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Estudo de maior rigor científico até hoje exime paracetamol de risco de autismo em gestantes

Um estudo considerado o mais rigoroso e abrangente já realizado sobre o tema trouxe um veredito claro e tranquilizador para milhões de gestantes e profissionais de saúde: não há evidência de que o uso de paracetamol durante a gravidez aumente o risco de autismo, TDAH ou deficiência intelectual nas crianças. A meta-análise, publicada na prestigiada revista The Lancet, analisou 43 estudos internacionais e pôs fim a anos de incerteza e desinformação, muitas vezes alimentados por declarações políticas infundadas.

Farmacêutico confere o peso de comprimidos de paracetamol em laboratório de uma farmacêutica nos arredores de Ahmedabad, na Índia, em 4 de março de 2020. — Foto: Amit Dave/Reuters

A pesquisa, descrita como a síntese mais confiável da evidência científica disponível, deu prioridade a um desenho de estudo considerado o “padrão-ouro” para investigar este tipo de questão: a comparação entre irmãos. Ao analisar crianças da mesma família, onde uma foi exposta ao paracetamol durante a gestação e a outra não, os cientistas conseguiram reduzir drasticamente a influência de fatores genéticos e ambientais compartilhados, isolando o efeito real do medicamento.

Resultados Definitivos: Nenhuma Ligação Encontrada

Os números falaram por si. Nas análises mais rigorosas, que compararam irmãos, não foi detectado qualquer aumento de risco clinicamente relevante. Os resultados mostraram uma razão de chances de:

  • 0,98 para autismo (praticamente neutro)
  • 0,95 para TDAH
  • 0,93 para deficiência intelectual

Valores abaixo de 1 indicam ausência de risco aumentado. As conclusões se mantiveram consistentes mesmo ao se analisar apenas estudos de alta qualidade ou com acompanhamento de longo prazo das crianças.

“A evidência atual não indica aumento clinicamente relevante no risco desses transtornos em filhos de gestantes que usaram paracetamol conforme orientação médica”, concluíram os autores do estudo.

Por que Estudos Anuais Geraram Dúvidas

A publicação esclarece por que análises observacionais anteriores, menos robustas, chegaram a sugerir pequenas associações. Esses estudos eram vulneráveis a “fatores de confusão”, ou seja, não conseguiam separar o efeito do remédio do motivo que levou ao seu uso.

A nova meta-análise indica que o que pode influenciar negativamente o neurodesenvolvimento fetal não é o paracetamol em si, mas as condições maternas subjacentes que ele trata, como febre alta, infecções ou dor intensa. Ou seja, o problema estava na doença, não no tratamento seguro para ela.

O Perigo Real da Desinformação e as Recomendações Oficiais

Os pesquisadores fazem um alerta sério: desencorajar o uso apropriado do paracetamol com base em evidências fracas pode causar mais mal do que bem. A febre não tratada na gravidez, por exemplo, está associada a riscos reais e documentados, como parto prematuro e malformações congênitas.

O estudo fortalece as recomendações já estabelecidas por grandes entidades médicas globais, como o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, que mantêm o paracetamol como a primeira opção segura para dor e febre durante a gestação, desde que usado nas doses e no tempo recomendados pelo médico.

A politização do tema, citando declarações recentes do ex-presidente dos EUA Donald Trump que ligavam o medicamento ao autismo sem provas, serve como um caso emblemático de como a desinformação pode gerar ansiedade desnecessária e colocar a saúde pública em risco.


  • Segurança Reafirmada: O maior e mais rigoroso estudo já feito não encontrou ligação entre o uso de paracetamol na gravidez e autismo, TDAH ou deficiência intelectual.
  • Método Confiável: A pesquisa usou a comparação entre irmãos, método que elimina a influência de genética e ambiente familiar, oferecendo resultados mais precisos.
  • Risco Está na Doença, não no Remédio: Condições como febre alta e infecções podem afetar o feto. O paracetamol é uma ferramenta segura para tratar esses problemas.
  • Siga as Recomendações Médicas: Não interrompa o uso de medicação prescrita por temores infundados. Sem tratamento, a dor ou a febre podem representar riscos maiores.
  • Desconfie de Informações sem Base Científica: Declarações alarmistas sem respaldo em estudos robustos, como as feitas recentemente por figuras políticas, podem causar danos reais à saúde pública.

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