Efeito Colateral Perigoso: Investigação Alerta para Casos de Pancreatite em Usuários de Medicamentos Injetáveis para Emagrecimento
Agências reguladoras no Brasil e nos EUA monitoram reações adversas graves associadas a remédios que viraram febre; especialistas reforçam alerta sobre uso sem prescrição e acompanhamento médico.

Um alerta circula entre agências de saúde e comunidades médicas: casos de pancreatite – uma inflamação grave e potencialmente fatal do pâncreas – estão sendo investigados em pacientes que utilizam medicamentos injetáveis à base de semaglutida e liraglutida, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. A febre por esses remédios, impulsionada por promessas de rápida perda de peso, esconde um risco subjacente que preocupa autoridades.
As investigações, conforme reportado inicialmente, têm como base notificações de eventos adversos. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) mantém um sistema de farmacovigilância onde tais relatos são coletados. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) segue o mesmo rastro, monitorando as reações comunicadas por profissionais de saúde e cidadãos. É crucial destacar que a mera existência de uma investigação não estabelece uma relação causal direta e definitiva, mas aciona um sinal de alerta para um estudo mais aprofundado.
O Fenômeno das “Canetas” e os Riscos Conhecidos
Os medicamentos em questão (como Ozempic® e Saxenda®, entre outros) são originalmente desenvolvidos e aprovados para o tratamento do diabetes tipo 2 e, em dosagens específicas, para obesidade. Eles pertencem à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, que atuam no organismo aumentando a sensação de saciedade, atrasando o esvaziamento gástrico e regulando a insulina.
A pancreatite, no entanto, já figura na bula desses produtos como uma possível reação adversa, identificada nos ensaios clínicos que precederam a aprovação. O que as novas notificações fazem é trazer à tona a manifestação desse risco no “mundo real”, fora do ambiente controlado dos estudos, especialmente em um contexto de uso ampliado – e por vezes, indiscriminado.
“Quando um medicamento sai do espectro restrito de uma indicação precisa e vira um fenômeno de consumo amplo, a vigilância precisa ser redobrada”, explica um farmacologista consultado para esta reportagem, que pediu para não ser identificado. “A pancreatite é uma condição séria. Seus sintomas – dor abdominal intensa que irradia para as costas, náusea e vômito – exigem atendimento médico imediato.”
O Perigo da Automedicação e do Mercado Paralelo
Parte significativa da preocupação das autoridades reside no uso fora das indicações aprovadas e sem supervisão. A busca por soluções rápidas para a perda de peso tem levado pessoas sem diagnóstico de obesidade ou diabetes a procurar essas “canetas”, muitas vezes adquirindo-as em farmácias de manipulação ou em canais ilegais na internet, sem prescrição ou acompanhamento.
Essa prática eleva exponencialmente os riscos. A dosagem pode ser inadequada, a procedência do princípio ativo duvidosa, e não há monitoramento de efeitos colaterais ou interações com outros medicamentos. “Não se trata de um produto estético, é um medicamento de alto poder farmacológico. Seu uso deve ser iniciado e acompanhado por um médico, que fará a avaliação de riscos e benefícios para aquele paciente específico”, alerta a endocrinologista Dra. Claudia Cozer, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Posicionamento das Autoridades e Orientações ao Público
Tanto a Anvisa quanto o FDA mantêm suas recomendações oficiais inalteradas: os produtos permanecem aprovados para suas indicações específicas, com seus riscos conhecidos e descritos nas bulas. No entanto, o fluxo de notificações é contínuo e, se necessário, as agências podem emitir novos comunicados ou até revisar as condições de uso.
A principal orientação para a população é clara:
- Consulta Médica é Obrigatória: Nunca inicie o uso por conta própria ou por indicação não profissional.
- Sinais de Alerta: Busque atendimento urgente se sentir dor abdominal forte e persistente após o uso.
- Fontes Confiáveis: Adquira o medicamento apenas com prescrição em farmácias regulares, evitando manipulações e fontes não fiscalizadas.
- Informação Verdadeira: Desconfie de promessas milagrosas e de relatos isolados de sucesso nas redes sociais.
A busca pelo corpo ideal não pode colocar em risco a saúde fundamental. O caso em investigação serve como um lembrete contundente de que atalhos farmacológicos, especialmente sem o devido suporte médico, podem levar a destinos perigosos e inesperados. A vigilância continua, e a responsabilidade no consumo é a primeira barreira de proteção.




