{"id":856,"date":"2026-04-10T08:59:40","date_gmt":"2026-04-10T11:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/?p=856"},"modified":"2026-04-10T08:59:41","modified_gmt":"2026-04-10T11:59:41","slug":"de-enchente-a-bananais-o-cenario-que-transformou-ilhota-sc-em-alvo-de-infestacao-de-maruins-e-fez-moradores-se-trancarem-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/2026\/04\/10\/de-enchente-a-bananais-o-cenario-que-transformou-ilhota-sc-em-alvo-de-infestacao-de-maruins-e-fez-moradores-se-trancarem-em-casa\/","title":{"rendered":"De enchente a bananais: o cen\u00e1rio que transformou Ilhota (SC) em alvo de infesta\u00e7\u00e3o de maruins e fez moradores se &#8216;trancarem&#8217; em casa"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Pequeno mosquito, cuja picada corta a pele e causa coceira intensa, prolifera em troncos de bananeira em decomposi\u00e7\u00e3o; moradores do Morro do Ba\u00fa vivem de portas e janelas fechadas, mesmo com calor de 34\u00b0C, e aguardam solu\u00e7\u00e3o para conter o inseto que tamb\u00e9m pode transmitir a Febre do Oropouche<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"974\" height=\"579\" src=\"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-857\" srcset=\"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-12.png 974w, https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-12-300x178.png 300w, https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-12-768x457.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 974px) 100vw, 974px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pelo menos 18 anos, os moradores da \u00e1rea rural de <strong>Ilhota<\/strong>, no Vale do Itaja\u00ed (SC), travam uma batalha di\u00e1ria contra um inimigo min\u00fasculo, mas implac\u00e1vel: o <strong>maruim<\/strong> (<em>Culicoides paraensis<\/em>). O inseto, cuja picada causa irrita\u00e7\u00e3o intensa e coceira na pele, se proliferou de forma t\u00e3o expressiva que fez com que fam\u00edlias inteiras passassem a viver de <strong>portas e janelas sempre fechadas<\/strong> \u2014 mesmo quando o term\u00f4metro bate <strong>34\u00b0C<\/strong> \u2014, usando roupas compridas e repelente para qualquer sa\u00edda ao ar livre.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, que os moradores do <strong>Morro do Ba\u00fa<\/strong> classificam como &#8220;insustent\u00e1vel&#8221; nos \u00faltimos tr\u00eas anos, tem ra\u00edzes em uma combina\u00e7\u00e3o de fatores: a <strong>grande enchente de 2008<\/strong>, que matou 32 pessoas e deixou um rastro de lama e mat\u00e9ria org\u00e2nica, e, principalmente, o <strong>manejo inadequado das planta\u00e7\u00f5es de banana<\/strong>, uma das principais fontes de renda da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Hoje ningu\u00e9m suporta mais&#8221;: o relato de quem vive cercado \ud83c\udfe0<\/h3>\n\n\n\n<p>Josiane Richart, moradora da localidade h\u00e1 mais de 40 anos, conta que o maruim sempre existiu na ro\u00e7a, mas sua presen\u00e7a n\u00e3o era inc\u00f4moda. <em>&#8220;Meu falecido pai falava que, na ro\u00e7a, sempre tinha, mas pouco. A\u00ed depois de 2008, na trag\u00e9dia, piorou e come\u00e7ou a ter muitos, mas ainda suportava. Hoje em dia, ningu\u00e9m suporta mais. Casas somente fechadas; na rua, s\u00f3 de roupa comprida e repelente&#8221;<\/em> , relata.<\/p>\n\n\n\n<p>A vizinha Tatiana Reichert afirma que a infesta\u00e7\u00e3o se intensificou ano ap\u00f3s ano, especialmente ap\u00f3s a cat\u00e1strofe. A sensa\u00e7\u00e3o, segundo os moradores, \u00e9 de que os maruins <strong>&#8220;avan\u00e7am no rosto da gente&#8221;<\/strong> , tornando qualquer atividade ao ar livre um mart\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O que explica a explos\u00e3o populacional do maruim? \ud83d\udd2c<\/h3>\n\n\n\n<p>O pesquisador <strong>Caio Cezar Dias Corr\u00eaa<\/strong>, doutor em zoologia pelo Museu Nacional da UFRJ e p\u00f3s-doutorando na UFSC, explica que a din\u00e2mica populacional do inseto j\u00e1 era alta antes de 2008, mas a soma de fatores a tornou explosiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. O papel das planta\u00e7\u00f5es de banana (e do manejo inadequado) \ud83c\udf4c<\/strong><br>O maruim tem um criadouro preferencial: <strong>os troncos de bananeira cortados e deixados em decomposi\u00e7\u00e3o<\/strong> ap\u00f3s a colheita. As f\u00eameas depositam seus ovos nesse material \u00famido e rico em mat\u00e9ria org\u00e2nica, e as larvas se desenvolvem ali.