Da rejeição à celebração: como a vacina brasileira contra dengue fez Lula e Tarcísio superarem divisões políticas
Em um raro momento de convergência em um ano eleitoral marcado por polarizações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), celebraram juntos um mesmo feito: o início da aplicação da Butantan-DV, a primeira vacina brasileira contra a dengue. O imunizante, desenvolvido pelo Instituto Butantan, órgão vinculado ao governo paulista, e incorporado em tempo recorde ao SUS pelo Ministério da Saúde federal, virou um símbolo de pragmatismo político e de vitória da ciência nacional, sepultando os fantasmas da desconfiança que marcaram a resposta à Covid-19.

O contraste histórico é inescapável. Em 2020, o então presidente Jair Bolsonaro ordenou ao seu ministro da Saúde que desfizesse um protocolo de compra da Coronavac, tratando a vacina desenvolvida em parceria com o Butantan e a chinesa Sinovac como “a vacina do João Doria” e declarando que o “povo brasileiro não seria cobaia de ninguém”. O atraso resultante, segundo um relatório da CPI da Covid, custou ao menos 12 mil vidas evitáveis. Agora, seis anos depois, o SUS firma uma parceria com outra farmacêutica chinesa, a WuXi Vaccines, para produzir em larga escala a tecnologia 100% nacional do Butantan, em um acordo fechado em apenas 23 dias após a aprovação pela Anvisa.
A Ciência como Palco Político
Ambos os líderes, cada um a seu modo, reivindicam os louros da conquista sem compartilhar o mesmo palco. Tarcísio, evitando contrariar seu eleitorado bolsonarista com grandes alardes nas redes sociais, faz questão de destacar que a vitória é do Butantan e, por extensão, do estado que governa. “É a vitória da ciência, é a vitória da inovação, é a vitória do Butantan”, afirmou o governador.
Já o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tem sido o porta-voz entusiasmado do governo federal, vestindo o colete do SUS para aplicar as primeiras doses no projeto-piloto de Botucatu (SP) e enfatizando o caráter nacional do imunizante. Lula, que chegou a promover um evento no Planalto em fevereiro de 2025 para lançar a vacina oficialmente, mantém-se otimista, mesmo ciente de que a maioria da população adulta ainda terá de esperar.
O Desafio da Escala: Produção Limitada e Espera por Vacinação em Massa
A celebração política esbarra em uma realidade logística dura. Apesar dos esforços conjuntos, a capacidade de produção atual ainda é baixa. A parceria com a WuXi Vaccines da China visa multiplicar a fabricação, mas a previsão do Ministério da Saúde é de que apenas 25 a 30 milhões de doses estejam disponíveis ainda em 2026. Isso significa que o público-alvo completo da Butantan-DV – cerca de 28 milhões de brasileiros entre 15 e 59 anos – só deve estar imunizado daqui a dois ou três anos.
Enquanto isso, o SUS segue dependente de um imunizante estrangeiro para parte da população. Para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, o sistema público oferece a vacina japonesa Qdenga, cuja compra de 9 milhões de doses para 2026 foi garantida e que agora será distribuída para todos os municípios brasileiros. O Butantan, por sua vez, já iniciou estudos clínicos para testar a segurança da Butantan-DV em idosos de 60 a 79 anos, grupo com maior risco de mortalidade pela dengue.
Um Símbolo que Vai Além da Dengue
Mais do que uma arma contra uma arbovirose que matou 6 mil pessoas em 2024, a Butantan-DV se transformou em um trunfo político. Para Tarcísio, é a prova da competência da máquina pública estadual e uma forma de distanciar seu governo do negacionismo científico do bolsonarismo sem confrontá-lo diretamente. Para Lula e Padilha, é a materialização do discurso de valorização da saúde pública, da ciência nacional e do SUS.
A vacina que começou a ser aplicada em Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e Botucatu (SP) carrega, portanto, o peso de superar uma era de desconfiança. Ela testemunha que, quando a política dá espaço à técnica, é possível repetir o sucesso da vacinação contra Covid-19, mas desta vez sem o atraso inicial que custou milhares de vidas. Como resumiu Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa: “Essa é a diferença. Produzir só é importante quando a tecnologia não é sua. […] Esse é o trunfo”.
- Vacina Butantan-DV: Primeira vacina brasileira contra a dengue, de dose única. Tecnologia 100% nacional do Instituto Butantan.
- Público-alvo inicial no SUS: Profissionais de saúde da atenção primária (a partir de 9/fev) e, em projeto-piloto, adultos de 15 a 59 anos de três cidades (Maranguape/CE, Nova Lima/MG, Botucatu/SP).
- Eficácia: 74% contra a infecção e 91% contra a forma grave da doença.
- Disponibilidade em massa: A vacinação para todos os adultos de 15 a 59 anos depende do aumento da produção pela parceria com a China. A previsão é de que isso ocorra gradualmente ao longo de 2026 e 2027.
- Outras vacinas no SUS:
- Qdenga (japonesa): Para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Duas doses. Já disponível em todas as UBS do país.
- A Butantan-DV também é estudada para idosos (acima de 60 anos), mas ainda não tem autorização para esse grupo.




