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Novo fármaco para Alzheimer marca era de tratamentos modificadores, mas acesso e custo impõem barreiras

Pela primeira vez, o Brasil tem acesso a um tratamento que não se limita a aliviar os sintomas do Alzheimer, mas atua sobre um dos mecanismos biológicos da doença. A aprovação do Leqembi (lecanemabe) pela Anvisa marca um ponto de virada histórico após décadas de avanços modestos, mas inaugura desafios complexos de logística, custo e seleção precisa de pacientes.

Leqembi — Foto: Reuters

Diferente de todos os medicamentos anteriores, o Leqembi é um anticorpo monoclonal que tem como alvo a proteína beta-amiloide, cujo acúmulo em placas no cérebro é uma das marcas patológicas do Alzheimer. Seu objetivo é reduzir ativamente essa carga amiloide, desacelerando o processo de neurodegeneração.

Eficácia Modesta, Significado Monumental

Os resultados que embasaram a aprovação vieram de um ensaio clínico de fase 3, publicado no New England Journal of Medicine. O estudo, com 1.795 participantes com Alzheimer em fase prodrômica ou leve, mostrou que, após 18 meses de infusões quinzenais, o Leqembi reduziu o declínio cognitivo e funcional em 27% em comparação com o placebo, conforme medido pela escala CDR-SB.

“Ter a opção de remover as placas e desacelerar esse processo faz diferença”, avalia o pesquisador Eduardo Zimmer, do Hospital Moinhos de Vento. Ele ressalta, porém, que o benefício é modesto e mensurável principalmente em escalas clínicas, não necessariamente óbvio no dia a dia de todos os pacientes. A grande esperança é que, ao intervir mais cedo, esse desacelerar inicial possa significar anos a mais de independência funcional.

Critérios Rígidos e Riscos Específicos

O tratamento está longe de ser uma solução universal. Ele é estritamente indicado para pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve devido ao Alzheimer, e só após confirmação da presença de placas de beta-amiloide por PET-SPECIALIZADO ou análise do líquor.

Os efeitos adversos exigem atenção. Cerca de 12,6% a 26,4% dos pacientes no estudo apresentaram as chamadas ARIA (Anormalidades Relacionadas à Imagem da Amiloide), que incluem edemas cerebrais (ARIA-E) ou micro-hemorragias (ARIA-H). A maioria é assintomática e detectada apenas em ressonâncias de rotina, mas uma minoria pode apresentar dores de cabeça, confusão ou tontura.

O Obstáculo do Custo e a Infraestrutura Necessária

O preço é uma barreira substancial. Nos Estados Unidos, o custo direto do medicamento gira em torno de US$ 26.500 anuais. No Brasil, o valor ainda não foi definido para o SUS ou planos de saúde. Além do fármaco, é necessário somar os custos de:

  • Diagnóstico preciso: PET-amiloide ou punção lombar.
  • Infusão: Aplicação por via intravenosa a cada 14 dias em ambiente clinicamente supervisionado.
  • Monitoramento: Múltiplas ressonâncias magnéticas para rastrear ARIA.

“Estamos apenas no começo… é preciso colocar tudo na balança, selecionar muito bem os pacientes e avaliar se vale a pena”, pondera o neurologista Helder Picarelli, do ICESP.

Um Primeiro Degrau, Não o Teto

Especialistas veem o Leqembi não como ponto final, mas como a abertura de um novo caminho terapêutico. “A cada degrau, a gente vai avançando, ainda que de forma lenta”, afirma Renato Anghinah, professor da FMUSP. A próxima fronteira está em testes com indivíduos assintomáticos, mas com biomarcadores positivos para amiloide, visando a prevenção antes do início dos sintomas.

A chegada do Leqembi ao Brasil impõe uma reflexão urgente sobre a necessidade de estruturar uma rede de diagnósticos precisos e centros de infusão, além de um debate transparente sobre o custo-efetividade de terapias de alto impacto financeiro para o sistema de saúde.


  • Alvo Específico: O Leqembi é apenas para Alzheimer em estágio inicial (comprometimento cognitivo leve a demência leve), com confirmação de placas de amiloide.
  • Não é Cura: O tratamento visa desacelerar a progressão da doença, não revertê-la ou curá-la.
  • Monitoramento Essencial: O uso exige acompanhamento médico rigoroso, com exames de imagem periódicos para segurança.
  • Sinais de Alerta: Dificuldade de memória que afeta atividades cotidianas, desorientação, mudanças de humor ou julgamento devem levar a uma avaliação neurológica.

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