Saúde Pública ou Contas Públicas? O Dilema Bilionário por Trás da Vacina de Herpes-Zóster Negada pelo SUS
Em uma decisão que escancara o crônico dilema entre a saúde ideal e a realidade orçamentária, o Ministério da Saúde oficializou a não incorporação da vacina contra herpes-zóster ao Sistema Único de Saúde (SUS). A portaria, publicada no Diário Oficial da União, segue a recomendação técnica da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que considerou o imunizante “não custo-efetivo” diante do impacto financeiro bilionário que representaria para os cofres públicos.

A vacina, indicada para idosos a partir de 80 anos e adultos imunocomprometidos, foi barrada não por ineficácia, mas pelo preço. O relatório da Conitec fez as contas: para imunizar a população elegível em cinco anos, o SUS teria um desembolso total de R$ 5,2 bilhões. Apenas no primeiro ano, vacinar 1,5 milhão de pacientes custaria R$ 1,2 bilhão.
A Doença, os Números e o Cálculo de Impacto
O herpes-zóster, popularmente conhecido como “cobreiro”, é uma reativação do vírus da catapora (varicela-zóster), que fica latente no organismo após a infecção na infância. Sua reativação, mais comum na velhice ou quando a imunidade cai, causa uma erupção cutânea dolorosa que segue o trajeto de um nervo.
Embora a Conitec reconheça que a doença pode evoluir para complicações graves, especialmente neuralgia pós-herpética (dor crônica debilitante), os dados epidemiológicos pesaram na decisão. Entre 2008 e 2024, o SUS registrou 85.888 atendimentos ambulatoriais e 30.801 internações por herpes-zóster. No período de 2007 a 2023, houve 1.567 óbitos, com uma taxa de mortalidade considerada baixa (0,05 por 100 mil habitantes). O perfil das vítimas, no entanto, é claro: 90% tinham 50 anos ou mais, e 53,4% eram idosos acima de 80 anos – justamente o grupo-alvo da vacina.
“O Comitê de Medicamentos reconheceu a importância da vacina… mas destacou que considerações adicionais sobre a oferta de preço precisam ser negociadas, de modo a alcançar um valor com impacto orçamentário sustentável para o SUS”, afirmou o relatório.
O Tratamento Disponível e a Porta Aberta para Revisão
Na prática, a decisão mantém o protocolo atual do SUS para a doença. Em casos leves, o sistema oferece tratamento sintomático para dor e coceira. Para grupos de maior risco, como os idosos, está disponível o antiviral aciclovir.
A portaria do Ministério, no entanto, deixa uma brecha. O tema poderá ser reavaliado pela Conitec caso sejam apresentados fatos novos, como uma significativa redução no preço da vacina pelas fabricantes ou novos estudos que demonstrem um benefício em custo-efetividade mais favorável ao cenário brasileiro.
A negativa coloca em evidência o mecanismo de barganha do SUS. A Conitec, ao declarar publicamente que a tecnologia é boa, mas cara, sinaliza para o mercado a necessidade de uma proposta financeira mais agressiva. É uma estratégia que já funcionou no passado com outros medicamentos de alto custo, que após negociação tiveram seus preços reduzidos e foram subsequentemente incorporados.
- O que é Herpes-Zóster: Doença causada pela reativação do vírus da catapora, que permanece no corpo. Manifesta-se como faixas de bolhas dolorosas na pele, geralmente em um lado do tronco ou rosto.
- Quem é o Público-Alvo da Vacina: Idosos (principalmente acima de 80 anos) e adultos com o sistema imunológico comprometido (ex: pacientes em quimioterapia, transplantados, pessoas com HIV).
- A Decisão Não é Definitiva: A não incorporação pode ser revista se o laboratório apresentar um novo preço ou se novos dados científicos mudarem a análise de custo-efetividade.
- Tratamento no SUS: Para a maioria dos casos, o SUS oferece cuidados para aliviar os sintomas. Pacientes de grupos de risco têm acesso ao antiviral aciclovir.