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>&#8220;Um dos processos de manejo das planta\u00e7\u00f5es de banana \u00e9 o corte do tronco ap\u00f3s a colheita, deixando exposta esta parte que entrar\u00e1 em processo de decomposi\u00e7\u00e3o, sendo o local perfeito para a cria\u00e7\u00e3o das larvas, que posteriormente se tornar\u00e3o os adultos&#8221;<\/em> , detalha Corr\u00eaa.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ele faz quest\u00e3o de ressaltar: <strong>a bananeira n\u00e3o \u00e9 a culpada<\/strong>, e sim a forma como o manejo \u00e9 feito (ou deixado de fazer). Em \u00e1reas preservadas, sem a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica intensa, os maruins depositam ovos em ambientes de \u00e1gua represada, mas a competi\u00e7\u00e3o com outros organismos impede a explos\u00e3o populacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. O aumento populacional humano \ud83e\uddd1\u200d\ud83c\udf3e<\/strong><br>As f\u00eameas do maruim s\u00e3o atra\u00eddas <strong>preferencialmente por humanos<\/strong>. Com o crescimento populacional nas \u00e1reas rurais e urbanas pr\u00f3ximas aos bananais, o inseto encontrou uma fonte abundante de alimento (sangue) para completar seu ciclo reprodutivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. O impacto da enchente de 2008 \ud83c\udf0a<\/strong><br>A cat\u00e1strofe deixou uma quantidade imensa de mat\u00e9ria org\u00e2nica em decomposi\u00e7\u00e3o (lama, restos vegetais, animais), o que pode ter gerado um &#8220;boom&#8221; inicial de maruins. No entanto, Corr\u00eaa pondera que esse efeito tende a se normalizar com o passar dos anos \u2014 o que n\u00e3o ocorreu devido \u00e0 continuidade dos outros fatores.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O vetor da Febre do Oropouche e a falta de controle eficaz \ud83e\udd9f\u26a0\ufe0f<\/h3>\n\n\n\n<p>O maruim n\u00e3o \u00e9 apenas um inc\u00f4modo. Ele \u00e9 o <strong>principal vetor da Febre do Oropouche<\/strong>, doen\u00e7a viral que tem se espalhado pelo Brasil (conforme reportagem anterior do g1, estima-se 5,5 milh\u00f5es de infectados no pa\u00eds). Os sintomas incluem dor de cabe\u00e7a, dores musculares, n\u00e1useas e, em casos raros, complica\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da gravidade da infesta\u00e7\u00e3o, ainda <strong>n\u00e3o h\u00e1 uma subst\u00e2ncia comprovadamente eficaz<\/strong> para o controle do inseto em larga escala. A prefeitura de Ilhota informou que est\u00e1 em fase de contrata\u00e7\u00e3o de uma empresa especializada (a <strong>N\u00f3rio<\/strong>, de Joinville) para a realiza\u00e7\u00e3o de <strong>testes t\u00e9cnicos experimentais<\/strong> com um produto potencialmente eficaz. A mesma empresa j\u00e1 havia sido financiada pela Fapesc para testes na vizinha Luiz Alves, que entrou em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia devido aos maruins em 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>A Empresa de Pesquisa Agropecu\u00e1ria e Extens\u00e3o Rural de Santa Catarina (Epagri) reconhece a gravidade, mas afirma que a aus\u00eancia de dados hist\u00f3ricos sobre o n\u00edvel populacional do inseto impede a confirma\u00e7\u00e3o estat\u00edstica do aumento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Como \u00e9 a picada do maruim? \ud83e\udd14<\/h3>\n\n\n\n<p>Diferentemente dos pernilongos e do mosquito da dengue, que inserem suas pe\u00e7as bucais como uma inje\u00e7\u00e3o, o maruim <strong>precisa cortar a superf\u00edcie da pele<\/strong> para que o sangue saia e, ent\u00e3o, se alimentar. Isso explica por que a picada \u00e9 particularmente irritante e dolorosa, deixando marcas e coceira que podem durar dias.