Drauzio Varella acusa plataformas de serem “sócias” de criminosos e alerta para o avanço das fake news em saúde
Em painel promovido pelo UOL e Portal Drauzio Varella, médico afirmou que algoritmos criam uma “falsa sensação de verdade” e que golpistas já usam inteligência artificial para clonar sua voz e vender produtos falsos

O médico Drauzio Varella fez uma defesa contundente da regulação das plataformas digitais durante um painel sobre consumo de medicamentos, realizado ontem (18) em São Paulo. Para ele, a falta de responsabilização das redes sociais transformou a internet em um ambiente fértil para a disseminação de desinformação em saúde, vacinas e tratamentos — e as plataformas não são meras espectadoras.
“Tem estelionatários que usam a internet para vender produtos falsos em sociedade com as plataformas. A plataforma faz parte dessas quadrilhas todas que agem dessa maneira.”
O evento, promovido pelo Portal Drauzio Varella e pelo UOL e mediado pela colunista de VivaBem Lucia Helena de Oliveira, reuniu ainda Bruno Pipponzi, vice-presidente de Negócios de Saúde da RD Saúde (RaiaDrogasil), para discutir os riscos e desafios do consumo de medicamentos no Brasil.
“O criminoso não responde. E a plataforma é sócia”
Drauzio foi enfático ao criticar a impunidade que cerca a desinformação. Ele citou como exemplo os discursos antivacina, que classificou como “um crime contra a saúde pública”.
“Você vê as pessoas falando absurdos, falando, por exemplo, contra as vacinas, cometendo um crime contra a saúde pública, e não acontece nada. O criminoso não responde. E a plataforma é sócia porque espalha aquilo que foi dito.”
Segundo o médico, o fenômeno vai além da circulação de opiniões equivocadas e alcança esquemas organizados de fraude.
A “falsa sensação de verdade” criada pelos algoritmos
Drauzio explicou que a forma como os algoritmos distribuem conteúdo distorce a percepção da realidade. Para ilustrar, contou que, após receber um vídeo de animais selvagens, passou a receber conteúdos semelhantes repetidamente, sempre mostrando predadores fracassando na caça.
“Se eu só ficasse com esse tipo de informação, ia concluir que os predadores africanos morrem de fome porque são destruídos pelas presas.”
Para o médico, o mesmo fenômeno ajuda a explicar por que tantas pessoas acabam acreditando em conteúdos sem base científica.
“Hoje a informação não passa por nenhum crivo. Ela aparece no celular obedecendo a um algoritmo que cria uma falsa sensação de verdade.”
Uso indevido de imagem e clonagem de voz por IA
Drauzio também revelou que sua imagem é frequentemente usada por golpistas para promover medicamentos falsos na internet. Segundo ele, criminosos chegaram a criar cursos ensinando a reproduzir sua voz com inteligência artificial para fazer propaganda de produtos em seu nome.
Ele citou uma reportagem do UOL em que uma jornalista se inscreveu em um desses cursos e constatou que centenas de pessoas haviam pago pela capacitação. O caso escancara como a desinformação em saúde se tornou um negócio lucrativo, alimentado por golpistas e, na visão de Drauzio, pela conivência das plataformas.
Canetas emagrecedoras e o risco do uso sem supervisão
O debate também abordou a popularização das chamadas canetas emagrecedoras (agonistas do GLP-1), usadas no tratamento da obesidade. Bruno Pipponzi afirmou que os medicamentos representam um avanço, mas alertou para os riscos do uso sem prescrição.
“Se a gente começar deliberadamente a injetar essas medicações sem prescrição e sem supervisão, isso pode virar um problema de saúde pública muito grande.”
Segundo ele, muitas pessoas passaram a enxergar os medicamentos como um atalho para o emagrecimento, ignorando alimentação, atividade física e questões emocionais.
