segue como o principal referencial para os cuidados preventivos. Ele monitora vacinação, risco de obesidade, hipertensão, diabetes e ISTs.
“Nessa fase, um dos principais cuidados é manter a vacinação em dia. Na infância, esse acompanhamento costuma ser feito pelos pais, mas, na adolescência e na vida adulta, muitas pessoas deixam de conferir se o esquema vacinal continua atualizado” , alerta a médica de família Rosana Castello Branco.
O urologista também ganha mais importância nesse período, especialmente para o diagnóstico de varicocele — principal causa de infertilidade masculina — e de câncer de testículo, cuja incidência é maior entre homens jovens.
🧔 Dos 40 aos 60 anos: o cerco às doenças silenciosas
A partir dos 40 anos, o foco se amplia. Aumentam os cuidados com doenças cardiovasculares, diabetes, alterações do colesterol e alguns tipos de câncer. O acompanhamento segue individualizado, com possível encaminhamento para cardiologistas e endocrinologistas, conforme o histórico e os fatores de risco de cada paciente.
É também a partir dos 45 anos que se inicia a discussão sobre a avaliação para o câncer de próstata. A doença é silenciosa e não apresenta sintomas na fase inicial.
“Por isso a importância de uma vigilância constante desde essa fase” , reforça Ferro.
O momento certo para começar:
- Homens sem fatores de risco: a conversa deve começar por volta dos 50 anos.
- Homens com histórico familiar (pai ou irmãos com câncer de próstata), homens negros ou obesos — que apresentam maior risco de desenvolver formas mais agressivas da doença —: a partir dos 45 anos.
“A avaliação combina o exame de toque retal, que analisa a consistência e o formato da próstata, e o exame de sangue PSA. Os dois são complementares. Um não substitui o outro” , afirma Ferro.
👴 A partir dos 60 anos: manter a autonomia e prevenir quedas
Depois dos 60 anos, o médico de família continua coordenando o acompanhamento, mas a atenção se volta para:
- Prevenção de quedas
- Preservação da autonomia
- Saúde cognitiva, auditiva e visual
- Revisão de medicamentos e estado nutricional
“A perda de massa muscular pode comprometer a funcionalidade” , alerta Branco.
Quando necessário, o paciente é encaminhado a especialistas de acordo com suas necessidades.
🧭 O roteiro que todo homem deveria seguir
| Fase da vida | Médico(s) de referência | Principais cuidados |
|---|---|---|
| Infância | Pediatra / Médico de família | Crescimento, desenvolvimento, vacinação, fimose, problemas testiculares |
| Adolescência (12 a 18 anos) | Urologista | ISTs, sexualidade, higiene, desenvolvimento puberal |
| 20 a 39 anos | Médico de família / Urologista | Vacinação, obesidade, hipertensão, diabetes, varicocele, câncer de testículo |
| 40 a 45 anos | Médico de família + especialistas (cardiologista, endocrinologista) | Doenças cardiovasculares, diabetes, colesterol |
| 45 a 50 anos | Urologista | Avaliação para câncer de próstata (toque + PSA) |
| 60 anos ou mais | Médico de família + especialistas conforme necessidade | Prevenção de quedas, saúde cognitiva, revisão de medicamentos, massa muscular |
💬 O veredito: saúde é um ciclo que começa cedo
A mensagem final dos especialistas é clara: a saúde masculina não pode ser tratada como um assunto de emergência. Ela exige acompanhamento contínuo, prevenção e uma mudança cultural que desassocie o autocuidado da fraqueza.
“Saúde não é apenas a ausência de doença, mas envolve bem-estar físico, emocional e social” , resume a psicóloga Priscila Gabos.
O roteiro está traçado. O primeiro passo, porém, ainda é o mais difícil: reconhecer que cuidar de si mesmo não é um sinal de fragilidade — é um ato de coragem.