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Dados alarmantes, hábitos contraditórios: obesidade atinge 62,6% dos brasileiros enquanto novas políticas tentam frear epidemia

Os números mais recentes do sistema de vigilância do Ministério da Saúde pintam um retrato preocupante e complexo da saúde do brasileiro. Em menos de duas décadas, o país viu a epidemia de excesso de peso se acelerar de forma dramática: 62,6% da população adulta nas capitais estava acima do peso em 2024, um salto de 20 pontos percentuais em relação a 2006. A obesidade, condição mais grave, dobrou de prevalência, afetando hoje 25,7% dos brasileiros – ou seja, uma em cada quatro pessoas. Os dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) revelam uma crise sanitária que caminha lado a lado com o envelhecimento populacional e hábitos de vida contraditórios.

Foto: Walterson Rosa/MS

O avanço do peso acima do saudável arrasta consigo o aumento de doenças crônicas debilitantes. No mesmo período, o diagnóstico de diabetes em adultos mais que dobrou, passando de 5,5% para 12,9%. A hipertensão arterial também cresceu substancialmente, atingindo 29,7% da população. “À medida que o Brasil vai envelhecendo cada vez mais, surgem mais pessoas com doenças crônicas. Por isso, precisamos ter mais políticas de cuidado e prevenção”, avaliou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a divulgação dos dados.

Um Retrato Contraditório: Hábitos que Melhoram e um Sono que Piora

O relatório do Vigitel expõe uma mudança paradoxal nos hábitos nacionais. Por um lado, alguns indicadores melhoraram: o consumo regular de refrigerantes e sucos artificiais caiu pela metade, e a prática de atividade física no tempo livre aumentou significativamente. Por outro, os brasileiros se movimentam menos no dia a dia, com o uso de carros e transporte público suplantando as caminhadas.

Pela primeira vez, a pesquisa investigou a qualidade do sono, e os resultados acendem um novo sinal de alerta. Cerca de um em cada cinco adultos (20,2%) dorme menos de 6 horas por noite, e 31,7% relatam pelo menos um sintoma de insônia, com prevalência maior entre as mulheres. “Isso preocupa porque um sono sem qualidade tem relação direta com ganho de peso, obesidade, com piora das doenças crônicas e com o tema da saúde mental”, destacou Padilha, anunciando que o SUS começará a incluir a avaliação do sono no atendimento primário.

A Resposta do Governo: O Lançamento do “Viva Mais Brasil”

Em resposta a esse cenário desafiador, o Ministério da Saúde lançou a estratégia “Viva Mais Brasil”, uma mobilização nacional com foco na promoção da saúde e prevenção de doenças. A iniciativa, anunciada no Super Centro Carioca de Vacinação, no Rio de Janeiro, pretende articular e fortalecer políticas existentes no SUS, com um investimento inicial de R$ 340 milhões.

Um dos pilares será a retomada do programa Academia da Saúde, que receberá R$ 40 milhões ainda em 2026 para promover a atividade física em comunidades. A estratégia se baseia em dez compromissos, que vão desde o incentivo à alimentação saudável e à vida ativa até a redução do consumo de tabaco e álcool, o fortalecimento da vacinação e a promoção de uma cultura de paz.

Apesar dos esforços anunciados, especialistas em saúde pública questionam se as ações serão suficientes para reverter uma tendência de quase 20 anos. A obesidade é um problema multifatorial, influenciado por determinantes sociais complexos como urbanização, acesso a alimentos ultraprocessados, mudanças no mundo do trabalho e estresse. O sucesso do “Viva Mais Brasil” dependerá não apenas de investimento, mas de uma integração eficaz entre as esferas de governo, a regulação da indústria de alimentos e uma transformação profunda no ambiente que molda as escolhas da população.


Para o Leitor:

  • Dados Alarmantes: Mais de 60% dos brasileiros têm excesso de peso, e a obesidade já atinge 25,7% da população adulta, o dobro de 2006.
  • Doenças Associadas: Diabetes e hipertensão arterial crescem junto com a obesidade, formando uma síndrome de comorbidades que sobrecarrega o SUS.
  • Novo Fator de Risco: A pesquisa revelou pela primeira vez que 31,7% dos adultos têm sintomas de insônia, um problema grave ligado ao ganho de peso e à piora da saúde mental.
  • Hábitos Paradoxais: Enquanto o consumo de refrigerantes cai e a prática de exercícios no lazer aumenta, a população se locomove menos a pé no dia a dia.
  • Política de Resposta: O governo lançou a estratégia “Viva Mais Brasil”, com foco em prevenção e promoção da saúde, incluindo a retomada das Academias da Saúde. A eficácia desta iniciativa contra uma epidemia consolidada ainda é uma incógnita.

Evolução dos Principais Indicadores de Saúde no Brasil (2006-2024)

Indicador de SaúdeAno 2006Ano 2024Variação
Excesso de Peso42,6%62,6%+20,0 p.p.
Obesidade11,8%25,7%+13,9 p.p.
Diabetes5,5%12,9%+7,4 p.p.
Hipertensão22,6%29,7%+7,1 p.p.
Atividade Física (Lazer)30,3% (2009)42,3%+12,0 p.p.
Consumo de Refrigerante30,9% (2007)16,2%-14,7 p.p.

Fonte: Vigitel/MS. Dados referentes à população adulta nas capitais brasileiras.

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