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TDAH de Virginia Fonseca e Ana Castela: neuropsicóloga faz alerta direto sobre os riscos do autodiagnóstico nas redes sociais

Especialista explica que aumento de diagnósticos não significa necessariamente mais casos, mas sim maior capacidade de identificação; alerta que transtorno vai muito além de “distração” e que vídeos virais banalizam condição séria

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) virou assunto do momento nas redes sociais. E não foi à toa: nomes como Virginia Fonseca, Ana Castela, o influenciador britânico Sam Thompson e a cantora Nelly Furtado trouxeram o tema à tona ao falarem abertamente sobre seus diagnósticos. Mas, segundo a psicóloga e neuropsicóloga Luciana Fortes, é preciso cuidado com o que está sendo dito — principalmente na internet.

Em conversa com a coluna de Fábia Oliveira no Metrópoles, a especialista fez um alerta direto sobre a avalanche de conteúdos virais que prometem ajudar qualquer pessoa a se autodiagnosticar com base em listas de sintomas ou vídeos curtos.

“O TDAH não se diagnostica por vídeos ou listas de sintomas. Isso banaliza um transtorno sério” , afirmou Luciana Fortes.

O que aumentou não foram os casos, mas a identificação 📈

Um dos pontos centrais da fala da neuropsicóloga é a diferença entre aumento real da prevalência e aumento da capacidade de identificar o transtorno. Segundo ela, o que se observa na prática clínica é um número maior de diagnósticos tardios — especialmente entre adultos —, mas isso não significa necessariamente que mais pessoas estejam desenvolvendo TDAH.

“O que aumentou não foram os casos, mas a capacidade de identificar o transtorno” , explicou Luciana Fortes.

O diagnóstico tardio, aliás, é cada vez mais comum: “Muitos adultos só descobrem agora porque conseguiram compensar os sintomas ao longo da vida. Quando o diagnóstico chega, vem alívio — mas também uma releitura da própria história” , observou.

TDAH vai muito além de “distração” ou “agitação” 🧠

A especialista reforçou que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento com critérios diagnósticos bem estabelecidos e que não se resume a esquecimentos pontuais ou dificuldade de foco em tarefas entediantes.

“Estamos falando de dificuldades em planejamento, organização, controle emocional e impulsividade” , enumerou.

Os sintomas centrais do TDAH, de acordo com manuais como o DSM-5 e diretrizes da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), incluem:

  • Desatenção persistente: dificuldade de manter o foco em tarefas rotineiras, perda frequente de objetos, erros por descuido.
  • Hiperatividade/impulsividade: inquietação, dificuldade em permanecer sentado, agir sem pensar nas consequências, interromper os outros.

Quando esses sintomas causam prejuízo significativo em múltiplos ambientes (casa, escola, trabalho, relações sociais) e não são explicados por outras condições (ansiedade, depressão, transtornos de aprendizagem, uso de substâncias), é que se considera a hipótese de TDAH.

O diagnóstico: um processo clínico, não um viral de internet 🚫📱

Luciana Fortes foi categórica ao criticar a tendência do autodiagnóstico baseado em conteúdos de redes sociais como TikTok e Instagram. Vídeos curtos que listam “sinais de que você tem TDAH” acumulam milhões de visualizações, mas, segundo a especialista, não substituem uma avaliação profissional.

Estudos recentes corroboram a preocupação. Uma revisão da Universidade de East Anglia, publicada no Journal of Social Media Research, analisou mais de 5 mil postagens sobre saúde mental nas principais plataformas e concluiu que:

  • 52% dos vídeos sobre TDAH no TikTok continham informações imprecisas.
  • 41% dos conteúdos sobre autismo também apresentavam erros.
  • O problema é maior entre criadores não profissionais (taxa de erro de até 55%), enquanto conteúdos produzidos por especialistas têm apenas 3% de imprecisão.

Os algoritmos das plataformas, especialmente do TikTok, favorecem conteúdos com alto engajamento rápido — o que contribui para a viralização de informações incorretas em detrimento de conteúdos baseados em evidências.

Os riscos do autodiagnóstico: atraso, tratamento errado e estigma ⚠️

A banalização do TDAH nas redes sociais não é inofensiva. Especialistas apontam consequências graves:

  1. Atraso no diagnóstico correto: uma pessoa que se convence de que tem TDAH com base em vídeos pode deixar de investigar a verdadeira causa de seus sintomas — que pode ser ansiedade, depressão, transtorno bipolar, apneia do sono, disfunção tireoidiana ou até mesmo efeitos do estresse crônico.
  2. Tratamento inadequado: o autodiagnóstico pode levar à busca por medicamentos controlados (como o Venvanse ou Ritalina) sem prescrição ou supervisão médica, com risco de efeitos colaterais graves, dependência e agravamento de condições psiquiátricas subjacentes.
  3. Reforço de estigmas: quando o TDAH é reduzido a “falta de atenção” ou “esquecimento”, perde-se a compreensão da gravidade que o transtorno pode ter na vida de quem realmente convive com ele — incluindo dificuldades profissionais, relacionamentos instáveis, baixa autoestima e aumento do risco de ansiedade e depressão.
  4. Banalização do sofrimento alheio: famílias que lutam para que seus filhos com TDAH recebam acomodações escolares ou acesso a tratamento veem suas demandas invalidadas quando o diagnóstico é tratado como “modinha”.

