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A aposta contra todas as probabilidades: paciente com 5% de chance de cura supera recidiva do câncer de pâncreas e vive 8 anos sem doença

Diagnosticado aos 42 anos com um dos tumores mais agressivos que existem, Edgard de Luna enfrentou cirurgia de nove horas, uma recidiva e um tratamento pouco convencional; o caso virou objeto de estudo e inspiração na oncologia

O adenocarcinoma de pâncreas é o câncer que os oncologistas mais temem. Fica escondido no fundo do abdômen, não dá sinais precoces e, quando aparece, costuma estar avançado. A sobrevida em cinco anos para os casos metastáticos é de cerca de 3%. Para os diagnosticados cedo e operados com sucesso, ainda assim fica entre 30% e 50%.

Edgard de Luna sabia de todos esses números. Ele os viu na tela do celular, sozinho, num domingo, depois que uma médica lhe disse que tinha câncer. A primeira pesquisa no Google foi cruel: cinco meses de vida. Ele tinha 42 anos, duas filhas pequenas e nenhum histórico de doença grave.

Hoje, oito anos depois, Edgard não tem doença detectável. O caso raro está sendo documentado para publicação científica e apresentado em congressos.


🩺 Uma dor que nenhum remédio resolvia

Tudo começou com um incômodo no estômago. Pronto-atendimento: remédio para verme. Não melhorou. Gastroenterologista: gastrite, H. pylori, antibióticos. Continuou. Outro gastro: troca de medicação. Persistiu.

Quando a dor migrou para o meio das costas, veio um novo diagnóstico: contração muscular, provavelmente das aulas de capoeira. Mais remédios. Duas horas em observação. Alta. Mais uma semana. A dor piorou.

Na sexta-feira, uma médica do pronto-socorro fez algo diferente: pediu uma tomografia com contraste. Quatro horas depois, voltou com um cirurgião ao lado. Tinha aparecido uma mancha.

O que Edgard não sabia — e só entenderia mais tarde — era que a dor nas costas havia sido, paradoxalmente, sua sorte. O tumor estava encostado na artéria mesentérica. Foi essa pressão que provocou o sintoma e levou ao diagnóstico antes do estágio IV.


🔪 Doze sessões antes da faca

O tumor de Edgard estava na cabeça do pâncreas, perigosamente próximo de uma artéria. Operar de imediato era arriscado demais.

A estratégia foi a quimioterapia neoadjuvante — tentar reduzir o tumor antes de tentar a cirurgia. Foram 12 sessões. Nas primeiras, Edgard saía da clínica tão energizado que parecia que a quimioterapia o animava. Nas últimas, o cansaço acumulado o derrubou.

Quando os exames mostraram redução tumoral suficiente, o cirurgião foi direto com a família: “pode ser que eu abra e consiga tirar, pode ser que não. Se não conseguir, acionamos os cuidados paliativos.”

“Desde o início eles nos falavam em 5% de chance de sobreviver”, lembra Edgard.

A cirurgia durou nove horas. Quatro cirurgiões na sala. O procedimento foi uma pancreatoduodenectomia — a remoção do pâncreas e da alça de intestino delgado adjacente, um dos mais complexos da cirurgia abdominal.

Quando o médico saiu da sala, a esposa Andreia conta que ele parecia prestes a erguer um troféu: “Tirei tudo. Deu tudo certo.”

Edgard passou o Natal, o aniversário e o Réveillon internado. Em janeiro, foi para casa.


🔁 A recidiva e a aposta na ablação

Um mês depois da cirurgia, o marcador tumoral CA 19-9 continuava elevado. O cirurgião atribuiu à inflamação pós-operatória. A oncologista não se conformou.

Pediu um PET scan. Apareceu uma lesão: entre 1,2 e 1,3 centímetros, próxima ao local da cirurgia.

Fazer quimioterapia convencional estava descartado — o organismo de Edgard precisava de tempo, a cirurgia era recente demais.

A oncologista Jamile Almeida, responsável pelo caso, apresentou duas opções: radiocirurgia (radioterapia de alta precisão) ou ablação por radiofrequência, uma técnica pouco usual para o pâncreas.

“A nossa expectativa era controlar a recidiva por um tempo. A gente não tinha expectativa nenhuma de que a lesão sumisse” , admite a oncologista.