“As pessoas estão adiando a compra de uma televisão ou a troca de um celular para financiar um tratamento com semaglutida. Isso virou um item de luxo.”
“Medicalização da vida”: o alerta sobre ansiedade e insônia
Outro tema que chamou atenção foi o crescimento do uso de medicamentos para lidar com dificuldades cotidianas. Drauzio argumentou que experiências comuns da vida passaram a ser tratadas como problemas médicos.
“Nós temos hoje uma medicalização da vida mesmo.”
Ele contou que presenciou uma conversa em um aeroporto sobre remédios para ansiedade, na qual pessoas desconhecidas se juntaram espontaneamente para compartilhar experiências.
“A impressão é que toda mulher de 30 anos toma remédio para ansiedade.”
O médico também criticou o uso indiscriminado de medicamentos para dormir e alertou para o risco de dependência.
“Você toma, dorme bem naquela noite, toma de novo na outra, e de repente está dependente.”
Farmácias podem ajudar a desafogar o sistema
Apesar dos desafios, Drauzio e Pipponzi defenderam uma ampliação do papel das farmácias no acompanhamento de pacientes com doenças crônicas. Drauzio destacou que o Brasil possui cerca de 90 mil farmácias, mais que o dobro das 44 mil unidades básicas de saúde.
“A capilaridade das farmácias brasileiras é espalhada pelo país inteiro. Em algumas cidades, não tem sentido a gente não usar as farmácias na atenção primária à saúde.”
Pipponzi reforçou que farmacêuticos podem desempenhar papel importante na adesão aos tratamentos e na orientação sobre o uso correto de medicamentos.
Ao encerrar o painel, Drauzio afirmou que o futuro da saúde brasileira passa necessariamente pelo fortalecimento da atenção primária e pelo controle adequado das doenças crônicas.
O contexto da desinformação em saúde no Brasil
As falas de Drauzio ecoam um cenário alarmante. O Brasil lidera a desinformação sobre vacinas na América Latina. Dados de 2025 mostram que as fake news sobre imunizantes circulam 122,5 vezes mais do que em 2019, e o país concentra 40% de todo o conteúdo antivacina do continente. Os principais temas dessas desinformações incluem alegações falsas de morte súbita, alteração do DNA, envenenamento, câncer e autismo.
O Ministério da Saúde ressalta que a propagação de fake news é um dos fatores que mais impacta a adesão da população às campanhas de imunização, contribuindo para a queda nas coberturas vacinais e para a reemergência de doenças como sarampo e febre amarela. Pesquisas mostram que 70% dos brasileiros já acreditaram em pelo menos uma fake news em saúde.
“As desinformações estão cada dia mais letais” — alertou Drauzio em ocasião anterior.
O combate à desinformação se tornou uma prioridade. O Ministério da Saúde criou um serviço para receber e verificar informações de saúde via aplicativo de mensagens. No Senado, tramita um projeto para tornar crime a divulgação de fake news em saúde. Drauzio, por sua vez, já moveu ações judiciais contra plataformas como Meta.
A mensagem do médico é clara: a desinformação em saúde mata. E, enquanto as plataformas não forem responsabilizadas, o problema tende a se agravar.
🔍 Resumo dos principais pontos do painel
| Tema | Fala de Drauzio Varella |
|---|---|
| Fake news em saúde | Plataformas são “sócias” de criminosos que espalham desinformação sobre vacinas e tratamentos |
| Algoritmos | Criam uma “falsa sensação de verdade” ao repetir conteúdos semelhantes |
| Uso indevido de imagem | Golpistas usam IA para clonar sua voz e vender produtos falsos em seu nome |
| Canetas emagrecedoras | Uso sem supervisão pode se tornar um problema de saúde pública |
| Medicalização da vida | Experiências comuns (ansiedade, insônia) são tratadas como doenças, gerando dependência |
| Papel das farmácias | Podem ajudar na atenção primária, aproveitando a capilaridade da rede |




