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A ciência que aprovou a vacina da dengue é a mesma que agora a protege — e isso não é uma derrota

Em artigo, a médica Ludhmila Hajjar, professora titular da FMUSP, defende que suspensão temporária de imunizante do Butantan, após 42 eventos adversos raros em meio milhão de doses, é prova do funcionamento da vigilância sanitária — e não justificativa para ataques negacionistas

A suspensão temporária da vacina Butantan-DV, anunciada na última segunda-feira (8) pelo Ministério da Saúde em conjunto com a Anvisa, gerou manchetes alarmistas e foi usada como munição por grupos antivacina nas redes sociais. A medida, motivada por 42 eventos adversos graves registrados entre cerca de 501 mil doses aplicadas — uma taxa de 0,008% —, foi interpretada por muitos como um sinal de fracasso do imunizante brasileiro de dose única.

Mas, para a professora titular de Emergências da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretora da Cardiologia do Hospital Vila Nova Star, Ludhmila Hajjar, a leitura correta é exatamente a oposta. Em artigo publicado no O Globo, ela sustenta que a pausa não invalida a vacina — pelo contrário, é a prova de que o sistema que protege a saúde do brasileiro está funcionando.

“A manchete soou como derrota para muitos. É o contrário: a pausa é a prova de que o sistema que cuida da saúde do brasileiro está funcionando, e não muda o fato de que estamos diante de uma das vacinas mais notáveis já desenvolvidas no país” , escreve Hajjar.

O maior estudo de vacina já feito no Brasil

A Butantan-DV não nasceu de uma promessa de laboratório. Ela é fruto de um ensaio clínico de fase 3 conduzido em 14 estados brasileiros, com 16.235 voluntários de 2 a 59 anos, acompanhados por cinco anos — um dos maiores estudos de vacina já realizados no país. Os resultados foram publicados nas revistas científicas mais respeitadas do mundo, como o New England Journal of Medicine (NEJM) e a Nature.

Os números de proteção impressionam. Onde mais importa — nas formas graves da doença, aquelas que matam —, a vacina se comportou como quase um escudo:

  • Eficácia contra casos graves e com sinais de alarme: manteve-se em torno de 80,5% durante os cinco anos de acompanhamento.
  • Proteção contra hospitalizações: foi total — nenhuma internação no grupo que recebeu o imunizante.
  • Casos graves entre vacinados: zero. Ao longo de cinco anos, não houve um único caso de dengue grave entre os vacinados, contra registros consistentes no grupo placebo.

Proteção em quem nunca teve dengue — uma vantagem única

Um detalhe distingue a Butantan-DV de outras vacinas contra a dengue disponíveis no mercado: ela protege independentemente de a pessoa já ter tido a doença antes. Imunizantes anteriores eram indicados preferencialmente a quem já havia sido infectado, o que limitava seu uso em larga escala.

A vacina brasileira funcionou tanto em quem já tinha anticorpos (proteção em torno de 77%) quanto em quem nunca teve contato com o vírus (cerca de 59%), com o mesmo perfil de segurança nos dois grupos. É uma vantagem real, de saúde pública, que amplia quem pode ser protegido.

Segurança: o que os números realmente mostram

A suspensão foi motivada pela investigação de três casos graves notificados entre os vacinados, incluindo duas mortes (um homem de 58 anos e uma mulher de 48 anos) e uma paciente de 38 anos que precisou de UTI, mas recebeu alta. A taxa de eventos adversos graves (0,008% das doses aplicadas) é extremamente baixa e está dentro do esperado para qualquer imunizante em larga escala.

Hajjar ressalta que a transparência da investigação — e não o encobrimento — é o que define um sistema de saúde sério. A pausa temporária permite que as autoridades determinem se houve relação causal entre a vacina e os eventos ou se eles são fruto de coincidência estatística.

O infectologista Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, reforçou o mesmo entendimento em nota técnica: a suspensão é uma medida de precaução, que não invalida os robustos dados de eficácia e segurança dos estudos clínicos, nem a experiência acumulada com mais de meio milhão de doses aplicadas na população.

Desinformação: o outro vírus que precisa ser combatido

A suspensão foi imediatamente instrumentalizada por grupos antivacina, que usaram o episódio para questionar não apenas o imunizante contra a dengue, mas também para reavivar narrativas falsas sobre as vacinas da Covid-19. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, rebateu publicamente a ofensiva bolsonarista, afirmando que a suspensão não confirma as narrativas falsas e que a vacina permanece segura e eficaz.

Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que esse tipo de desinformação tem consequências concretas: reduz a confiança nas vacinas em geral, atrasa campanhas de imunização e coloca vidas em risco — especialmente em um país que registrou mais de 6.000 mortes por dengue em 2024, o que representa quase metade dos óbitos globais pela doença naquele ano.

O que acontece agora?

A Butantan-DV permanece suspensa temporariamente enquanto a Anvisa e o Ministério da Saúde investigam os casos graves. A orientação para os municípios é que guardem as doses até nova decisão. Se confirmada a ausência de relação causal, a vacinação deve ser retomada — com os mesmos protocolos de segurança reforçados.

Entretanto, se a investigação apontar um risco real, ainda que mínimo, o imunizante pode ter seu uso restrito a certos subgrupos da população (excluindo, por exemplo, pessoas com determinadas condições de saúde pré-existentes), ou até ser definitivamente descontinuado — uma possibilidade que, por enquanto, é considerada remota pelos especialistas, dada a magnitude dos benefícios documentados.

O veredito final: confiança na ciência, não em manchetes

A mensagem final da médica Ludhmila Hajjar é clara: a ciência que aprovou a vacina da dengue após cinco anos de estudos rigorosos — com escrutínio internacional e publicação nas principais revistas do mundo — é a mesma ciência que agora, com a mesma transparência, investiga eventos adversos raros e suspende temporariamente o uso como medida de precaução.

“A ciência que aprovou a vacina da dengue é a mesma que agora a protege” , conclui Hajjar.

A suspensão não é uma derrota. É um lembrete de que o sistema de vigilância sanitária brasileiro — um dos mais respeitados do mundo — funciona. E que, em saúde pública, a transparência salva vidas.


🔍 Artigo de Ludhmila Hajjar e da situação da Butantan-DV

AspectoInformação
EventoSuspensão temporária da vacinação com Butantan-DV (anunciada em 8/6/2026)
MotivoInvestigação de 42 eventos adversos graves (0,008% das 501 mil doses aplicadas), incluindo duas mortes e uma internação em UTI
Posição da autoraLudhmila Hajjar (FMUSP): a suspensão é prova de que o sistema de vigilância funciona — não um sinal de fracasso da vacina
Base científica da vacinaEnsaio clínico de fase 3 com 16.235 voluntários de 2 a 59 anos em 14 estados, acompanhados por cinco anos
PublicaçõesNew England Journal of Medicine (NEJM) e Nature Medicine
Eficácia contra casos graves80,5% (zero casos graves entre vacinados nos cinco anos)
Proteção contra hospitalizaçõesTotal — nenhuma internação no grupo vacinado
Eficácia em quem nunca teve dengueCerca de 59% (vantagem sobre vacinas anteriores)
Eficácia em quem já teve dengueCerca de 77%
Uso indevido do episódioGrupos antivacina usaram a suspensão para atacar vacinas da Covid-19 e disseminar desinformação
Situação atualInvestigação em curso. Doses suspensas, mas especialistas consideram remota a possibilidade de descontinuação definitiva

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