Clareza em Alta: Como a Escrita Científica em Saúde Está se Transformando para Ser Mais Direta e Atraente
Análise de 20 milhões de resumos publicados em 70 anos revela tendência de frases mais curtas, uso de primeira pessoa e linguagem mais assertiva, com o objetivo de aumentar a compreensão e o impacto das pesquisas.

A imagem tradicional do artigo científico, repleto de jargões impenetráveis e de uma voz impessoal e distante, está passando por uma transformação silenciosa, porém profunda. Um estudo abrangente publicado na revista Scientometrics analisou quase 21 milhões de resumos de artigos de medicina e saúde publicados em inglês entre 1950 e 2021 e revelou uma mudança marcante no estilo da escrita acadêmica. Os textos estão se tornando mais diretos, chamativos e engajadores. Esta reportagem, baseada no artigo da Revista Pesquisa FAPESP que detalha essa pesquisa, explora as razões por trás dessa evolução – um esforço dos cientistas para serem melhor compreendidos e lembrados em um mar de publicações – e as implicações dessa nova forma de comunicar a ciência.
O Estudo: Uma Análise em Grande Escala da Linguagem
A pesquisa, conduzida por ecologistas da Universidade de Adelaide, na Austrália, utilizou métodos computacionais para escanear milhões de resumos disponíveis no banco de dados PubMed. Eles buscaram padrões em elementos como o tamanho das frases, o uso de verbos e substantivos, a frequência de termos que denotam incerteza (como “talvez” ou “aparentemente”) e a adoção da primeira pessoa (usando “nós”). O trabalho oferece um retrato objetivo de como a comunicação na área da saúde vem mudando ao longo de décadas, saindo de um estilo canônico e técnico para uma narrativa mais fluida.
Principais Achados: A Busca por Clareza e Engajamento
A análise apontou várias tendências claras que convergem para uma escrita mais acessível:
- Frases Mais Curtas e Diretas: O número médio de palavras por frase caiu drasticamente, de 29 em 1960 para menos de 15 em 2021. Para especialistas em edição científica, como Sigmar de Mello Rode, da Associação Brasileira de Editores Científicos (Abec-Brasil), essa é uma mudança muito positiva, que favorece a concisão e a objetividade.
- Menos Incerteza, Mais Assertividade: O uso de palavras de atenuação (“poderia”, “possivelmente”) caiu quase pela metade desde os anos 1950. Os autores estão optando por formulações mais informativas e diretas, como “houve maior risco” em vez de “o risco foi diferente”.
- A Voz do Pesquisador em Primeira Pessoa: A escrita em primeira pessoa, antes desencorajada, ganhou espaço constante, gerando maior empatia e engajamento. O linguista Carlos Vogt, pesquisador da Unicamp, vê nisso uma mudança central: “o estilo da escrita científica caminha para uma narrativa mais pessoal, revelando o engajamento e as relações do pesquisador com aquilo que está sendo dito”.
- O Duplo Aumento de Verbos e Substantivos: Desde os anos 1980, e acelerando nos anos 2000, os textos passaram a usar mais verbos e substantivos. Para os autores do estudo, isso indica um esforço para criar mais imagens mentais e fluidez narrativa.
Tensões e Riscos: Entre a Clareza e o Sensacionalismo
A reportagem também destaca críticas e nuances importantes. O especialista em redação científica Gilson Volpato, da Unesp, observa que o uso da primeira pessoa pode ser mais uma forma de indicar que os resultados não são verdades absolutas do que uma busca por engajamento. Ele também expressa ceticismo sobre a possibilidade de artigos altamente técnicos serem totalmente acessíveis ao público leigo.
Além disso, o estudo identificou um aumento preocupante no uso de uma linguagem “sensacionalista”, com termos como “convincente”, “primordial” e “emergente”. Sean Connell, autor principal, alerta: “Há um custo em termos de credibilidade. Se os cientistas começarem a desconfiar da forma como seus colegas estão descrevendo seus dados, o público e os políticos… podem também se sentir menos seguros. Isso coloca a reputação da ciência em risco”.
Implicações para a Comunicação Científica
A evolução da escrita científica reflete um momento crítico de busca por maior abertura e acessibilidade. A clareza não é apenas uma questão de estilo, mas uma estratégia para ampliar o impacto e a confiabilidade da ciência. Como apontou Mônica Ramos Daltro, psicóloga e professora de escrita científica, a busca pela objetividade é positiva, mas é crucial não esvaziar a complexidade e a reflexão crítica em nome da simplificação. No fim, o equilíbrio entre ser compreensível e preciso, entre ser atraente e manter o rigor, parece ser o grande desafio contemporâneo para quem produz e comunica conhecimento.
Fonte da Reportagem
Artigo Base: “Escrita científica em saúde e medicina está mais direta e chamativa”
Publicado em: Revista Pesquisa FAPESP
Link para a reportagem original: https://revistapesquisa.fapesp.br/escrita-cientifica-em-saude-e-medicina-esta-mais-direta-e-chamativa/
Observação: A reportagem da FAPESP sintetiza os achados do estudo científico “The evolution of scientific writing: An analysis of 20 million abstracts over 70 years in health and medical science”, publicado na revista Scientometrics em junho de 2025.




