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Ivete Sangalo e o Glúten: Por que a Fala da Cantora Acende Alerta de Especialistas Sobre Terrorismo Nutricional

Nutricionista Desire Coelho critica declaração que associa proteína à inflamação generalizada; entenda a diferença entre relato pessoal, evidência científica e os riscos de dietas da moda sem indicaçãoi

Quando uma celebridade do calibre de Ivete Sangalo compartilha um hábito pessoal que atribui a uma transformação física e de bem-estar, milhões de seguidores tendem a prestar atenção. Foi o que aconteceu recentemente, quando a cantora postou em suas redes sociais que a retirada do glúten (proteína presente no trigo, centeio e cevada) e da lactose (açúcar do leite) de sua alimentação foi responsável por uma melhora significativa na sua disposição e por uma sensação de corpo “desinflamado”, chegando a afirmar que sua performance melhorou “100%”.

No entanto, para especialistas em nutrição, a fala, embora genuína como relato pessoal, carrega um risco: o de ser interpretada como uma verdade universal e científica. A nutricionista Desire Coelho, doutora em Ciências pela USP e autora de livros sobre o tema, publicou uma análise contundente no Estadão explicando o que há de problemático nesse tipo de declaração quando desacompanhada do devido contexto.

O Erro Central: Generalizar uma Experiência Individual

O ponto de partida da análise é simples e fundamental: o que faz mal para um, não necessariamente faz mal para todos.

“É certo que, quando uma pessoa tem alergia, intolerância ou qualquer sintoma relacionado a determinado alimento e o retira da dieta, vai se sentir melhor. Mas o fato de o corpo desse indivíduo reagir de certo modo não significa que tal alimento seja inflamatório para todo mundo. Isso é terrorismo nutricional” , escreve Desire.

Ela usa uma analogia didática: se uma pessoa tem alergia a berinjela e apresenta uma resposta inflamatória ao consumi-la, isso significa que a berinjela é inflamatória para a humanidade? Obviamente não.

O Que a Ciência Realmente Diz Sobre o Glúten 🔬

A especialista reconhece que condições reais relacionadas ao glúten existem e são sérias:

· Doença Celíaca: Uma condição autoimune grave, que afeta cerca de 1% da população, e exige a exclusão total e vitalícia do glúten. O diagnóstico é feito por exames de sangue, genéticos e biópsia intestinal.
· Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca: Ainda é um campo em estudo. Dados curiosos mostram que, quando as pessoas se autoavaliam, a prevalência chega a 15%. Porém, em estudos bem conduzidos (com placebo e controle), essa taxa cai para menos de 2% . Além disso, debate-se se o verdadeiro culpado pelos sintomas seria o glúten ou outros componentes do trigo, como os frutanos (um tipo de carboidrato fermentável).

Se Não é Só o Glúten, O Que Pode Estar Acontecendo?

Desire Coelho levanta hipóteses baseadas na ciência dos alimentos para explicar por que algumas pessoas se sentem melhor ao cortar o trigo, sem que isso signifique uma “inflamação generalizada” causada pelo glúten:

  1. Outros Componentes do Trigo: A farinha de trigo contém amido e frutanos, que podem causar desconforto gastrointestinal em pessoas sensíveis a FODMAPs.
  2. Processamento e Aditivos: A farinha branca passa por processamento e recebe aditivos para branqueamento e textura, que podem influenciar a tolerância individual.
  3. Enriquecimento Obrigatório: No Brasil, a farinha é enriquecida por lei com ferro e ácido fólico. Embora seja uma medida de saúde pública essencial, algumas pessoas podem ter sensibilidade a esses componentes adicionados.
  4. Tipo de Fermentação: Produtos com fermentação longa tendem a ser melhor tolerados do que aqueles com fermentação rápida.
  5. Monotonia Alimentar: Este é um ponto crucial. A especialista relata atender pacientes que consomem trigo de 6 a 7 vezes ao dia (pão, bolacha, massa, bolo, sanduíche). O problema pode não ser o glúten, mas o exagero e a falta de variedade. Você comeria couve em todas as refeições? Por que faria sentido com trigo?

Por Que a Crença no “Glúten Inflamatório” se Espalha?

Desire aponta a extrapolação indevida de estudos como a principal causa. Muitas vezes, dados de estudos em animais ou in vitro (em laboratório) são aplicados diretamente a humanos, ignorando que o corpo se adapta e que respostas inflamatórias agudas e pontuais não significam doença crônica.

Além disso, a falta de letramento científico de alguns profissionais os torna vulneráveis a modismos, e a nutrição tem a particularidade de que “todo mundo come, todo mundo tem uma opinião”.

A Mensagem Final: Investigue, Não Imite

A conclusão da nutricionista é um guia para o público:

· Relato pessoal não é evidência científica. A experiência de Ivete é válida para Ivete, especialmente se ela tiver alguma sensibilidade não diagnosticada.
· Se você tem sintomas (inchaço, desconforto intestinal, fadiga), não saia cortando alimentos aleatoriamente. Procure um médico ou nutricionista para investigar a causa real.
· Antes de adotar uma dieta restritiva da moda, pense em como melhorar a qualidade geral das suas refeições: mais variedade, mais alimentos in natura, menos ultraprocessados.

“Quando for impactado por algum conteúdo desse tipo nas redes sociais, em vez de sair cortando alimentos da rotina, pare e pense sobre como melhorar a qualidade de suas refeições. Agora, se você tiver algum sintoma, investigue. Sua saúde física e emocional agradecem” , finaliza.


🔍 O Glúten em Perspectiva: Fatos vs. Ficção

O que se Diz (Mito) O que a Ciência Mostra (Fato)
Glúten é inflamatório para todo mundo. Apenas pessoas com doenças específicas (celíaca, alergia ou sensibilidade comprovada) reagem ao glúten.
Cortar glúten sempre traz benefícios. Para quem não tem indicação, a restrição pode levar a déficits nutricionais e não traz benefício comprovado.
Qualquer desconforto ao comer pão é culpa do glúten. Outros componentes do trigo (frutanos), aditivos ou mesmo o excesso de consumo podem ser os causadores.
Estudos provam que glúten faz mal. Muitos estudos são mal interpretados; a ciência robusta mostra segurança para a população geral.

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