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Tatiana Coelho de Sampaio, a brasileira por trás da polilaminina que reacende esperanças

Pesquisadora da UFRJ dedicou mais de 25 anos ao estudo de uma molécula capaz de regenerar nervos; hoje, entre a euforia popular e o rigor científico, ela alerta: “Ainda há mais perguntas do que respostas”

Por mais de duas décadas, a professora Tatiana Coelho de Sampaio conduziu suas pesquisas longe dos holofotes, como acontece com a maioria dos cientistas brasileiros. Bióloga formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) , onde também fez mestrado e doutorado, com passagens por pós-doutorados nos Estados Unidos e na Alemanha, ela dedicou sua carreira a desvendar os segredos de uma proteína chamada laminina.

Tudo mudou no segundo semestre de 2025. Quando os primeiros resultados de sua pesquisa com a polilaminina – um polímero criado em laboratório a partir da laminina – vieram a público, o nome da cientista de 59 anos saltou dos restritos círculos acadêmicos para as manchetes e redes sociais. De repente, ela se viu no centro de um furacão de esperança para milhares de pacientes com lesões na medula espinhal e suas famílias.

Da Bancada do Laboratório à Comoção Nacional 🔬

A comoção é compreensível. A polilaminina, desenvolvida em parceria com o Laboratório Cristália, age como um estímulo para que os neurônios lesionados “busquem novos caminhos”, restaurando conexões nervosas perdidas. Casos como o do jovem militar Luiz Otávio, no Mato Grosso do Sul, e de Pedro Rolim, que voltou a mover partes do corpo 15 dias após a aplicação, viralizaram e alimentaram a expectativa de um tratamento revolucionário.

No entanto, a própria pesquisadora faz questão de frear o entusiasmo com uma dose de realismo científico. Em entrevista recente, Tatiana reforçou o que sua trajetória de 25 anos de pesquisa lhe ensinou: na ciência, o caminho entre a descoberta e o tratamento seguro e eficaz é longo e cheio de etapas obrigatórias.

O Abismo entre a Esperança e a Evidência 📊

O perfil publicado pela revista Saúde Abril nesta quinta-feira (19) traça um retrato franco desse momento delicado. A polilaminina é real e seus mecanismos são promissores. Mas é crucial entender onde a ciência está agora:

  • Estágio Inicial: Apenas em janeiro de 2026 a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico de Fase 1. O objetivo desta fase é extremamente básico, mas fundamental: avaliar a segurança do medicamento em humanos. A eficácia ainda será testada em fases posteriores, com grupos maiores e metodologias rigorosas (comparação com placebo e duplo-cego).
  • Os Casos Atuais: As aplicações que geraram notícias ocorreram, em sua maioria, por meio de decisões judiciais (uso compassivo). São exceções, não a regra, e não substituem os testes clínicos controlados.
  • A Necessidade de Controle: Um dado científico crucial é que cerca de 15% das pessoas com lesões medulares completas podem recuperar funções motoras espontaneamente, sem qualquer intervenção. Sem estudos comparativos, é impossível afirmar que a melhora veio exclusivamente do medicamento.
  • Limitação Temporal: O estudo atual é voltado para lesões agudas (até 72 horas) . A aplicação em lesões crônicas (mais antigas) ainda é uma incógnita e só foi testada em cães, estando longe de ser uma recomendação para humanos.

O Prêmio Nobel e a Longa Estrada

Nas redes sociais, não é raro ver internautas apontando Tatiana Coelho de Sampaio como uma futura ganhadora do Prêmio Nobel de Medicina. A paixão e o orgulho são justificáveis, mas a pesquisadora prefere manter os pés no chão do laboratório da UFRJ, onde chefia o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular.

A sua história é, acima de tudo, um retrato da ciência de verdade: feita de paixão, persistência e, principalmente, paciência. Ela nos lembra que, por mais revolucionária que uma descoberta pareça, o conhecimento avança em camadas, cada uma delas exigindo tempo, financiamento e rigor.

“Como costuma ser com descobertas que prometem revolucionar a ciência e a medicina, hoje ainda há mais perguntas do que respostas. O que não quer dizer que a molécula tão celebrada não mereça nossa atenção nos próximos anos, mas que a evolução do conhecimento, infelizmente, nem sempre é tão rápida quanto gostaríamos.” – Trecho da reportagem de Saúde Abril.

A face humana da ciência, personificada em Tatiana, é essa: a capacidade de sonhar com a cura, sem nunca perder de vista os limites éticos e metodológicos que garantem que essa cura, quando vier, seja segura para todos.

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