Estudo com quase 100 mil participantes expõe os limites das canetas emagrecedoras: sem mudança de hábitos, os riscos superam os benefícios
Revisão publicada no The BMJ com 262 ensaios clínicos mostra que, embora promovam perda de peso significativa, a maioria dos medicamentos para obesidade não melhora a qualidade de vida de forma robusta e os efeitos colaterais aumentam na mesma proporção da perda de peso; especialistas defendem abordagem individualizada e alertam: “a caneta não faz milagre sozinha”

O que acontece quando a promessa de emagrecimento rápido das “canetas emagrecedoras” não vem acompanhada de reeducação alimentar e atividade física? Uma resposta contundente acaba de ser publicada na revista The BMJ: os benefícios são limitados, e os riscos, proporcionais à perda de peso.
Uma revisão sistemática liderada por pesquisadores da Universidade de Sichuan, na China, analisou 262 ensaios clínicos envolvendo 99.791 participantes com idade média de 49 anos e IMC médio de 35. O trabalho, publicado na última quarta-feira (8), avaliou 19 medicamentos para obesidade e concluiu que a maioria deles não demonstra melhorias robustas na qualidade de vida após um ano de uso, especialmente quando não associados a mudanças no estilo de vida.
🔄 A relação inversa: quanto mais peso se perde, mais efeitos colaterais aparecem
Um dos achados mais relevantes do estudo é a relação inversa clara entre benefícios e malefícios: quanto maior a perda de peso, maiores as taxas de efeitos colaterais e de interrupção do tratamento.
Os benefícios observados incluíram alterações no peso corporal e na massa gorda. Mas os malefícios, segundo os pesquisadores, foram igualmente expressivos: perda de massa muscular, eventos adversos gastrointestinais, distúrbios na vesícula biliar e fadiga. Entre os sintomas mais comuns estão desconfortos estomacais e intestinais, que levam muitos pacientes a abandonar o tratamento antes de atingir os objetivos.
“Uma maior perda de peso costuma ser acompanhada por prejuízos mais relevantes à saúde” , afirmam os autores.
📊 O ranking da perda de peso: tirzepatida lidera, mas com custos
Comparando os medicamentos apenas com mudanças no estilo de vida, a tirzepatida (Mounjaro) apareceu no topo da lista, com 14,9% de perda de peso após um ano, seguida de perto pelo CagriSema (14,8%) . Em seguida vieram:
| Medicamento | Perda de peso após 1 ano |
|---|---|
| Tirzepatida | 14,9% |
| CagriSema | 14,8% |
| Semaglutida oral | 10,9% |
| Orforglipron | 9,9% |
| Semaglutida subcutânea | 9,8% |
| Fentermina-topiramato | 8,1% |
No entanto, a tirzepatida, embora tenha reduzido a gordura em maior grau, também provocou diminuição significativa da massa muscular. A semaglutida subcutânea foi o único medicamento associado à redução do risco de morte por qualquer causa (19%), infarto (28%) e insuficiência cardíaca (57%). Nenhum dos fármacos, porém, demonstrou atuação convincente contra a insuficiência renal ou melhorias importantes na qualidade de vida dos pacientes.
⚠️ Perder músculo, mas não força: o que dizem os especialistas
O cardiologista Luiz Sérgio Carvalho, professor de medicina da Universidade Católica de Brasília (UCB), faz uma ressalva importante: perder massa muscular não significa, necessariamente, perder força.
“É claro que aqui também existem algumas questões do ponto de vista técnico, pois massa muscular não é força muscular. Tem uma porção de estudos que estudaram esse parâmetro também. A pessoa perde músculos, mas sem prejudicar a força em geral.”
Mesmo assim, ele reforça que a melhor estratégia para minimizar os riscos é associar o uso da medicação a dieta adequada e exercícios físicos.
