Mapa das Ameaças: As Doenças Infecciosas que Mantêm o Mundo em Alerta em 2026
O recente surto do vírus Nipah na Índia, com sua letalidade assustadora, trouxe de volta à discussão pública o fantasma de novas pandemias. No entanto, para a comunidade de infectologistas, o radar de vigilância para 2026 é muito mais amplo e complexo. Além de monitorar patógenos exóticos de alto impacto, os especialistas mantêm a atenção voltada para vírus respiratórios em mutação, doenças tropicais em expansão e até para uma antiga infecção bacteriana que vive um preocupante ressurgimento no Brasil. O cenário é de alerta constante, onde a ciência precisa estar um passo à frente de ameaças tanto novas quanto recorrentes.

O Nipah, de fato, é um dos protagonistas desse cenário. Com uma taxa de letalidade que varia de 40% a 75% e a falta de vacina ou tratamento específico, ele é uma das maiores preocupações da Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, como explica a infectologista Priscilla Sawada, do Hospital Israelita Albert Einstein, seu risco pandêmico é considerado baixo. “Trata-se de uma doença zoonótica, cuja principal fonte… estão restritas a Ásia, Oceania e parte do leste da África”, diz. Além disso, sua própria letalidade e a necessidade de contato muito próximo para transmissão limitam sua capacidade de disseminação sustentada.
Influenza em Foco: A “Gripe K” e a Ameaça Aviária Persistente
Enquanto o Nipah chama a atenção pela gravidade, os vírus influenza seguem sendo uma preocupação central pela sua ubiquidade e capacidade de mutação. Em 2026, o subclado K da influenza A H3N2, apelidado de “gripe K”, ganhou destaque por sua circulação precoce e acelerada no Hemisfério Norte. “O que colocou esse subclado em destaque foi sua circulação de forma precoce e muito acelerada… antes do pico do inverno”, analisa a Dra. Maria Daniela Bergamasco, também do Einstein.
A boa notícia é que, segundo os especialistas, esta não é uma variante mais agressiva, mantendo os sintomas comuns da gripe. A vacinação anual, mesmo não sendo adaptada especificamente para este subclado, segue sendo a ferramenta central de prevenção, oferecendo proteção relevante.
Paralelamente, as cepas de gripe aviária (H5N1 e H5N5) permanecem sob vigilância apertada. Embora o risco de transmissão sustentada entre humanos continue baixo, os surtos massivos em aves selvagens e os casos esporádicos em mamíferos servem como um lembrete de que o vírus está circulando e acumulando mutações. “Os influenzas aviários demandam vigilância contínua”, frisa Bergamasco.
O Cenário Brasileiro: Arboviroses em Ascensão e o Retorno da Sífilis
No front nacional, os desafios são igualmente urgentes. As arboviroses, doenças transmitidas por mosquitos, seguem em expansão. A dengue, velha conhecida, quebra recordes sucessivos de casos a cada verão. A esperança vem das vacinas: a Qdenga, já em uso, e a Butantan-DV, anunciada no final de 2025 e que promete começar a mudar o cenário. Contudo, até que a imunização em massa seja uma realidade, o combate ao Aedes aegypti permanece crucial.
Uma nova protagonista nesse grupo é a febre oropouche. Transmitida pelo mosquito maruim (ou “pólvora”), a doença, antes restrita à região amazônica, se espalhou por outras partes do país, com registros de óbitos. Sem vacina, a prevenção depende do controle do inseto e do uso de repelentes.
Fora do espectro viral, um inimigo antigo retorna com força: a sífilis. A infecção sexualmente transmissível quebra recordes no Brasil, com mais de 256 mil casos registrados apenas em 2024. O avanço é atribuído a múltiplos fatores, como a queda no uso de preservativos e a falta de testagem em massa. “A chave está mesmo na conscientização”, afirma Bergamasco. O tratamento com penicilina (benzetacil) permanece eficaz e disponível no SUS, mas a batalha é, sobretudo, comportamental e de saúde pública.
O mapa das ameaças infecciosas para 2026 é, portanto, multifacetado. Ele exige dos sistemas de saúde e da população uma postura igualmente diversa: vigilância genômica para vírus em mutação, investimento em vacinas, combate vetorial persistente e, não menos importante, a retomada de práticas de prevenção individual que parecem ter sido esquecidas. A lição que permanece é que, em um mundo globalizado e em transformação ecológica, a saúde é um bem que precisa ser defendido em várias frentes simultaneamente.
- Nipah: Alto Risco Individual, Baixo Risco Pandêmico: Vírus muito letal, mas de transmissão difícil. Preocupação maior para áreas endêmicas na Ásia.
- “Gripe K” (H3N2 subclado K): Nova variante da influenza com transmissão acelerada, mas não mais grave. Reforça a importância da vacinação anual contra a gripe.
- Gripe Aviária (H5N1/H5N5): Risco atual para humanos é baixo, mas a vigilância é constante devido ao potencial de mutação.
- Dengue e Febre Oropouche: As arboviroses avançam no Brasil. Enquanto a vacina da dengue se expande, o combate aos mosquitos (Aedes e maruim) é indispensável.
- Sífilis: Doença bacteriana em ressurgimento alarmante. Uso de preservativo e testagem regular são as formas mais eficazes de controle. O tratamento pelo SUS é eficaz e gratuito.




