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Avanço contra o câncer: vacina de RNA reduz em 49% risco de morte por melanoma em cinco anos

Um dos campos mais promissores da oncologia moderna acaba de ganhar um reforço histórico de credibilidade. Dados de longo prazo divulgados pelas farmacêuticas Moderna e MSD revelaram que sua vacina terapêutica contra o melanoma reduziu em 49% o risco de morte ou recorrência do tumor após cinco anos de acompanhamento. O resultado, referente à fase 2 dos ensaios clínicos, consolida o potencial da tecnologia de RNA mensageiro (RNAm) — a mesma das vacinas contra Covid-19 — como uma arma poderosa e personalizada no combate ao câncer.

Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A vacina, chamada intismeran autogene, não é preventiva, mas um tratamento destinado a pacientes que já passaram pela cirurgia de remoção do melanoma em estágio avançado. Ela é administrada em conjunto com o já consagrado anticorpo monoclonal pembrolizumabe (Keytruda). O estudo comparou a combinação dos dois medicamentos contra o uso do anticorpo isolado em 157 voluntários.

“Agora, com cinco anos de dados de seguimento, os resultados de hoje destacam o potencial de um benefício prolongado”, afirmou Kyle Holen, vice-presidente sênior de desenvolvimento em oncologia da Moderna. O acompanhamento mostrou consistência: a redução de risco se manteve nos 49% já observados no relatório de três anos, que também apontou uma queda de 62% no risco de morte ou metástase à distância.

Como Funciona: Uma Vacina Feita Sob Medida para o Tumor do Paciente

A revolução dessa abordagem está na personalização. Diferente de uma vacina tradicional, a de RNAm para o câncer é fabricada para cada indivíduo. Cientistas sequenciam o material genético do tumor retirado na cirurgia do paciente e identificam neoantígenos — proteínas mutantes específicas daquele câncer. A vacina é então produzida para “ensinar” o sistema imunológico a caçar e destruir células que carreguem essas assinaturas únicas.

“É como dar ao sistema de defesa do corpo uma fotografia atualizada do inimigo”, explica um pesquisador na área de imuno-oncologia. Essa estratégia contorna um dos maiores desafios no tratamento do câncer: a capacidade das células tumorais de “se esconder” do sistema imunológico. A terapia combinada com o Keytruda, que retira os “freios” das células de defesa, potencializa ainda mais o ataque.

Status e Futuro: Caminho para Aprovação e Outros Cânceres

Os resultados positivos renderam à vacina o status de “Terapia Inovadora” pela FDA, a agência reguladora dos EUA, o que pode acelerar sua revisão. A fase 3 final (que define a aprovação comercial) começou em 2023 e deve ser concluída por volta de 2030. Especialistas e empresas são otimistas de que a aprovação regulatória para melanoma e outros cânceres ocorra ainda nesta década.

O melanoma é apenas o começo. A Moderna tem outros sete ensaios clínicos avançados em andamento para tumores como câncer de pulmão, bexiga e renal. A alemã BioNTech, parceira da Pfizer na vacina da Covid-19, também lidera desenvolvimentos semelhantes para melanoma, câncer de pâncreas e colorretal, com dados preliminares igualmente promissores.

No Brasil, a Fiocruz retomou em 2026 um projeto de pesquisa para desenvolver uma vacina de RNAm contra um tipo específico de câncer de mama, ainda em estágio inicial de seleção de antígenos. O anúncio global reacende as esperanças de que, em um futuro próximo, a oncologia poderá contar com um arsenal de tratamentos altamente específicos e eficazes, transformando alguns cânceres letais em doenças gerenciáveis.


Para o Leitor:

  • Tipo de Vacina: É uma vacina terapêutica, ou seja, um tratamento para pacientes que já tiveram melanoma removido cirurgicamente, e não uma prevenção para quem nunca teve a doença.
  • Tecnologia: Utiliza RNA mensageiro (RNAm) personalizado, criado a partir das mutações únicas do tumor de cada paciente.
  • Eficácia: A combinação da vacina com o imunoterápico pembrolizumabe reduziu em 49% o risco de o câncer voltar ou levar à morte em cinco anos.
  • Disponibilidade: Ainda está em fase 3 de testes clínicos. A previsão é que possa estar aprovada e disponível para uso clínico por volta de 2030.
  • Outros Cânceres: A mesma plataforma tecnológica está sendo testada de forma avançada contra outros tumores, como pulmão, pâncreas e bexiga, indicando um novo paradigma no tratamento oncológico.

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