O endocrinologista Rafael Suhett, especialista em emagrecimento, defende uma abordagem individualizada:
“A escolha do tratamento deve considerar o perfil clínico do paciente, suas comorbidades, histórico médico e objetivos. Além disso, é fundamental associar o uso de medicamentos a uma alimentação adequada, com ingestão suficiente de proteínas, prática regular de exercícios físicos, especialmente musculação ou treinamento de resistência, e acompanhamento multiprofissional.”
❤️ O benefício que vai além da balança: proteção cardiovascular
Apesar das limitações, Suhett destaca que alguns medicamentos oferecem benefícios que vão além da redução do peso:
“Hoje sabemos que alguns medicamentos para obesidade oferecem benefícios que vão além da redução do peso, incluindo diminuição do risco cardiovascular em pacientes selecionados. Esses dados são extremamente relevantes porque a obesidade está diretamente associada ao aumento das chances de infarto, acidente vascular cerebral e outras doenças cardiovasculares.”
O fator cardiovascular, segundo ele, deve ser considerado na tomada de decisão, especialmente em pacientes com maior risco cardiometabólico.
🧪 O que falta saber: segurança a longo prazo ainda é incerta
Os próprios pesquisadores reconhecem que a maioria dos ensaios clínicos analisados teve período de acompanhamento relativamente curto (de 12 a 172 semanas, ou seja, até pouco mais de três anos), o que limita as conclusões sobre a segurança a longo prazo, a qualidade de vida e os efeitos na saúde cardiovascular e renal.
O estudo, no entanto, é considerado um passo importante para fornecer informações comparativas que possam orientar as discussões entre pacientes e médicos sobre medicamentos para obesidade.
“As decisões de tratamento para a obesidade devem ser individualizadas, equilibrando os benefícios esperados, os danos, o ônus do tratamento, os custos, a disponibilidade e as preferências do paciente.”
Estudos futuros, sugerem os autores, devem incorporar características individuais e resultados a longo prazo, como mortalidade, para fornecer dados adicionais que orientem decisões individualizadas.
📝 O veredito: a caneta é uma ferramenta, não uma solução mágica
O estudo publicado no The BMJ reforça uma mensagem que especialistas repetem há tempos: as canetas emagrecedoras são ferramentas poderosas, mas não substituem mudanças no estilo de vida. A perda de peso significativa vem acompanhada de efeitos colaterais proporcionais, e a qualidade de vida não melhora de forma robusta sem a associação com dieta adequada, exercícios físicos e acompanhamento multiprofissional.
A decisão de usar um medicamento para obesidade não pode ser baseada apenas na promessa de emagrecimento. Ela deve levar em conta o perfil clínico do paciente, seus objetivos, suas comorbidades e, principalmente, sua disposição para adotar hábitos saudáveis que sustentem os resultados a longo prazo.
A caneta, sozinha, não faz milagre. O verdadeiro segredo está no equilíbrio entre a farmacologia e o compromisso com a própria saúde.
🔍 Estudo publicado no The BMJ
| Aspecto | Informação |
|---|---|
| Publicação | The BMJ (08/07/2026) |
| Instituição líder | Universidade de Sichuan (China) |
| Número de ensaios clínicos | 262 |
| Participantes | 99.791 (idade média: 49 anos; IMC médio: 35) |
| Medicamentos avaliados | 19 |
| Período de acompanhamento | 12 a 172 semanas (até ~3,3 anos) |
| Maior perda de peso (1 ano) | Tirzepatida (14,9%) e CagriSema (14,8%) |
| Único com benefício cardiovascular | Semaglutida subcutânea (redução de 19% na mortalidade, 28% no infarto, 57% na insuficiência cardíaca) |
| Principais efeitos colaterais | Perda de massa muscular, sintomas gastrointestinais, distúrbios biliares, fadiga |
| Relação benefício-risco | Inversa: quanto maior a perda de peso, maiores os efeitos colaterais |
| Qualidade de vida | Nenhum medicamento demonstrou melhorias robustas |
| Recomendação dos autores | Tratamento individualizado, equilibrando benefícios, danos, custos e preferências do paciente |