Custo versus Prevenção: A Rejeição da Vacina de Herpes-Zóster que Divide Especialistas e SUS
A decisão da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) de rejeitar a vacina contra herpes-zóster para idosos e imunossuprimidos, agora oficializada, desencadeou um debate que vai muito além da burocracia. Enquanto o Ministério da Saúde justifica a medida com o impacto orçamentário estratosférico de R$ 5,2 bilhões em cinco anos, especialistas em infectologia contra-argumentam que a não incorporação é míope e onerosa a longo prazo, deixando desprotegidos os mais vulneráveis.

A negativa, publicada no Diário Oficial da União, mantém o imunizante restrito à rede privada, onde o esquema completo de duas doses da vacina recombinante adjuvada (Shingrix) custa cerca de R$ 1.800. O Ministério reconheceu a importância da vacina, mas afirmou que o laboratório responsável, até o momento, não apresentou uma nova proposta de preço que tornasse a incorporação viável.
O Argumento da Economia em Xeque: Tratar é Mais Barato que Prevenir?
O cerne do impasse é uma análise de custo-efetividade que gerou reações contundentes da comunidade médica. Para o Ministério, o montante é proibitivo. “Para efeito de comparação, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular custaram R$ 4,2 bilhões no ano passado”, comparou a pasta em nota.
Infectologistas, no entanto, desafiam essa lógica. “Investir na vacina sai mais barato do que tratar a doença”, afirma Evaldo Stanislau, da São Judas Inspirali. Ele detalha que o custo do tratamento com antivirais, medicamentos para dor crônica (neuralgia pós-herpética), exames e consultas médicas repetidas supera, a longo prazo, o investimento em prevenção. Leandro Curi, do Hospital Felício Rocho, lamentou profundamente a ausência no SUS de “uma vacina tão promissora, com resposta imune tão significativa”.
A decisão parece contradizer uma promessa do próprio ministro Alexandre Padilha, que em abril de 2025 afirmou que a vacina era “uma prioridade” da pasta, com a intenção de realizar “grandes campanhas de vacinação”.
A Doença e a Vacina: Uma Ameaça Silenciosa Reativada
O herpes-zóster, ou “cobreiro”, é causado pela reativação do vírus da catapora, que permanece dormente no sistema nervoso. Segundo o CDC dos EUA, cerca de 30% das pessoas terão a doença uma vez na vida. A reativação é comum com o envelhecimento ou em situações de baixa imunidade, como em pacientes com HIV, câncer ou diabetes.
A vacina em questão, a Shingrix, é considerada um avanço. Diferente da geração anterior (com vírus vivos atenuados), ela é recombinante (com vírus inativado) e adjuvada, o que garante uma resposta imunológica mais robusta e segura, inclusive para pessoas já imunocomprometidas. Seu esquema é de duas doses, com intervalo de 2 a 6 meses.
Especialistas alertam que sem a vacina, não há estratégia preventiva eficaz. “Há pouco que se possa fazer”, resume Sumire Sakabe, do Hospital Nove de Julho. Manter a saúde imunológica ajuda, mas não garante proteção.
Um Futuro Incerto e a Pressão por Revisão
A portaria deixa uma janela aberta: a matéria pode ser reavaliada caso surjam “fatos novos”, como uma redução significativa de preço. A bola, agora, está com o laboratório fabricante.
Enquanto a negociação não avança, a decisão consolida um cenário de dupla porta no país: a proteção avançada ficará disponível apenas para quem pode pagar R$ 1.800, enquanto idosos e doentes crônicos dependentes do SUS seguirão expostos ao risco de uma doença dolorosa e potencialmente debilitante.
- O que é Herpes-Zóster: Reativação do vírus da catapora, que causa erupções cutâneas dolorosas em faixas, geralmente em um lado do corpo. Pode levar a dor crônica (neuralgia pós-herpética).
- Quem é mais vulnerável: Pessoas acima de 50 anos, idosos (principalmente acima de 80) e qualquer indivíduo com imunidade baixa (com HIV, em quimioterapia, transplantados).
- Vacina no Mercado Privado: A vacina Shingrix (GSK) está disponível em clínicas privadas. Esquema de duas doses, custo total aproximado de R$ 1.800.
- Tratamento no SUS: Mantém-se o protocolo atual: cuidados para alívio dos sintomas e, para grupos de risco, o antiviral aciclovir.
- A Decisão Pode Mudar: A incorporação pode ser revista se o preço da vacina for reduzido substancialmente após negociação entre o Ministério da Saúde e o laboratório.