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O que se espera para o futuro?<\/h3>\n\n\n\n<p>A prefeitura de Ilhota aguarda a contrata\u00e7\u00e3o da empresa para iniciar os testes. Enquanto isso, a popula\u00e7\u00e3o segue em estado de alerta, trancada em casa e usando roupas compridas at\u00e9 nos dias mais quentes. O pesquisador Caio Cezar Corr\u00eaa resume o cen\u00e1rio: <em>&#8220;A din\u00e2mica populacional j\u00e1 estava desenfreada antes, mas a soma dos fatores influenciou que esse aumento fosse ainda maior.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o, segundo ele, exige uma abordagem integrada: <strong>manejo correto dos bananais<\/strong> (com destina\u00e7\u00e3o adequada dos troncos ap\u00f3s a colheita), <strong>controle populacional do inseto<\/strong> (quando houver tecnologia dispon\u00edvel) e <strong>vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica<\/strong> para a Febre do Oropouche.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ora, os moradores de Ilhota seguem \u00e0 merc\u00ea de um mosquito min\u00fasculo, mas que mudou completamente sua rotina e sua rela\u00e7\u00e3o com o ambiente em que vivem.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>\ud83d\udd0d Resumo da Infesta\u00e7\u00e3o de Maruins em Ilhota (SC)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-fixed-layout\"><thead><tr><th class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Aspecto<\/th><th class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Informa\u00e7\u00e3o<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Local de maior incid\u00eancia<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Morro do Ba\u00fa, \u00e1rea rural de Ilhota (Vale do Itaja\u00ed)<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Esp\u00e9cie<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><em>Culicoides paraensis<\/em> (maruim ou mosquito-p\u00f3lvora)<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Principal criadouro<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Troncos de bananeira em decomposi\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a colheita<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Fatores agravantes<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Enchente de 2008 (mat\u00e9ria org\u00e2nica), manejo inadequado das planta\u00e7\u00f5es, aumento populacional humano<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Doen\u00e7a transmitida<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Febre do Oropouche (vetor principal)<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Impacto na popula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Casas sempre fechadas, uso de roupas compridas e repelente, dificuldade para atividades ao ar livre<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Controle atual<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">Nenhum eficaz; testes experimentais com produto da empresa N\u00f3rio em fase de contrata\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\"><strong>Temperatura registrada<\/strong><\/td><td class=\"has-text-align-left\" data-align=\"left\">At\u00e9 34\u00b0C (moradores mant\u00eam casas fechadas mesmo com calor extremo)<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pequeno mosquito, cuja picada corta a pele e causa coceira intensa, prolifera em troncos de bananeira em decomposi\u00e7\u00e3o; moradores do Morro do Ba\u00fa vivem de portas e janelas fechadas, mesmo com calor de 34\u00b0C, e aguardam solu\u00e7\u00e3o para conter o inseto que tamb\u00e9m pode transmitir a Febre do Oropouche H\u00e1 pelo menos 18 anos, os &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":857,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-856","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=856"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/856\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":858,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/856\/revisions\/858"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/capitalsaudeebemestar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}