Quando o diagnóstico é correto: alívio e estratégias de vida 🌟

Luciana Fortes ressalta que, quando bem conduzido, o diagnóstico de TDAH não é um rótulo negativo, mas uma chave de entendimento.

“Quando a pessoa entende seu funcionamento, ela deixa de se culpar e passa a construir estratégias para viver melhor” , concluiu.

O tratamento do TDAH é multidisciplinar e pode incluir:

  • Psicoeducação: entender o transtorno e seus impactos.
  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC): para desenvolver estratégias de organização, planejamento e regulação emocional.
  • Medicamentos (quando indicados): psicoestimulantes ou não estimulantes, sob rigoroso acompanhamento médico.
  • Treino de funções executivas: técnicas para melhorar memória de trabalho, inibição de respostas e flexibilidade cognitiva.
  • Apoio psicossocial: adaptações no ambiente escolar ou de trabalho, grupos de apoio.

Como consumir informações sobre TDAH de forma responsável? 🔍

Diante do volume de desinformação, especialistas recomendam:

  1. Verificar a fonte: o conteúdo foi produzido por um profissional de saúde registrado (médico psiquiatra, psicólogo, neuropsicólogo) ou por um influenciador sem formação?
  2. Preferir canais de associações científicas: como ABDA (Associação Brasileira do Déficit de Atenção), ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e órgãos de classe.
  3. Desconfiar de listas de sintomas genéricos: “todo mundo” se identifica com alguns itens de uma lista de TDAH — o que define o transtorno é a persistência, a gravidade e o prejuízo funcional em múltiplos contextos.
  4. Buscar um profissional qualificado: diante de suspeita, o caminho correto é procurar um psiquiatra, neurologista ou psicólogo/neuropsicólogo especializado, que fará uma avaliação clínica detalhada (entrevista, escalas validadas, testes neuropsicológicos quando indicados).
  5. Denunciar conteúdos enganosos: plataformas como TikTok, Instagram e YouTube permitem sinalizar desinformação em saúde.

A fala pública de famosos: conscientização ou romantização? 🎤

O fato de Virginia Fonseca e Ana Castela terem revelado seus diagnósticos publicamente tem um duplo efeito. Por um lado, aumenta a conscientização sobre o TDAH e reduz o estigma, encorajando outras pessoas a buscarem ajuda. Por outro, quando acompanhado de vídeos simplificadores nas redes sociais, pode dar a impressão de que qualquer um pode se autodiagnosticar com base em poucos sintomas.

A neuropsicóloga Luciana Fortes não critica as celebridades por falarem sobre seus diagnósticos, mas sim o ecossistema de desinformação que se aproveita dessas revelações para produzir conteúdo raso e, muitas vezes, incorreto.

O alerta é direto: TDAH é um transtorno sério, com critérios diagnósticos rigorosos e impacto real na vida de quem o tem. Não se diagnostica por vídeo de 30 segundos.


🔍 Os Riscos do Autodiagnóstico de TDAH nas Redes Sociais

AspectoInformação
FenômenoViralização de conteúdos sobre TDAH no TikTok e Instagram, impulsionada por diagnósticos de famosas como Virginia Fonseca e Ana Castela.
Dados preocupantes52% dos vídeos sobre TDAH no TikTok contêm informações imprecisas (estudo da Universidade de East Anglia).
Principal erroReduzir o TDAH a “distração” ou “esquecimento”, ignorando prejuízos em planejamento, organização, controle emocional e impulsividade.
Riscos do autodiagnósticoAtraso no diagnóstico correto, tratamento inadequado, automedicação, reforço de estigmas, banalização do transtorno.
O que fazer diante da suspeitaBuscar avaliação com psiquiatra, neurologista ou neuropsicólogo especializado; evitar conclusões baseadas em vídeos ou listas genéricas.
Tratamento adequadoPsicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, medicamentos sob supervisão, treino de funções executivas, apoio psicossocial.
Posição da especialista“O TDAH não se diagnostica por vídeos ou listas de sintomas. Isso banaliza um transtorno sério” – Luciana Fortes, neuropsicóloga.

Reportagens relacionadas (desinformação em saúde mental):
[TikTok e saúde mental: como os conteúdos da rede promovem desinformação sobre temas como TDAH, TEA e outros – g1, 10/04/2026]

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