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Do Fio Dental ao Cérebro: Como a Saúde Bucal Pode Blindar o Coração e Evitar AVCs

Uma simples rotina noturna de higiene, frequentemente negligenciada, pode ser uma poderosa ferramenta de prevenção contra uma das maiores causas de morte e incapacidade no mundo. Um estudo apresentado pela American Heart Association (AHA) coloca o fio dental no centro de um alerta médico: seu uso regular e correto pode reduzir em até 44% o risco de um tipo específico de Acidente Vascular Cerebral (AVC), o cardioembólico. A descoberta vai além da cárie ou do mau hálito e revela uma conexão vital e pouco conhecida entre a inflamação crônica da gengiva e a saúde do sistema cardiovascular.

O AVC cardioembólico, foco da pesquisa, ocorre quando coágulos formados no coração ou nos grandes vasos se desprendem e viajam até o cérebro, obstruindo uma artéria. O elo entre esse evento grave e a escovação noturna reside em um processo silencioso e perigoso: a periodontite (doença gengival avançada). “As bactérias presentes no biofilme dental, principalmente quando existe doença periodontal já instalada, podem penetrar na corrente sanguínea e se alojar no coração”, explica o professor de Odontologia Gerdal Sousa, do UniArnaldo. Esse processo pode levar a quadros graves como endocardite infecciosa e aterosclerose.

O Elo Inflamatório: Da Gengiva às Artérias

O mecanismo por trás dessa ligação é a inflamação sistêmica. Uma gengiva inflamada e sangrante não é um problema localizado. Ela funciona como uma porta de entrada permanente para bactérias na corrente sanguínea. Em resposta a essa infecção crônica, o fígado aumenta a produção de Proteína C-reativa (PCR), um conhecido marcador inflamatório.

Níveis persistentemente elevados de PCR no sangue estão diretamente associados a danos nos vasos sanguíneos e ao acúmulo de placas ateroscleróticas nas artérias. “A inflamação crônica da gengiva pode favorecer o processo de aterosclerose, que é o acúmulo de placas de gordura e inflamação nas artérias”, detalha o dentista e periodontista Ricardo Chaguri. Essas placas, instáveis, são o terreno perfeito para a formação dos coágulos que podem levar a infartos e AVCs.

Prevenção com Técnica: Não Basta Apenas Passar o Fio

Os especialistas são unânimes em afirmar que a chave para o benefício está na regularidade e na técnica correta. O uso deve ser diário, preferencialmente à noite. “Durante a noite temos uma diminuição do fluxo salivar, e a boca seca favorece a instalação de cáries e doença periodontal”, alerta o professor Gerdal Sousa.

A técnica errada, no entanto, pode causar mais danos do que benefícios. O movimento deve ser suave, contornando cada dente em forma de “C”, sem ser jogado com força contra a gengiva, o que pode feri-la e criar novas portas de entrada para bactérias. O objetivo é remover a placa bacteriana da região onde a escova não alcança, sem agredir o tecido gengival.

Um Novo Paradigma para a Saúde Pública

A implicação desse estudo transcende o consultório odontológico. Ele reforça um conceito moderno da medicina: o corpo é um sistema integrado. Uma infecção bucal não tratada é um fator de risco modificável para doenças cardiovasculares, assim como o colesterol alto ou a hipertensão.

Para a saúde pública, a mensagem é clara: investir em educação para higiene bucal e acesso a cuidados odontológicos pode ser uma estratégia eficaz e de custo-benefício para reduzir a incidência de AVCs. Cuidar da saúde da boca deixa de ser uma questão apenas estética ou de preservação dentária, mas um pilar fundamental da medicina preventiva. Como conclui Ricardo Chaguri, “cuidar bem dos dentes e das gengivas vai muito além da estética, é uma forma de prevenir doenças e manter o organismo em equilíbrio”.


  • Fio Dental é Prevenção: Seu uso diário e correto é um hábito que protege o coração e o cérebro, podendo reduzir drasticamente o risco de um AVC.
  • Sangramento é Alerta: Gengivas que sangram durante a passagem do fio ou escovação não são normais. É um sinal de inflamação (gengivite) que precisa de avaliação de um dentista.
  • A Técnica Importa: Movimente o fio suavemente, contornando cada dente. Evite serrar a gengiva.
  • Consulta Regular: Visitas periódicas ao dentista são essenciais para diagnosticar e tratar doenças gengivais antes que se tornam um problema de saúde sistêmico.

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