Edgard topou a ablação.


🔥 Uma agulha que treme

O procedimento foi conduzido pelo radiologista intervencionista Ricardo Freitas, professor colaborador do Departamento de Radiologia e Oncologia da FMUSP.

A ablação térmica funciona assim: uma agulha fina é guiada por tomografia em tempo real até o alvo. A ponta do eletrodo vibra em altíssima frequência, gerando calor localizado que coagula as proteínas do tecido, matando as células. O tumor não é retirado — ele é desvitalizado.

“Não é cirurgia. O tumor não é retirado, ele é desvitalizado no local. Posso matar aquele tecido, mas não o removo. E pode dar certo, o tumor ficar controlado. Ou não” , explica Jamile.

Freitas chegou ao nódulo pela tomografia, confirmou a lesão com biópsia e, com o mesmo instrumento, aplicou o tratamento.

No dia seguinte, o médico voltou ao quarto com as notícias: havia conseguido queimar o tecido doente por todos os lados.

Nos meses seguintes, os exames não mostraram recidiva. Nos anos seguintes, também não.

Hoje, cerca de oito anos após a ablação, Edgard não tem doença visível detectável.

“O tumor sumiu. Ficou só a cicatriz do procedimento” , diz Jamile. “Isso é caso anedótico. Não é comum acontecer assim.”


🔬 Por que isso não é uma receita

Tanto a oncologista quanto o radiologista fazem questão de calibrar o que o caso de Edgard significa.

A ablação não é indicada para qualquer tumor, em qualquer localização, em qualquer estágio. Jamile elenca três critérios que precisam ser avaliados em conjunto:

  • a acessibilidade da lesão — se está próxima de grandes vasos, o risco de romper a estrutura ao aquecê-la é real;
  • o tipo e subtipo molecular do tumor;
  • e o status da doença, se está confinada àquele ponto ou já circula em outros locais.

A grande maioria dos pacientes, segundo ela, não será candidata ao procedimento.

Os dados para o câncer de pâncreas ainda são limitados: uma revisão publicada em janeiro de 2026 no World Journal of Gastrointestinal Oncology concluiu que, embora os resultados sejam promissores, a ausência de ensaios clínicos randomizados em larga escala impede que a ablação seja considerada tratamento padrão.

Freitas acrescenta outra camada: tumores do mesmo tipo podem ter comportamentos muito distintos. O tumor de Edgard, quando recidivou, o fez com uma lesão única, em lugar acessível, encontrada precocemente. Houve ainda a circunstância de a equipe que o acompanhava conhecer e praticar o procedimento.

Há ainda o que a medicina não consegue responder. Jamile não tem nenhuma alteração molecular específica do tumor que explique por que deu certo. O caso está sendo documentado por Freitas para publicação científica.


🧬 Depois da tempestade

Hoje, Edgard de Luna tem 50 anos. Faz acompanhamento regular. Toma uma enzima digestiva para o pâncreas — embora sua médica já tenha sugerido que talvez nem precise mais.

Ficou com uma neuropatia leve nas extremidades, sequela da quimioterapia, mas sem restrições alimentares e sem limitações funcionais.

Recentemente, viajou com Andreia a Portugal para cumprir uma promessa feita em Fátima durante o tratamento.

Perguntado sobre o que mudou, Edgard responde com a leveza de quem já encarou o pior:

“Os problemas ficam pequenos. Um erro na gráfica, o pessoal nervoso… Para mim, isso não tem tamanho. Chega a ser engraçado.”


🔍 Resumo do caso de Edgard de Luna

AspectoInformação
DiagnósticoAdenocarcinoma de pâncreas (cabeça do pâncreas, borderline para ressecabilidade)
Idade ao diagnóstico42 anos
Tempo de sintomas até o diagnósticoCerca de 3 meses (dores abdominais e nas costas)
Tratamento inicial12 sessões de quimioterapia neoadjuvante
CirurgiaPancreatoduodenectomia (9 horas, 4 cirurgiões)
Recidiva1 mês após a cirurgia (lesão de 1,2-1,3 cm)
Tratamento da recidivaAblação por radiofrequência (térmica)
Tempo sem doença detectável8 anos
Idade atual50 anos
SequelasNeuropatia leve nas extremidades; faz reposição enzimática
Status do casoEm documentação para publicação científica

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