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Nipah versus Covid: Por que vírus mais letal da Índia não deve virar pandemia global, segundo a OMS

Um novo surto do vírus Nipah no estado de Bengala Ocidental, na Índia, reacendeu alertas em um mundo ainda traumatizado pela Covid-19. No entanto, uma nota técnica divulgada nesta quinta-feira (29) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) traz um diagnóstico que, ainda que cauteloso, afasta o cenário de uma nova pandemia de proporções globais. Para a agência, o risco nacional, regional e internacional permanece baixo, e não há evidências de aumento na transmissão entre pessoas. A avaliação se baseia em diferenças biológicas e epidemiológicas fundamentais entre o Nipah e o coronavírus SARS-CoV-2, que tornam o primeiro, paradoxalmente, mais letal, porém muito menos contagioso.

Infecção por Nipah Vírus pode provocar inflamação grave na região cerebral. (Designed by Freepik/Freepik
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A Índia confirmou dois casos neste mês, ambos em profissionais de saúde. Um paciente está em recuperação e outro, uma mulher, encontra-se em estado grave. As autoridades locais, que já gerenciaram surtos anteriores, implementaram as medidas de saúde pública recomendadas. A OMS classifica o risco apenas como “moderado” na própria região de Bengala Ocidental, devido à presença dos morcegos frugívoros que são o reservatório natural do vírus.

Transmissão: O Fator que Mais Diferença

A principal distinção, e a mais tranquilizadora, está no modo de contágio. Enquanto a Covid-19 se espalhou pelo mundo através de partículas aerossóis no ar, o vírus Nipah exige um contato muito mais próximo e específico.

“O Nipah requer contato mais íntimo e prolongado, relacionado aos fluidos corporais e frutas contaminadas pelo morcego regional”, explica Fernando Dias e Sanches, pesquisador da UFRJ. A transmissão entre humanos é rara e historicamente se restringe a ambientes de saúde ou a familiares que cuidam de doentes, sem relatos de disseminação internacional via viagens.

Letalidade versus Disseminação: Uma Equação Cruel

A segunda grande diferença está na agressividade do vírus. A taxa de letalidade do Nipah varia entre 40% e 75%, um patamar assustadoramente alto. No entanto, essa virulência extrema atua como um limitador natural de seu alcance.

“Os pacientes morrem antes de conseguirem transmitir a doença”, ressalta o virologista Benedito Fonseca, da USP e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. O SARS-CoV-2, por outro lado, se espalhou rapidamente justamente porque muitas pessoas o transmitiam sem apresentar sintomas graves ou mesmo antes de ficarem doentes.

Distribuição e Adaptação: Um Vírus Mais “Estável”

Outro fator que contém o Nipah é sua distribuição geográfica historicamente estável. Desde sua descoberta em 1999, os surtos têm sido concentrados no Sudeste Asiático, principalmente na Índia e em Bangladesh, seguindo a área de circulação dos morcegos hospedeiros.

Além disso, os especialistas destacam uma capacidade de adaptação diferente. O coronavírus demonstrou uma facilidade notável para se transmitir entre humanos sem a necessidade de um animal intermediário. Já o vírus Nipah, embora tenha causado o primeiro surto através de porcos infectados, não demonstrou a mesma plasticidade para se tornar um vírus de transmissão sustentada e eficiente na população humana. “A expectativa é de que o Nipah não apresente essa mesma facilidade de adaptação”, pondera Fonseca.

Sem Vacina, mas com Prevenção

Assim como no início da Covid-19, não existe vacina licenciada nem tratamento antiviral específico para a infecção pelo Nipah (vários candidatos estão em estudo). O tratamento é de suporte intensivo, focando nas complicações respiratórias e neurológicas.

A prevenção, portanto, é absolutamente crucial. A OMS reforça medidas como:

  • Uso de equipamento de proteção (luvas, avental) ao lidar com animais doentes ou seus fluidos.
  • Higiene rigorosa das mãos e evitar contato próximo desprotegido com pessoas infectadas.
  • Controle rígido de infecções em ambientes de saúde, incluindo ventilação adequada.

O alerta sobre o Nipah é legítimo e serve como lembrete da constante ameaça de vírus emergentes. No entanto, a análise científica atual indica que, devido às suas próprias características biológicas, ele não tem o perfil de se tornar o próximo SARS-CoV-2. A vigilância, no entanto, deve permanecer constante.


  • Risco Global Baixo: A OMS avalia que o risco do atual surto de Nipah se espalhar para outros países ou continentes é baixo.
  • Contágio Diferente: O Nipah não se espalha pelo ar como a Covid-19. A transmissão exige contato direto com fluidos contaminados ou consumo de alimentos infectados.
  • Muito Letal, Pouco Contagioso: A alta letalidade (até 75%) paradoxalmente reduz sua capacidade de causar uma pandemia, pois os doentes graves transmitem menos.
  • Área de Risco Conhecida: Os surtos históricos estão confinados ao Sudeste Asiático, área de habitat dos morcegos que carregam o vírus.
  • Prevenção é Chave: Sem vacina, a proteção depende de evitar frutas que possam ter sido mordidas por morcegos, higiene rigorosa e controle de infecção em hospitais.

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